Computação quântica no Brasil: acessar, comprar ou construir?
A decisão não é só sobre onde estará localizado o próximo computador quântico. É sobre qual posição queremos ocupar na nova cadeia tecnológica global

Estamos em 1900, cidade de Berlim. Max Planck, então professor da universidade local, buscava uma explicação teórica para resultados experimentais que desafiavam a física clássica.
Ao propor que a energia poderia ser emitida e absorvida em quantidades discretas, os quanta, ele inaugurou uma transformação científica cujas consequências dificilmente poderiam ser imaginadas naquele momento.
Mais de um século depois, passamos pela formulação do paradoxo EPR – cuja sigla traz a assinatura ímpar de Einstein, Podolsky e Rosen – pelo gato de Schrödinger – cuja representação está presente em diversos ícones da cultura pop – e por sucessivas demonstrações de superposição e emaranhamento, até chegarmos a processadores quânticos que exigem sofisticadíssimos sistemas criogênicos operando próximos do zero absoluto.
A questão deixou de ser apenas compreender o mundo quântico: agora precisamos decidir como utilizar essa tecnologia.
Para o Brasil, essa decisão pode ser sintetizada em três verbos: acessar, adquirir e desenvolver. E talvez esse seja um dos dilemas tecnológicos mais relevantes para os atuais gestores de ciência, tecnologia e inovação.
Devemos utilizar computadores quânticos remotamente, como serviço? QaaS? Devemos adquirir equipamentos e instalá-los em território nacional? Ou devemos investir na construção de nossa própria capacidade tecnológica?
Uma análise SWOT certamente encontraria argumentos favoráveis e contrários para cada alternativa. Talvez nem mesmo um sofisticado algoritmo quântico de otimização fosse capaz de fornecer uma resposta satisfatória.
O verdadeiro ativo estratégico são as pessoas capazes de compreender, utilizar, operar, adaptar e desenvolver essa tecnologia.
Felizmente, o Brasil já começa a experimentar os três caminhos. Em Niterói, o Distrito de Inovação da Cantareira prevê um Hub de Computação Quântica articulado com a IBM Quantum, permitindo acesso remoto a computadores quânticos.
Trata-se de uma estratégia de entrada extremamente relevante: pesquisadores, estudantes, empresas e governo podem experimentar hardware real, desenvolver aplicações e formar competências sem assumir imediatamente os custos e a complexidade de manter uma infraestrutura quântica local. Acesso, nesse contexto, significa acelerar aprendizagem.
Na Paraíba, o CIQuanta, em João Pessoa, representa uma estratégia diferente e complementar, prevendo a instalação de computadores quânticos de 20 e 100 qubits em território brasileiro, acompanhada de transferência tecnológica e formação de pessoal especializado.
Aqui ocorre uma mudança importante: deixa-se de apenas acessar capacidade computacional localizada no exterior para incorporar infraestrutura física ao ecossistema científico nacional. Adquirir não significa apenas possuir uma máquina; significa aprender a operá-la, mantê-la, integrá-la e formar pessoas em torno dela.
COMPUTADOR QUÂNTICO É PARTE DE ALGO MAIOR
O terceiro movimento é talvez o mais difícil e também o mais estratégico: desenvolver. Estamos revendo a história do Lourinha, feito na escola que deu origem ao atual Instituto Militar de Engenharia, onde me formei?
Pesquisadores do CBPF e da Unicamp já avançaram no desenvolvimento de chips contendo qubits supercondutores do tipo transmon, incluindo a fabricação de junções Josephson. Em Pernambuco, a UFPE estrutura o Instituto Quanta, com previsão de infraestrutura para o desenvolvimento de computação quântica fotônica.
Outros grupos, em instituições como Instituto de Física da USP, a Unicamp e o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, também avançam em dispositivos e tecnologias associadas ao hardware quântico.

Ainda estamos distantes de uma máquina universal de grande porte integralmente concebida e fabricada no Brasil, mas construção de soberania tecnológica não começa com a máquina completa: começa com pessoas, componentes, conhecimento e capacidade experimental.
É justamente aqui que acesso, aquisição e desenvolvimento devem ser entendidos não como alternativas concorrentes, mas como um equilíbrio dinâmico de três forças que se retroalimentam. Um autêntico sistema sinérgico e autoalimentado.
O acesso gera conhecimento; o conhecimento permite aquisições mais maduras; a aquisição cria infraestrutura e experiência; essa capacidade sustenta pesquisa e desenvolvimento; e o desenvolvimento, por sua vez, reduz dependências e qualifica novas decisões de acesso e aquisição. Nenhum dos três elementos é suficiente isoladamente.
Adquirir uma máquina significa aprender a operá-la, mantê-la, integrá-la e formar pessoas em torno dela.
Por isso, talvez a pergunta “acessar, comprar ou construir?” esteja formulada de maneira equivocada. O Brasil precisa acessar para aprender, adquirir para criar capacidade e desenvolver para conquistar autonomia. Inspiração total na frase do ex-primeiro ministro Takeo Fukuda no Japão pós-guerra, que, de forma maestral sintetizou o espírito industrial daquela nação.
Comprar prematuramente pode produzir infraestrutura cara e subutilizada; depender exclusivamente da nuvem pode perpetuar dependências estratégicas; tentar construir tudo sozinho, por outro lado, pode consumir tempo e recursos sem aproveitar o conhecimento já disponível internacionalmente.
O computador quântico, portanto, não deve ser visto como o objetivo final. Ele é apenas uma parte de algo maior. O verdadeiro ativo estratégico são as pessoas capazes de compreender, utilizar, operar, adaptar e, progressivamente, desenvolver essa tecnologia.
Leia mais: IBM diz ter entrado na era da vantagem quântica
A decisão não é simplesmente sobre onde estará localizado o próximo computador quântico. É sobre qual posição pretendemos ocupar na nova cadeia tecnológica global: consumidores de capacidade, usuários qualificados ou produtores de conhecimento e tecnologia.
O caminho mais inteligente talvez seja justamente não escolher apenas um deles, mas fazer com que os três avancem juntos e em sinergia.