Você já sentiu a luz do computador penetrando nos seus olhos e fazendo sua cabeça latejar? Ou sentiu tontura ou náusea depois de olhar para o celular? Muita gente pensa que essas sensações são apenas cansaço visual ou fadiga por ficar longas horas na frente de uma tela, mas esses são sintomas de uma condição chamada cybersickness.

Esses problemas podem parecer um mal necessário do trabalho em casa, o aprendizado remoto e os dias passados ​​sem parar navegando online. Como pesquisadora em interação humano-computador, especializada em ciberdoenças, garanto que há maneiras de antecipar e evitar o enjôo das telas.

O QUE É CYBERSICKNESS?

Cybersickness, ou enjoo cibernético, se refere a um conjunto de sintomas que ocorrem na ausência de movimento físico, semelhante ao enjôo. Esses sintomas se enquadram em três categorias: náuseas, problemas oculomotores e desorientação geral. Os sintomas oculomotores, como cansaço visual, fadiga e dores de cabeça, envolvem sobrecarga do nervo que controla o movimento dos olhos. A desorientação pode se manifestar como tontura e vertigem. Vários sintomas de ciber-náusea, como dificuldade de concentração e visão turva, se sobrepõem às categorias. Esses problemas podem persistir por horas e afetar a qualidade do sono.

As pessoas experimentam sintomas de cybersickness por meio dos dispositivos do dia a dia, como computadores, celulares, e TV. Por exemplo, a Apple lançou, em 2013, um efeito de paralaxe nas telas de bloqueio do iPhone em que fazia a imagem de fundo parecer que flutuava ou mudava quando um usuário movia o celular — o que muita gente achou extremamente desconfortável. Isso ocorreu porque o efeito desencadeou sintomas de cybersickness. A rolagem paralaxe em sites, na qual uma imagem de fundo permanece estática enquanto o conteúdo do primeiro plano se move conforme a rolagem, também pode provocar esses sintomas.

Entre os pesquisadores, não existe um consenso geral sobre porque as pessoas experienciam a cybersickness. Uma ideia prevalecente é a teoria do conflito sensorial. A hipótese é de que as partes do corpo responsáveis por regular a visão e o equilíbrio percebem informações incompatíveis. Os olhos recebem a informação de que o corpo está em movimento, enquanto ele está de fato parado. O design das tecnologias cotidianas pode desencadear esse conflito entre a percepção visual e a experiência física.

CYBERSICKNESS EM REALIDADE VIRTUAL E AUMENTADA

Os sintomas de cybersickness tendem a se intensificar com realidade virtual e realidade aumentada.

VR’s são uma tecnologia que bloqueia totalmente a visão do mundo real e a substitui por um ambiente virtual imersivo. Eles são amplamente comercializados em plataformas populares de games, como dispositivos Oculus do Facebook e Sony PlayStation VR. O uso excessivo de RV (realidade virtual) pode resultar em níveis graves de náusea que aumentam com a duração do uso. Isso pode tornar certos apps e jogos prejudiciais ​​para muitas pessoas.

RA (realidade aumentada), por outro lado, sobrepõe o mundo real com um ambiente simulado. Pokémon Go no celular ou tablet, é um exemplo de realidade aumentada, em que o usuário consegue enxergar ao seu redor enquanto joga — o que tende a agravar a tensão oculomotora. 

Mesmo quem nunca usou um dispositivo RA ou RV antes, a projeção é de que provavelmente o fará nos próximos 10 anos. Uma pesquisa da empresa Research and Markets estima que a adoção dessas tecnologias para trabalho, educação e entretenimento pode crescer mais de 60% e chegar a mais de US$ 900 bilhões em 2027. Um aumento na popularidade do uso de RA e RV poderá desencadear um aumento nos sintomas de ciber-enjoo.  

SINTOMAS DE CYBERSICKNESS PODEM SER PERIGOSOS

Embora os sintomas de cybersickness pareçam benignos inicialmente, eles têm o potencial de durar até 24 horas após o uso do dispositivo. Pode não parecer grande coisa no início, mas a persistência desses sintomas pode afetar seriamente a capacidade de funcionar do organismo. 

Forte dor de cabeça, cansaço visual ou tontura, por exemplo, afetam a coordenação e atenção. Se esses efeitos colaterais persistirem enquanto uma pessoa está dirigindo, isso pode ocasionar um acidente. É incerto se o usuário, a empresa de software, ou alguma outra parte seria responsabilizada por lesões potencialmente causadas pelo uso do dispositivo e sintomas de cybersickness.

Atualmente, não se sabe muito sobre como a ciber-doença crônica afeta a vida diária. Assim como há extrema variabilidade sobre quem é mais propenso a enjôo (alguns casos possuem até 10 mil vezes mais risco), algumas pessoas podem ser mais propensas a enjoo cibernético do que outras. Evidências sugerem que mulheres, indivíduos que não jogam videogame com frequência e pessoas com equilíbrio insuficiente podem ter cybersickness mais grave.

LIDANDO COM OS SINTOMAS DA CYBERSICKNESS 

Existem maneiras de aliviar o desconforto após usar o celular ou o computador por períodos mais longos. Os óculos de luz azul são projetados para bloquear algumas das ondas de luz azul emitidas pela tela do dispositivo que podem causar fadiga ocular e irregularidades no sono. Aumentar o zoom da tela ou usar tamanhos de fonte maiores também pode ajudar a reduzir o cansaço visual e tornar o trabalho diário mais suportável.

Quem tende a ficar enjoado, mas tem interesse em testar dispositivos RA e RV, deve procurar os indicadores de advertência, como o Oculus Comfort Ratings. A recomendação é sempre calibrar visualmente os dispositivos para que os olhos fiquem o mais confortáveis ​​possível e usar os apetrechos apenas em espaços abertos, minimizando o risco de lesões no caso de tontura ou perda de equilíbrio. Faça pausas se começar a sentir algum desconforto. 

Embora a conveniência da tecnologia seja inegável, ela também vem com uma consciência cada vez maior de como pode ser difícil olhar para uma tela por mais de 40 horas por semana. À medida que pesquisadores continuam a encontrar maneiras de mitigar e prevenir o enjoo cibernético, as pessoas um dia poderão desfrutar dos avanços sem sentir vertigem. 

SOBRE A AUTORA

Angelica Jasper é candidata a PhD em Interação Humano-Computador na Iowa State University. Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.