Computação quântica no Brasil: acessar, comprar ou construir?

A decisão não é só sobre onde estará localizado o próximo computador quântico. É sobre qual posição queremos ocupar na nova cadeia tecnológica global

Computação quântica no Brasil
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Anderson Santos 4 minutos de leitura
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Estamos em 1900, cidade de Berlim. Max Planck, então professor da universidade local, buscava uma explicação teórica para resultados experimentais que desafiavam a física clássica.

Ao propor que a energia poderia ser emitida e absorvida em quantidades discretas, os quanta, ele inaugurou uma transformação científica cujas consequências dificilmente poderiam ser imaginadas naquele momento.

Mais de um século depois, passamos pela formulação do paradoxo EPR – cuja sigla traz a assinatura ímpar de Einstein, Podolsky e Rosen – pelo gato de Schrödinger – cuja representação está presente em diversos ícones da cultura pop – e por sucessivas demonstrações de superposição e emaranhamento, até chegarmos a processadores quânticos que exigem sofisticadíssimos sistemas criogênicos operando próximos do zero absoluto.

A questão deixou de ser apenas compreender o mundo quântico: agora precisamos decidir como utilizar essa tecnologia.

Para o Brasil, essa decisão pode ser sintetizada em três verbos: acessar, adquirir e desenvolver. E talvez esse seja um dos dilemas tecnológicos mais relevantes para os atuais gestores de ciência, tecnologia e inovação.

Devemos utilizar computadores quânticos remotamente, como serviço? QaaS? Devemos adquirir equipamentos e instalá-los em território nacional? Ou devemos investir na construção de nossa própria capacidade tecnológica?

Uma análise SWOT certamente encontraria argumentos favoráveis e contrários para cada alternativa. Talvez nem mesmo um sofisticado algoritmo quântico de otimização fosse capaz de fornecer uma resposta satisfatória.

O verdadeiro ativo estratégico são as pessoas capazes de compreender, utilizar, operar, adaptar e desenvolver essa tecnologia.

Felizmente, o Brasil já começa a experimentar os três caminhos. Em Niterói, o Distrito de Inovação da Cantareira prevê um Hub de Computação Quântica articulado com a IBM Quantum, permitindo acesso remoto a computadores quânticos.

Trata-se de uma estratégia de entrada extremamente relevante: pesquisadores, estudantes, empresas e governo podem experimentar hardware real, desenvolver aplicações e formar competências sem assumir imediatamente os custos e a complexidade de manter uma infraestrutura quântica local. Acesso, nesse contexto, significa acelerar aprendizagem.

Na Paraíba, o CIQuanta, em João Pessoa, representa uma estratégia diferente e complementar, prevendo a instalação de computadores quânticos de 20 e 100 qubits em território brasileiro, acompanhada de transferência tecnológica e formação de pessoal especializado.

Aqui ocorre uma mudança importante: deixa-se de apenas acessar capacidade computacional localizada no exterior para incorporar infraestrutura física ao ecossistema científico nacional. Adquirir não significa apenas possuir uma máquina; significa aprender a operá-la, mantê-la, integrá-la e formar pessoas em torno dela.

COMPUTADOR QUÂNTICO É PARTE DE ALGO MAIOR

O terceiro movimento é talvez o mais difícil e também o mais estratégico: desenvolver.  Estamos revendo a história do Lourinha, feito na escola que deu origem ao atual Instituto Militar de Engenharia, onde me formei?

Pesquisadores do CBPF e da Unicamp já avançaram no desenvolvimento de chips contendo qubits supercondutores do tipo transmon, incluindo a fabricação de junções Josephson. Em Pernambuco, a UFPE estrutura o Instituto Quanta, com previsão de infraestrutura para o desenvolvimento de computação quântica fotônica.

Outros grupos, em instituições como Instituto de Física da USP, a Unicamp e o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, também avançam em dispositivos e tecnologias associadas ao hardware quântico.

adoção da computação quântica
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Ainda estamos distantes de uma máquina universal de grande porte integralmente concebida e fabricada no Brasil, mas construção de soberania tecnológica não começa com a máquina completa: começa com pessoas, componentes, conhecimento e capacidade experimental.

É justamente aqui que acesso, aquisição e desenvolvimento devem ser entendidos não como alternativas concorrentes, mas como um equilíbrio dinâmico de três forças que se retroalimentam. Um autêntico sistema sinérgico e autoalimentado.

O acesso gera conhecimento; o conhecimento permite aquisições mais maduras; a aquisição cria infraestrutura e experiência; essa capacidade sustenta pesquisa e desenvolvimento; e o desenvolvimento, por sua vez, reduz dependências e qualifica novas decisões de acesso e aquisição. Nenhum dos três elementos é suficiente isoladamente.

Adquirir uma máquina significa aprender a operá-la, mantê-la, integrá-la e formar pessoas em torno dela.

Por isso, talvez a pergunta “acessar, comprar ou construir?” esteja formulada de maneira equivocada. O Brasil precisa acessar para aprender, adquirir para criar capacidade e desenvolver para conquistar autonomia. Inspiração total na frase do ex-primeiro ministro Takeo Fukuda  no Japão pós-guerra, que, de forma maestral sintetizou o espírito industrial daquela nação.

Comprar prematuramente pode produzir infraestrutura cara e subutilizada; depender exclusivamente da nuvem pode perpetuar dependências estratégicas; tentar construir tudo sozinho, por outro lado, pode consumir tempo e recursos sem aproveitar o conhecimento já disponível internacionalmente.

O computador quântico, portanto, não deve ser visto como o objetivo final. Ele é apenas uma parte de algo maior. O verdadeiro ativo estratégico são as pessoas capazes de compreender, utilizar, operar, adaptar e, progressivamente, desenvolver essa tecnologia.

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A decisão não é simplesmente sobre onde estará localizado o próximo computador quântico. É sobre qual posição pretendemos ocupar na nova cadeia tecnológica global: consumidores de capacidade, usuários qualificados ou produtores de conhecimento e tecnologia.

O caminho mais inteligente talvez seja justamente não escolher apenas um deles, mas fazer com que os três avancem juntos e em sinergia.


SOBRE O AUTOR

Anderson Santos é pesquisador e especialista em criptografia pós-quântica da empresa de tecnologia Venturus. saiba mais