Ela cresceu na pobreza. Depois comandou um ônibus espacial
O documentário “Spacewoman” revela a trajetória da astronauta que enfrentou preconceitos e abriu caminho para gerações futuras de mulheres no espaço

A primeira vez que Eileen Collins dirigiu sozinha, aos 17 anos, logo após tirar a carteira de motorista, foi para seguir a ambulância que levava sua mãe depois de uma tentativa de suicídio. Depois de uma infância traumática, se Collins simplesmente tivesse construído uma vida estável, já teria desafiado as probabilidades.
Mas ela foi muito além, e de forma espetacular. Tornou-se a segunda mulher admitida na Escola de Pilotos de Teste da Força Aérea dos Estados Unidos e a primeira a pilotar e comandar um ônibus espacial.
Sua habilidade e sangue-frio não apenas romperam o teto de vidro para futuras astronautas, como também serviram de modelo para enfrentar desafios aparentemente intransponíveis, navegar em ambientes dominados por homens e equilibrar carreira, casamento e maternidade de forma criativa.
“Até sermos testados, não sabemos do que somos capazes”, diz ela.
Essa força aparece em destaque no documentário "Spacewoman", que chegou ao streaming (pela Apple TV) esta semana. O filme destaca as contribuições de Collins para a nova geração de astronautas, ao mesmo tempo em que reforça os perigos das viagens espaciais e o peso emocional que elas impõem às famílias.
Baseado nas memórias de Collins publicadas em 2021, "Through the Glass Ceiling to the Stars" (Através do teto de vidro até as estrelas, em tradução livre), o documentário acompanha sua jornada: de adolescente extremamente tímida e pobre, criada em uma cidade operária no norte do estado de Nova York e fazendo bicos para pagar aulas de voo, até se tornar piloto de testes da Força Aérea e astronauta pioneira da NASA.
Collins acumulou mais de 872 horas no espaço em quatro missões, culminando no angustiante primeiro voo após o desastre do ônibus espacial Columbia, em 2003, que matou sete astronautas durante a reentrada.
Até seu casamento parecia avançado para a época: seu marido, piloto da Delta Airlines, assumia grande parte da criação dos filhos e das tarefas domésticas enquanto Collins treinava ou estava no espaço.
O treinamento de voo ajudou Collins a desenvolver liderança e superar a timidez.
Mas o golpe emocional do filme está no preço que os perigos e as longas separações cobraram de sua família. A maneira como Collins lidou com essas pressões se transforma em um estudo sobre equilibrar determinação e serenidade – e aprender a aceitar aquilo que não se pode controlar.
Foi justamente isso que atraiu Hannah Berryman, diretora do documentário, para a história de Collins. “Eu não era uma pessoa fascinada por espaço. O que me interessa é o que significa ser humano, o que nos move”, diz Berryman.
“Mas o espaço é um lugar incrível para explorar isso, porque os riscos são enormes. As pessoas se conectam mais com filmes que mostram vulnerabilidade humana e fragilidade, porque ninguém é perfeito. Você vê o que essas pessoas alcançaram e percebe que nada é fácil.”
SONHANDO COM O IMPOSSÍVEL
Para Collins, isso significou sonhar além das circunstâncias. Ela cresceu usando cupons de alimentação, morando em habitação pública e cercada por uma vida doméstica instável. A escola, onde meninas inteligentes sofriam bullying, oferecia pouco refúgio.
Essas experiências, porém, ensinaram autossuficiência, perseverança sob pressão e como navegar pela psicologia masculina. Ficção científica e aviação se tornaram formas de fuga e aventura. “Eu sempre quis ser o capitão Kirk, o comandante da nave estelar”, diz ela no filme.

Collins sonhava secretamente em ser astronauta e via o caminho do piloto de testes como a rota para chegar lá, embora a Força Aérea só tenha aberto o treinamento de voo para mulheres quando ela já estava na faculdade.
Quando se formou, em 1978, estava entre as primeiras mulheres admitidas no programa de treinamento de pilotos. Naquele mesmo ano, a NASA anunciou sua primeira turma de astronautas dos ônibus espaciais, incluindo três mulheres especialistas de missão.
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Enquanto conquistava diplomas de graduação e mestrado em matemática, economia e gestão de sistemas espaciais, Collins concluiu o treinamento de pilotos da Força Aérea, trabalhou como instrutora do T-38 Talon na Academia da Força Aérea dos EUA e, após três tentativas, tornou-se a segunda mulher admitida na Escola de Pilotos de Teste antes de entrar no programa de astronautas da NASA, em 1990.
VOANDO "COM OS RAPAZES"
Levar aeronaves supersônicas ao limite era a parte fácil; convencer os altos oficiais da Força Aérea de que mulheres suportavam pressão tão bem quanto homens era outra história. Isso exigia dela desempenho superior apenas para ser considerada igual.
“Eu gostava de trabalhar com os caras, e sim, era difícil”, explica. “A única coisa que eu podia fazer era ser a melhor piloto possível. Isso era o que eu podia controlar.”
O treinamento de voo ajudou Collins a desenvolver liderança e superar a timidez. Como líder, buscava equilíbrio entre ser autoritária e colaborativa, sem parecer fraca. Ela também ajudou outras astronautas a dominar essas nuances.

