Criminosos usam cursos online para ensinar a dar golpes; entenda

As comunidades funcionam como verdadeiras “escolas digitais” do crime, com promessas de lucro rápido, sigilo e baixo risco de punição

Mãos com luva preta mexendo em um notebook
As comunidades online funcionam como “escolas digitais” do crime. Crédito: Freepik

Larissa Crippa 5 minutos de leitura

Grupos e canais no Telegram têm sido usados por criminosos para ensinar, passo a passo, como aplicar golpes virtuais. As comunidades funcionam como “escolas digitais” do crime, com promessas de lucro rápido, sigilo e baixo risco de punição.

Os conteúdos que explicam desde abordagens iniciais até formas de movimentar o dinheiro obtido ilegalmente são disseminados livremente no ambiente digital. Em muitos casos, os materiais inclusive são vendidos como cursos, com linguagem semelhante à de mentorias financeiras ou treinamentos de marketing digital, como mostra reportagem recente do portal de notícias ND Mais.

O crescimento desse tipo de conteúdo acompanha a expansão do estelionato virtual no país. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública indicam que o crime é hoje o mais comum no Brasil.

Entre julho de 2023 e junho de 2024, o prejuízo estimado chegou a R$ 25,5 bilhões. Em seis anos, os registros cresceram mais de 3.500%, impulsionados pela digitalização dos serviços financeiros e pela popularização do Pix.

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COMO FUNCIONAM OS "CURSOS" PARA CRIMES ONLINE?

Em diversos canais de aplicativos de mensagem, os administradores utilizam frases motivacionais e promessas de independência financeira para atrair novos participantes.

Os conteúdos são compartilhados majoritariamente pelo Telegram e incluem tutoriais básicos, venda de dados pessoais e até aulas de programação para esquemas mais sofisticados.

Os grupos operam com automação e funcionam 24 horas, com bots que enviam notificações, orientações e respostas para dúvidas. Em alguns casos, há programas de indicação, nos quais o participante recebe comissão por recrutar novos integrantes.

A promessa de ganhos rápidos e o discurso de que o risco de punição é baixo são elementos centrais para convencer os interessados. 

O QUE OS GOLPISTAS ENSINAM?

Entre os esquemas divulgados estão golpes já conhecidos, mas adaptados para o ambiente digital. Um dos mais frequentes é o da chamada “virada de saldo”, que utiliza dados bancários vazados para transferir dinheiro da conta da vítima.

Outros golpes envolvem engenharia social, técnica baseada na manipulação psicológica. Criminosos pressionam a vítima com senso de urgência, medo ou confusão para induzir transferências via Pix ou compartilhamento de códigos.

Também circulam ofertas de venda de dados pessoais, tutoriais para falsos atendimentos bancários e promessas de “serviços” para prejudicar terceiros, como fraudes de crédito.

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RECRUTAMENTO DE LARANJAS

Uma parte essencial do "método" é o aliciamento de “laranjas”, pessoas que cedem contas bancárias para movimentar o dinheiro roubado. Segundo a apuração, administradores enviam listas com valores, porcentagens e instruções detalhadas para a lavagem de dinheiro.

Em troca, os recrutados recebem uma pequena comissão. Muitos não percebem que participam de crime ou subestimam os riscos legais.

FALTA DE FISCALIZAÇÃO É PROBLEMA GRAVE

A plataforma se tornou atrativa para criminosos por reunir características como grupos grandes, automação, anonimato relativo e criptografia.

Segundo a reportagem, pela baixa fiscalização do Telegram no Brasil, o aplicativo funciona como uma ponte entre fóruns clandestinos e mercados da dark web.

COMO SE PROTEGER?

Especialistas em segurança costumam recomendar atenção a contatos inesperados, especialmente quando há pressão para agir rapidamente. Bancos não pedem transferências, códigos ou senhas por telefone, mensagem ou redes sociais.

Também é importante desconfiar de promessas de dinheiro fácil, ofertas de trabalho com pagamento rápido e solicitações para usar contas bancárias em nome de terceiros.

O uso de autenticação em duas etapas, verificação de dados antes de qualquer transação e contato direto com instituições financeiras são medidas fundamentais.

A orientação é registrar um Boletim de Ocorrência em caso de tentativa ou golpe consumado e buscar suporte do banco imediatamente. A prevenção ainda é a principal defesa diante da expansão desse tipo de crime digital, já que existe uma dificuldade burocrática para reaver o dinheiro roubado.

IDEIA DE CRIME SEM PUNIÇÃO É MENTIROSA

Segundo autoridades, qualquer pessoa que participe deste tipo de esquema, mesmo que indiretamente, pode ser punida. Isso inclui administradores de grupos, vendedores de dados, recrutadores de laranjas e intermediários financeiros.

A atuação em diferentes etapas do crime não impede a responsabilização, como os bandidos tentam vender para seus “alunos”. Quem recruta, quem ensina, quem fornece lista de vítimas ou até faz a intermediação desses pagamentos, também pode ser responsabilizado.

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QUAIS CRIMES PODEM SER APLICADOS?

Na prática, pelo menos quatro tipos de infrações podem ser identificadas nesses esquemas.

O principal é o estelionato eletrônico, previsto no artigo 171 do Código Penal. Quando a fraude ocorre pela internet ou meios digitais, a pena pode chegar a quatro a oito anos de prisão, além de multa.

Também pode haver enquadramento por associação criminosa, quando há organização entre duas ou mais pessoas para a prática de golpes. Nesse caso, a pena varia de um a três anos.

Outra possibilidade é a invasão de dispositivo informático, prevista no artigo 154-A, especialmente quando há acesso indevido a contas, celulares ou sistemas para obter dados. A pena varia de um a quatro anos, podendo aumentar se houver prejuízo financeiro ou divulgação das informações.

Além da esfera penal, há consequências administrativas e civis relacionadas à Lei Geral de Proteção de Dados aos criminosos. O uso, venda ou compartilhamento ilegal de informações pessoais pode gerar multas que chegam a 2% do faturamento da empresa envolvida, com limite de R$ 50 milhões por infração.

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