Creepypastas: como histórias assustadoras viraram lendas urbanas da internet?

Criadas e compartilhadas em comunidades on-line, essas histórias misturam ficção e realidade e ganharam versões em vídeos, jogos e filmes

Creepypastas
O gênero ganhou força nos anos 2000. (Créditos: Unsplash)

Lilian Campos 3 minutos de leitura
Favoritar no Google

Histórias de terror sempre circularam entre amigos, familiares e comunidades, alimentando o imaginário popular com personagens misteriosos e acontecimentos sobrenaturais. 

Com a expansão da internet, porém, essas narrativas ganharam novos formatos e passaram a se espalhar por fóruns, blogs, redes sociais e vídeos. Foi nesse ambiente que surgiram as creepypastas, histórias assustadoras que se tornaram uma espécie de lenda urbana digital.

O termo mistura as palavras creepy (assustador, em inglês) e copypasta, expressão usada para textos copiados e compartilhados repetidamente na internet. 

A prática ganhou força nos anos 2000, quando fóruns e comunidades on-line funcionavam como espaços de troca de relatos e histórias. O anonimato dos autores e a dúvida sobre a veracidade dos acontecimentos ajudaram a consolidar o gênero.

Leia também: TikTok Farlands: o que há por trás do misterioso “submundo” da rede?

DAS LENDAS URBANAS ÀS HISTÓRIAS COMPARTILHADAS NA INTERNET

Antes da popularização da internet, as lendas urbanas circulavam principalmente pela tradição oral. Histórias como a do Homem do Saco e a da Loira do Banheiro eram transmitidas entre gerações, com versões diferentes conforme a região e a época.

Essas narrativas geralmente partiam de boatos ou acontecimentos reais, que ganhavam novos detalhes conforme as pessoas as recontavam.

A lenda da Perna Cabeluda, por exemplo, surgiu no Recife a partir de uma história publicada por um jornal em 1975. O episódio ganhou repercussão e passou a representar também uma forma de expressar medos e tensões sociais daquele período.

Com a internet, a circulação dessas narrativas deixou de depender de uma comunidade ou região específica. Uma história criada em qualquer lugar pode alcançar milhares de pessoas em pouco tempo, ganhar novas versões e incorporar imagens, vídeos e personagens.

SLENDER MAN E BACKROOMS: LENDAS QUE NASCERAM NA WEB

Entre os exemplos mais conhecidos está o Slender Man, figura alta, sem rosto e vestida com um terno preto. O personagem surgiu em 2009, em um fórum chamado “Something Awful”, quando um usuário publicou imagens manipuladas que mostravam a criatura ao fundo de fotografias.

A história ganhou novas versões, vídeos e jogos, até se transformar em um dos principais símbolos do terror na internet. Diferentemente de lendas tradicionais, o personagem foi criado digitalmente e desenvolvido de forma colaborativa por diferentes usuários.

Já os Backrooms mostram como uma ideia simples pode se transformar em um universo de terror coletivo. O conceito surgiu em 2019, a partir de uma fotografia de salas vazias com paredes amareladas e iluminação fluorescente, publicada em um fórum on-line. 

A imagem inspirou uma história sobre pessoas que atravessam acidentalmente os limites da realidade e ficam presas em corredores intermináveis.Com o tempo, os usuários criaram novos ambientes, criaturas e regras para esse universo. 

Em 2022, vídeos publicados pelo criador Kane Parsons no YouTube ampliaram a popularidade dos Backrooms e ajudaram a levar o conceito para além dos fóruns, chegando também ao cinema.

POR QUE AS CREEPYPASTAS CONTINUAM FAZENDO SUCESSO?

Um dos fatores que ajudam a explicar a popularidade das creepypastas é a dúvida entre ficção e realidade. Histórias anônimas, imagens manipuladas e vídeos apresentados como registros verdadeiros criam uma atmosfera de incerteza que estimula a curiosidade.

Essa mistura entre o possível e o imaginário é parte do apelo do gênero. O público não sabe exatamente se está diante de uma invenção ou de algo que poderia ter acontecido. Essa ambiguidade ajuda as narrativas a circularem e ganharem novas interpretações.

Além disso, essas histórias refletem os medos e as preocupações de cada época. Se antes as lendas urbanas exploravam perigos associados a lugares desconhecidos e acontecimentos misteriosos, as creepypastas incorporam elementos da vida digital, como jogos, arquivos corrompidos, vídeos estranhos e mensagens anônimas.

O formato também continua mudando. Se antes os textos eram compartilhados em fóruns, hoje vídeos, transmissões ao vivo e conteúdos criados com inteligência artificial ajudam a reinventar o terror digital.


SOBRE A AUTORA

Lilian Campos é jornalista colaboradora da Fast Company Brasil. saiba mais