Computação quântica se aproxima do momento decisivo
Depois de anos de promessas, o setor reúne sinais de maturidade que podem transformar pesquisa científica e segurança digital

Assim como a inteligência artificial tem seus grandes objetivos, como alcançar a inteligência artificial geral (IAG) e a superinteligência, a computação quântica também persegue seu grande marco: atingir uma vantagem ampla e prática sobre os supercomputadores tradicionais.
O objetivo da indústria é construir um computador quântico de grande escala, tolerante a falhas e poderoso o suficiente para resolver problemas complexos e de alto valor econômico em áreas como química, ciência dos materiais e descoberta de novos medicamentos.
Os avanços recentes indicam que essa tecnologia pode estar se aproximando desse ponto. A questão agora é saber se os computadores quânticos finalmente conseguirão sair dos laboratórios e demonstrar superioridade sobre as máquinas convencionais em aplicações práticas que realmente façam diferença.
Os computadores tradicionais armazenam informações em bits, representados por 0 ou 1. Já os computadores quânticos utilizam qubits, pequenos sistemas físicos que obedecem às regras peculiares da mecânica quântica.
Os qubits podem existir em vários estados simultaneamente, permitindo representar informações matemáticas muito mais complexas do que a simples combinação de zeros e uns. Além disso, por meio do fenômeno do emaranhamento quântico, o estado de um qubit pode ficar ligado ao de outro, permitindo que o sistema represente relações ainda mais sofisticadas.
Mas essa promessa vem acompanhada de um enorme desafio de engenharia. Os qubits são extremamente sensíveis ao ambiente, o que dificulta mantê-los em um estado coerente por tempo suficiente para realizar cálculos úteis.
O boom da IA generativa está ajudando a acelerar o desenvolvimento da computação quântica.
Por isso, muitos sistemas quânticos operam com os qubits em temperaturas próximas ao zero absoluto (273,15 °C negativos), reduzindo seu movimento e minimizando interferências causadas por ruídos do ambiente.
Algumas empresas, entre elas o Google, concentram seus esforços em arquiteturas que utilizam qubits adicionais para correção de erros.
Os pesquisadores acreditam que a correção quântica de erros é viável, mas construir sistemas capazes de detectar e corrigir falhas em tempo real, ao mesmo tempo em que escalam para um número muito maior de qubits, continua sendo um dos principais desafios da área.
Superar esse obstáculo pode tornar os computadores quânticos precisos e confiáveis o suficiente para aplicações comerciais de grande impacto.
O QUE ESTÁ ACELERANDO A COMPUTAÇÃO QUÂNTICA
O boom da IA generativa está ajudando a acelerar o desenvolvimento da computação quântica.
Ferramentas de programação baseadas em inteligência artificial estão permitindo que cientistas desenvolvam mais rapidamente os materiais e componentes usados nos projetos de computadores quânticos, afirma Heather West, analista da IDC. Como consequência, os cronogramas de desenvolvimento de produtos estão sendo encurtados.
A consolidação do setor também tem contribuído para esse avanço, reunindo sob o mesmo teto diferentes partes da cadeia tecnológica da computação quântica.

"Havia empresas de software quântico espalhadas por vários lugares, mas elas não estavam necessariamente integradas. Isso dificultava o desenvolvimento da tecnologia, porque todas essas subtecnologias também precisavam evoluir de forma coordenada", explica West.
Além disso, o governo dos Estados Unidos está usando sua influência para acelerar o setor. Em 22 de junho, a Casa Branca publicou duas ordens executivas relacionadas à computação quântica.
Uma delas determina que órgãos federais, incluindo o Departamento de Energia, trabalhem em parceria com empresas privadas e universidades para colocar em operação, até 2028, um computador quântico capaz de realizar pesquisas científicas.
A outra orienta agências do governo e especialistas em segurança a se prepararem para sistemas quânticos capazes de quebrar os métodos atuais de criptografia mais cedo do que se imaginava, com o objetivo de proteger infraestruturas críticas contra ataques viabilizados por essa tecnologia.
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Em maio, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos anunciou que concederá US$ 2 bilhões em subsídios a nove empresas de computação quântica para acelerar o desenvolvimento comercial da tecnologia e seu uso em segurança nacional. Em parte desses acordos, o governo também assumirá participações acionárias minoritárias nas empresas.
Algumas dessas metas podem ser ambiciosas, mas estabelecem uma direção clara. Elas mostram que Washington leva a computação quântica a sério e considera a tecnologia suficientemente madura para representar, nos próximos anos, tanto oportunidades econômicas quanto riscos para a segurança nacional.
O PROBLEMA DO "Q-DAY"
O avanço da computação quântica também traz riscos consideráveis. O principal deles é que esses computadores provavelmente se tornarão capazes de quebrar os sistemas de criptografia de chave pública que hoje protegem contas bancárias, segredos militares, infraestruturas de criptomoedas e boa parte da internet moderna.
Especialistas em cibersegurança chamam esse momento de Q-Day. Segundo Heather West, trata-se de uma preocupação real, embora o senso de urgência varie conforme o público.

Diretores de tecnologia (CIOs) e executivos responsáveis pela segurança da informação em empresas da lista Fortune 500 conhecem o risco, mas muitos ainda o enxergam como um problema de médio ou longo prazo.
No momento eles enfrentam desafios mais imediatos, relacionados à proteção de dados diante de modelos de IA cada vez mais poderosos, como o Mythos, da Anthropic, e o GPT 5.6, da OpenAI.
Já a Casa Branca e as agências de segurança nacional dos EUA demonstram maior preocupação com a possibilidade de que governos hostis utilizem computadores quânticos para roubar informações sigilosas ou provocar caos ao romper a criptografia que protege sistemas financeiros e infraestruturas críticas.
DESTA VEZ VAI SER DIFERENTE?
Seja movido pelo medo, pela expectativa de ganhos financeiros ou pela combinação dos dois, o setor de computação quântica parece diferente em 2026. Isso é importante porque a área já passou por vários ciclos de entusiasmo exagerado.
"Vi todos os altos e baixos do setor. Por volta de 2020 e 2021, houve um aumento repentino nos investimentos de capital", lembra West. "Naquele momento, essa seria a próxima grande tecnologia, e os fornecedores diziam que, em dois anos, seríamos capazes de fazer coisas incríveis."
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Mas, na época, a computação quântica ainda era extremamente complexa e difícil de ser compreendida fora do meio acadêmico.
Os avanços necessários para estabilizar e ampliar o uso dos qubits pareciam sempre distantes, levando investidores a direcionar recursos para tecnologias com retorno mais imediato, especialmente a inteligência artificial. Agora, porém, o cenário pode estar mudando.
"Quando observamos o número de aquisições e fusões, a quantidade de ofertas públicas de ações que aconteceram ou ainda estão em andamento e os investimentos do governo, estamos vendo algo completamente diferente", afirma West. "Acredito que, em um ou dois anos, esse mercado vai decolar."