Enquanto treinava para a missão STS-93, que colocou em órbita o Observatório de Raios X Chandra, a especialista de missão Cady Coleman lembra de Collins ajudá-la a comunicar melhor sua autoridade.
“Eileen me mostrou, em uma cultura extremamente masculina no escritório dos astronautas, que a forma como eu comandava o telescópio não parecia autoritária o suficiente”, diz Coleman no filme.
“Eles simplesmente presumiam que o homem sabia do que estava falando. Mas, para uma mulher, era preciso provar”, acrescenta Collins. “Está melhorando, mas vai levar gerações. Ainda assim, estamos fazendo diferença com o que estamos fazendo.”
O QUE ESTAVA SOB SEU CONTROLE
Em 1995, Collins tornou-se a primeira mulher a pilotar um ônibus espacial na missão STS-63, quando o Discovery se aproximou a apenas 10 metros da estação espacial russa Mir, hoje desativada – perto o suficiente para que as tripulações acenassem umas para as outras pelas janelas. Ela também pilotou a missão STS-84, em 1997, acoplando o Atlantis à Mir.
Entre essas missões, Collins se tornou mãe. Com o nascimento da filha Bridget, sua carreira passou, temporariamente, de símbolo de pioneirismo a objeto de debate social, quando a imprensa começou a questionar como conciliava a maternidade, o trabalho e a carreira do marido.

Dois anos depois, em 1999, ela se tornou a primeira mulher a comandar uma espaçonave norte-americana, liderando a missão STS-93 a bordo do ônibus espacial Columbia. Foi o lançamento mais assustador desde o desastre do Challenger, em 1986, quando os foguetes auxiliares explodiram pouco após a decolagem, matando todos a bordo.
Seu voo seguinte seria ainda mais tenso. Em 2005, todos os olhos estavam voltados para a missão STS-114 – o “retorno aos voos” da NASA após o desastre do Columbia, ocorrido dois anos antes. O objetivo era testar melhorias de segurança e reabastecer a Estação Espacial Internacional.
Mais uma vez no comando, Collins encarava enorme pressão: precisava garantir que o lançamento fosse bem-sucedido para manter vivo o programa dos ônibus espaciais. Mas vídeos da decolagem revelaram que um fragmento de revestimento térmico havia se soltado, criando o mesmo tipo de risco que destruiu o Columbia em 2003.
Como líder, ela buscava equilíbrio entre ser autoritária e colaborativa, sem parecer fraca.
Já em órbita, Collins girou o ônibus espacial para permitir que astronautas da estação fotografassem sua parte inferior e que equipes em terra avaliassem possíveis danos.
A manobra era arriscada: aproximou o veículo a cerca de 180 metros da estação enquanto voava praticamente às cegas, feito que fez de Collins a primeira astronauta a executar uma rotação completa de 360 graus com um ônibus espacial.
Depois que a NASA identificou espaçadores entre placas térmicas que haviam se deslocado, dois tripulantes realizaram uma caminhada espacial para removê-los.
A missão terminou com sucesso, mas Collins decidiu permanecer na Terra. Aposentou-se da Força Aérea naquele ano, como coronel, e deixou a NASA em 2006.
CONSTRUINDO O LEGADO
As contribuições de Collins ajudaram a moldar o legado que impulsiona os atuais esforços espaciais.
Com o sucesso do voo ao redor da Lua da Artemis II e uma missão de pouso lunar planejada para 2028, a NASA acelera o desenvolvimento de uma economia lunar emergente e missões cada vez mais longas.
À medida que começamos a construir estações de pesquisa e operações de mineração na Lua, Collins acredita que os astronautas do futuro precisarão de habilidades e mentalidades ampliadas.
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“O lado técnico é mais fácil de avaliar. O psicológico é mais difícil. Astronautas precisam ser pessoas que convivam bem em ambientes fechados”, diz.
“Você quer alguém que se comunique abertamente e não seja difícil de lidar, porque as missões estão ficando mais longas. Você não pode simplesmente sair para dar uma volta.”