POR DANIEL TERDIMAN

Murais, em geral, são um tipo de arte de baixa tecnologia. Mas um deles, recém-erguido em uma parede em Fort Greene, no Brooklyn (NY), faz parte de uma série de 10 obras com realidade aumentada que destacam pesquisas científicas feitas por mulheres.

A instalação, chamada A Cluster of Enigmas, tem 18,3 metros de largura por 8,20m de altura e é a primeira da série Findings. O projeto é de autoria de Amanda Phingbodhipakkiya, artista multidisciplinar com formação em neurociências e design. Ela pretende retratar um pouco de sua própria vivência como mulher formada em STEM (sigla em inglês para as carreiras de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).

A artista em ação, agachada, explicando a uma pintora a tecnologia por trás do mural

Cada mural da série terá seu próprio foco científico, como astronomia, física, clima etc. Os temas são pesquisados por mulheres da Fundação Heising-Simons, financiadora do Findings. O objetivo é expressar metáforas sutis entre a ciência e a vida de mulheres cientistas que não desfrutaram da notoriedade de seus colegas homens. Cluster of Enigmas, por exemplo, é baseado na pesquisa sobre estrelas anãs marrons de Jackie Faherty, uma astrônoma do Museu Americano de História Natural.

As anãs marrons, diz Phingbodhipakkiya, são conhecidas nos círculos da astronomia como as “desajustadas da galáxia”. “Elas não são estrelas, não são planetas. Estão em uma posição intermediária”, diz ela. Por isso, o mural mostra várias mulheres retratadas como anãs marrons – “ousadas, misteriosas e irreprimíveis”, segundo a artista. Entre as figuras está Josephine English, primeira mulher negra a abrir um consultório médico particular na cidade de Nova York, sentada “entre entidades cosmológicas e ladeada por visionários pioneiros do espaço”.

Phingbodhipakkiya inicia os trabalhos de A Cluster of Enigmas

ARTE AUMENTADA POR RA
Embora alguns possam gostar de apreciar a pintura apenas com base no que veem à sua frente, Phingbodhipakkiya deseja que todos possam aprender sobre as histórias por trás da metáfora. É aí que os elementos de RA (Realidade Aumentada) entram em no jogo.

Ao utilizarem os smartphones para escanear um código QR embutido no mural, as pessoas poderão baixar um aplicativo que explica a metáfora, bem como demonstra a ciência por trás dela. Por exemplo, para A Cluster of Enigmas, o aplicativo apresenta uma animação da relação entre anãs marrons e estrelas e planetas.

Telas do aplicativo de RA

Se você estiver em frente a um dos murais, o aplicativo exibirá informações sobre ele, utilizando serviços de geolocalização. O app sempre apresentará o mural mais próximo.  Phingbodhipakkiya está planejando os próximos para as cidades de Filadélfia, Washington DC, Denver, Las Vegas e Oakland.

Independentemente de alguém conhecer os murais pessoalmente ou por meio da ferramenta, Phingbodhipakkiya espera que o novo trabalho repercuta especialmente entre mulheres jovens que “verão a arte, ficarão curiosas sobre ela, serão encorajadas a se aprofundarem na história da cientista que está trabalhando no assunto e sairão inspiradas”. Em outras palavras, ela deseja que as mulheres jovens se vejam representadas na arte – e enxerguem na ciência uma carreira viável.

Phingbodhipakkiya também espera que seu trabalho tenha repercussão entre os homens, especialmente aqueles que passarão a entender que a ciência, muitas vezes, ignorou as mulheres. “Acho que é hora de dar destaque a elas e sei que os homens ficarão muito animados em ver essas figuras incríveis, em tamanho real, grandes, ao natural. Penso que eles ficarão empolgados para conhecer mais mulheres cientistas”, diz ela.

Daniel Terdiman é um jornalista de tecnologia baseado em São Francisco. Em seus quase 20 anos de carreira, escreveu para a Wired, The New York Times, Time Magazine, CNET e VentureBeat.