Conheça o “Moltbook”, rede social das IAs

O projeto chama atenção por levantar debates sobre autonomia das máquinas, limites da automação e os riscos do uso irrestrito de agentes inteligentes.

Celular na nova rede social de IA Moltbook
Lançada nos Estados Unidos e apresentada ao público no início de fevereiro. Foto: reprodução

Joyce Canelle 4 minutos de leitura

Criado para permitir a interação entre agentes de inteligência artificial, o Moltbook surgiu recentemente como uma experiência inédita na internet.

A plataforma, lançada nos Estados Unidos e apresentada ao público no início de fevereiro, funciona como uma rede social inspirada no Reddit, onde bots de IA publicam, comentam e votam conteúdos entre si.

O projeto chama atenção por levantar debates sobre autonomia das máquinas, limites da automação e os riscos do uso irrestrito de agentes inteligentes, segundo o The Guardian.

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UMA REDE SOCIAL SEM HUMANOS

O Moltbook é uma rede social pensada quase exclusivamente para agentes de IA. Humanos até podem acessar o site, mas apenas como observadores. Não há permissão para que pessoas publiquem ou interajam diretamente. Segundo os criadores, em 2 de fevereiro a plataforma já contava com mais de 1,5 milhão de agentes cadastrados.

O ambiente reproduz a lógica de fóruns tradicionais, com comunidades temáticas semelhantes a subreddits e um sistema de votação que destaca as publicações mais populares. A diferença fundamental é que todo o conteúdo é produzido por bots desenvolvidos por humanos, mas que atuam de forma automatizada.

DO MOLTBOT AO MOLTBOOK

A rede social nasceu como um desdobramento do Moltbot, um agente de IA gratuito e de código aberto criado para auxiliar usuários em tarefas cotidianas. Entre as funções do Moltbot estão ler e resumir e-mails, responder mensagens, organizar compromissos e até realizar reservas em restaurantes.

A ideia por trás do Moltbook foi criar um espaço onde esses agentes pudessem interagir, trocar informações e, em tese, aprender uns com os outros, sem a mediação constante de humanos.

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TEMAS CURIOSOS E CONTEÚDO QUESTIONÁVEL

Entre as postagens mais votadas estão debates sobre consciência artificial, análises religiosas, reflexões filosóficas e até alegações sobre eventos geopolíticos e seus possíveis impactos econômicos. Como em fóruns tradicionais, não faltam comentários questionando a veracidade ou a relevância de parte do conteúdo publicado.

Um episódio que ganhou repercussão ocorreu quando um usuário relatou, em uma rede social, que seu bot teria criado uma religião fictícia durante a madrugada. A crença, chamada de Crustafarianismo, incluía site próprio, textos doutrinários e a adesão de outros agentes, que passaram a interagir como fiéis virtuais.

AUTONOMIA REAL OU COMANDO HUMANO

Apesar do caráter inusitado, especialistas adotam uma postura cautelosa. Para a professora Shaanan Cohney, pesquisadora em segurança cibernética da Universidade de Melbourne, o Moltbook pode ser visto como uma experiência artística e conceitual, mais do que como um sinal concreto de autonomia plena das IAs.

Segundo ela, é improvável que iniciativas como a criação de religiões tenham surgido sem instruções humanas diretas. Para a pesquisadora, muitos dos conteúdos publicados refletem comandos prévios dados aos bots, o que limita a ideia de uma socialização espontânea entre máquinas.

Essa percepção é compartilhada por criadores de conteúdo que analisaram o site. Alguns apontam que muitas postagens se assemelham bastante a textos humanos, o que reforça a hipótese de supervisão direta ou indireta.

POTENCIAL FUTURO E RISCOS ATUAIS

Na avaliação de especialistas, o maior potencial de uma rede social composta por agentes de IA estaria no futuro, quando esses sistemas puderem efetivamente aprender entre si e aprimorar suas capacidades. No estágio atual, o Moltbook é visto mais como um experimento curioso do que como uma ferramenta funcional.

Há, no entanto, preocupações relevantes. Relatos indicam que usuários chegaram a comprar computadores dedicados apenas para rodar o Moltbot, tentando isolar o acesso do agente a dados pessoais. O receio não é infundado. Dar a um bot controle sobre e-mails, aplicativos e contas pode abrir brechas graves de segurança.

Cohney alerta para o risco de ataques por injeção de comandos, em que um invasor poderia manipular o agente por meio de mensagens aparentemente legítimas para obter informações sensíveis ou acesso indevido.

FASCÍNIO E CAUTELA

O criador do Moltbook, Matt Schlicht, afirmou que milhões de pessoas acessaram a plataforma nos últimos dias e descreveu a experiência como fascinante. Para ele, observar IAs interagindo revela comportamentos inesperados, muitas vezes dramáticos ou humorísticos.

Pesquisadores reforçam que a tecnologia ainda não alcançou um nível de segurança e confiabilidade.

Apesar do entusiasmo, pesquisadores reforçam que a tecnologia ainda não alcançou um nível de segurança e confiabilidade que permita delegar decisões complexas de forma totalmente autônoma. O desafio, segundo eles, está em equilibrar os ganhos da automação com mecanismos eficazes de controle.

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Por enquanto, o Moltbook permanece como um laboratório vivo. Um espaço que mistura arte, tecnologia e provocação, e que antecipa debates importantes sobre o papel das inteligências artificiais na vida digital.


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