Da ficção científica ao consultório: a era da “internet dos seres”

Sensores internos, biorrobôs e dados em tempo real podem redefinir prevenção, tratamento e pesquisa médica

cabeça composta por bancos de dados
Crédito: Floriana/ Getty Images

Francesco Grillo 4 minutos de leitura

No filme "Viagem Fantástica" (1966), uma nave espacial e sua tripulação são reduzidas a tamanho microscópico e injetadas no corpo de um astronauta ferido para remover um coágulo sanguíneo que ameaça sua vida.

O longa-metragem, vencedor do Oscar e mais tarde transformado em livro por Isaac Asimov, parecia pura fantasia na época. No entanto, antecipou o que pode ser a próxima revolução da medicina: a ideia de que sensores cada vez menores e mais sofisticados estão prestes a entrar em nossos corpos, conectando seres humanos à internet.

Essa chamada “internet dos seres” pode representar a terceira – e definitiva – fase da evolução da internet. Depois de conectar computadores, na primeira fase, e objetos do cotidiano, na segunda, os sistemas globais de informação passariam a se ligar diretamente aos nossos órgãos.

Segundo cientistas naturais que se reuniram recentemente em Dubai para a conferência Protótipos para a Humanidade, esse cenário está se tornando tecnicamente viável. O impacto sobre pessoas, indústrias e sociedades tende a ser enorme.

A ideia de digitalizar o corpo humano desperta tanto sonhos quanto pesadelos. Alguns bilionários do Vale do Silício fantasiam sobre viver para sempre, enquanto especialistas em segurança alertam que os riscos de “hackear” corpos superariam em muito os atuais problemas de cibersegurança. Essa tecnologia deve trazer ao menos três consequências radicais.

DA PESQUISA MÉDICA AO DISGNÓSTICO E TRATAMENTO

A primeira é que o monitoramento permanente da saúde tornará muito mais fácil detectar doenças antes que elas se desenvolvam. Tratar enfermidades custa muito mais do que prevení-las, mas o rastreamento sofisticado pode substituir muitos medicamentos por medidas menos invasivas, como mudanças na dieta ou rotinas de exercício mais personalizadas.

Milhões de mortes poderiam ser evitadas simplesmente com alertas enviados a tempo. Apenas nos Estados Unidos, cerca de 170 mil dos 805 mil ataques cardíacos registrados anualmente são considerados “silenciosos”, porque as pessoas não reconhecem os sintomas.

A segunda consequência é que os sensores – talvez mais bem descritos como biorrobôs, já que provavelmente serão feitos de gel – estão se tornando capazes não apenas de monitorar o corpo, mas também de curá-lo ativamente. Eles poderiam liberar doses de aspirina ao detectar um coágulo sanguíneo ou ativar vacinas quando vírus atacam o organismo.

Cena do filme "Viagem Fantástica"
Cena do filme "Viagem Fantástica" {Crédito: 20th Century-Fox/ Getty Images)

As vacinas de mRNA desenvolvidas para a Covid-19 podem ter aberto essa fronteira. Avanços em tecnologias de edição genética podem até levar a biorrobôs capazes de realizar microcirurgias com minúsculas “tesouras” feitas de proteínas, reparando DNA danificado.

A terceira e mais importante transformação diz respeito à pesquisa médica e à descoberta de medicamentos, que seriam completamente redefinidas. Hoje, cientistas formulam hipóteses sobre substâncias que podem funcionar contra determinadas doenças e depois as testam em ensaios caros e demorados.

Na era da internet dos seres, o processo se inverte: grandes bases de dados revelam padrões do que funciona para um problema, e os cientistas trabalham de trás para frente para entender o porquê. As soluções seriam desenvolvidas de forma muito mais rápida, barata e precisa.

TRANSFORMAÇÕES RADICAIS

A era da medicina padronizada, do tipo “tamanho único”, está chegando ao fim, mas a internet dos seres levará essa mudança muito além. Cada pessoa poderá receber orientações diárias sobre doses de medicamentos ajustadas a microvariações, como temperatura corporal ou qualidade do sono.

A própria organização da pesquisa médica passará por uma transformação profunda. Enormes volumes de dados coletados de corpos vivendo suas rotinas naturais podem revelar, por exemplo, que algumas dores de cabeça são causadas pela forma como caminhamos, ou que cérebro e pés influenciam um ao outro de maneiras inesperadas.

médica experimenta estetoscópio equipado com inteligência artificial
Crédito: ktsimage/ Getty Images

Atualmente, a pesquisa se concentra em doenças e órgãos específicos. No futuro, isso pode dar lugar ao uso de “gêmeos digitais” cada vez mais sofisticados – modelos virtuais da biologia de uma pessoa, atualizados em tempo real com seus dados de saúde.

Essas simulações poderão ser usadas para testar tratamentos, prever respostas do corpo e explorar doenças antes mesmo de elas surgirem. Essa mudança alteraria de forma fundamental o que entendemos por ciências da vida.

O sonho aqui não é derrotar o envelhecimento, como defendem alguns transumanistas. O objetivo é mais concreto: tornar o sistema de saúde acessível a todos, derrotar o câncer, alcançar países mais pobres e ajudar as pessoas a viverem mais e sem doenças.

Créditos: Yusuf Çelik/ Pexels/ AndreyPopov/ iStock

O pesadelo, por outro lado, envolve o risco de perdermos nossa humanidade ao digitalizar o corpo. A internet dos seres é uma das possibilidades mais fascinantes abertas pela tecnologia, mas precisa ser explorada com cautela.

Estamos retomando a viagem que a humanidade iniciou nos otimistas anos 1960, quando pisamos em um planeta alienígena pela primeira vez. Só que agora, o território estranho que estamos explorando somos nós mesmos.

Este artigo foi encomendado em conjunto com o Programa de Professores, parte do Protótipos para a Humanidade, iniciativa global que destaca e acelera inovações acadêmicas voltadas à solução de desafios sociais e ambientais.

Este artigo foi publicado no "The Conversation" e reproduzido sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.


SOBRE O AUTOR

Francesco Grillo é pesquisador acadêmico do Departamento de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Bocconi. saiba mais