Dois tipos de futuros, duas formas de ler o mercado
Entre o Lego Smart Brick e o CyberBrick, a pergunta que fica não é quem vence, mas sim que tipo de criatividade queremos cultivar

Há duas maneiras clássicas de uma empresa se orientar no tempo. A primeira é seguir tendências: movimentos já grandes, visíveis, confirmados por demanda, mídia, investimentos e comportamento. A segunda é levar a sério sinais fracos: mudanças ainda pequenas, às vezes periféricas, que carregam uma lógica nova e, quando amadurecem, reorganizam o jogo.
A Consumer Electronics Show (CES 2026) é, por definição, um terreno fértil para tendências. Foi nesse contexto que a Lego apresentou o Lego Smart Play e o seu Smart Brick, com lançamento anunciado para 1º de março.
A proposta é elegante e altamente competente: colocar sensores, luzes e sons dentro de um bloco tão familiar, sem depender de telas, preservando o gesto original do brincar e adicionando uma camada de responsividade que conversa com o repertório digital de hoje.
É um exemplo claro de execução orientada por tendência: reduzir fricção, ampliar acessibilidade, entregar magia com consistência.
O sinal fraco, por outro lado, raramente se anuncia em palcos. Ele costuma surgir em comunidades, ferramentas e práticas que transformam consumidores em autores.
Nos últimos anos, a Bambu Lab se consolidou rapidamente como uma das protagonistas do ecossistema maker, não apenas pelo hardware de impressão 3D, mas por estruturar uma camada comunitária, o MakerWorld, onde projetos circulam, evoluem e se remixam.
É desse terreno que nasce o CyberBrick, descrito como um ecossistema modular de “smart toys” que combina hardware programável e estruturas imprimíveis, com ambientes de codificação em dois níveis e suporte a MicroPython.

Vale notar um detalhe importante para essa leitura: o CyberBrick já está na rua há algum tempo. Ele teve pré-lançamento anunciado em março de 2025, com movimento em torno do Kickstarter e comunidade, antes de receber uma vitrine equivalente ao impacto simbólico de um grande evento de indústria.
Isso não é crítica, nem disputa por holofotes. É, em grande medida, a anatomia do novo: sinais fracos crescem por acúmulo, por repetição e por utilidade real, até que se tornem impossíveis de ignorar.
QUANDO A TECNOLOGIA VIRA "APARELHO"
É aqui que o filósofo Vilém Flusser entra como provocação útil. Em sua reflexão sobre a “caixa-preta”, ele descreve aparelhos como sistemas complexos cujo interior se torna opaco para o usuário.
Aprendemos a operar e a explorar possibilidades, mas dentro de um conjunto de regras programadas por outros. A criatividade, então, tende a se parecer com um jogo bem desenhado: prazeroso, poderoso, porém delimitado.

O Smart Brick, visto por esse prisma, é uma caixa-preta exemplar no melhor sentido da palavra. Ele entrega um mundo coerente, intuitivo, com altíssima qualidade de experiência. A complexidade vira infraestrutura invisível. Isso é virtuoso quando o objetivo é ampliar o acesso, reduzir barreiras e tornar o brincar mais fluido.
A pergunta de Flusser, no entanto, não é moralista, é estrutural: o que acontece com a cultura quando nos habituamos a criar apenas dentro das possibilidades previstas pelo aparelho? Quando a magia funciona sempre, o risco é que a autoria vire apenas combinação, e que a invenção passe a depender do que o programa considera “permitido”.
AUTORIA COMO MÉTODO, NÃO COMO RECURSO
O CyberBrick aponta para outra estratégia. Em vez de esconder o sistema, ele o expõe o suficiente para que o usuário atravesse a fronteira entre uso e criação. A diferença não está em “ter tecnologia”, mas em onde a tecnologia se posiciona na experiência: no Smart Brick, ela coreografa; no CyberBrick, ela convoca.
Esse convite é mais exigente. Ele troca conveniência por agência. Pede disposição para aprender, errar, iterar, compartilhar. Mas oferece uma recompensa rara: a passagem da criatividade como consumo para a criatividade como prática.
E aqui a comunidade não é acessório, é infraestrutura. Cada projeto publicado, cada tutorial, cada remix bem documentado reduz a distância entre o curioso e o autor.
DUAS ESTRATÉGIAS LEGÍTIMAS, DUAS PERGUNTAS DIFÍCEIS
Ler tendências com excelência é uma competência madura. Levar sinais fracos a sério é uma competência corajosa. A Lego, no Smart Brick, ilustra a primeira com classe: uma tecnologia que desaparece para que a experiência brilhe.
A Bambu Lab, no CyberBrick, ilustra a segunda: um ecossistema que aceita fricção como parte do caminho, porque entende que autoria se aprende praticando.
Para mentes curiosas, a reflexão que fica não é “quem vence”, mas “que tipo de criatividade queremos cultivar”.
o que acontece com a cultura quando nos habituamos a criar apenas dentro das possibilidades previstas pelo aparelho?
Não me entenda mal: ambas têm seu brilho próprio. Em um mundo cada vez mais mediado por caixas-pretas, há valor imenso em interfaces que acolhem e simplificam, especialmente quando se trata de práticas mercadológicas.
E há, também, um valor decisivo em tecnologias que mantêm a porta aberta para entender, modificar e reescrever regras. Flusser diria que a liberdade começa quando deixamos de ser apenas operadores do aparelho e passamos a intervir no seu programa.
Talvez seja isso que torne este momento tão fértil: não estamos diante de um produto contra outro, mas de duas formas de organizar futuros. Uma torna o brincar mais acessível e orquestrado. A outra torna o brincar um caminho de autonomia. Entre tendências e sinais fracos, o que está em jogo é menos a próxima linha de brinquedos e mais o tipo de ser humano que a cultura tecnológica vai formar.