EUA e China disputam o futuro da tecnologia com regras opostas

Se ambos os lados se sentem pressionados a ir mais rápido, quem define onde estão os limites éticos e práticos do avanço tecnológico?

EUA e China disputam o futuro da tecnologia
Créditos: kritsapong/ jieantaratip/ Getty Images

Chris Stokel-Walker 4 minutos de leitura

Estados Unidos e China disputam quem vai definir o futuro da tecnologia com visões bem diferentes sobre a velocidade de chegada dessas inovações e o nível de controle necessário.

A urgência deixou de ser abstrata. Nas últimas semanas, a China aprovou o primeiro dispositivo médico comercial de interface cérebro-computador do mundo e apresentou uma aeronave elétrica de decolagem e pouso vertical (eVTOL) de cinco toneladas que já realizou voo público.

Ao mesmo tempo, agências dos EUA correm para acelerar aprovações em áreas como aviação e biotecnologia, enquanto demissões e pressões políticas ameaçam enfraquecer a supervisão.

Tanto em Washington quanto em Pequim, autoridades de alto escalão já não disfarçam: trata-se, abertamente, de uma corrida pela supremacia tecnológica.

Avião elétrico chinês Matrix
Avião elétrico chinês Matrix (Crédito: Vincent Thian/ AP)

No ano passado, Michael Kratsios, então assessor científico do presidente dos EUA, classificou a China como o “competidor tecnológico e científico mais formidável” do país. Mais recentemente, o Escritório para Políticas de Ciência e Tecnologia, da Casa Branca, também descreveu um cenário de disputa global pela liderança tecnológica.

Pequim vê o mesmo embate. Durante uma visita a um parque de inovação em tecnologia da informação, em fevereiro, opresidente chinês Xi Jinping afirmou que autossuficiência e força em ciência e tecnologia são “fundamentais” para transformar o país em uma potência socialista moderna.

Segundo ele, a China precisa “ocupar as posições estratégicas mais altas na competição científica e tecnológica e no desenvolvimento futuro”. De fato, a disputa já se desenrola em várias frentes. Por exemplo, EUA e China seguem alternando a liderança em IA, com novos modelos substituindo rapidamente os anteriores.

RÁPIDO x DEVAGAR

Mas a diferença mais profunda está na forma como cada país encara o risco. Um sistema está disposto a avançar mais rápido e lidar com as consequências depois. O outro avança com mais cautela, sob regras mais rígidas que podem desacelerar a adoção.

Essa diferença tem implicações concretas. Ela define quais chegam primeiro ao público, com que nível de segurança são introduzidas e quem acaba estabelecendo os padrões globais que outros países seguirão.

“Muita gente não percebe que, por diferentes métricas, a China já supera os Estados Unidos em vários campos, como ciência e tecnologia, inteligência artificial, internet quântica e biomanufatura”, afirma Margaret Kosal, professora de estratégia tecnológica do Instituto de Tecnologia da Geórgia.

Parte da explicação está na abordagem. “Enquanto os EUA focam na fronteira tecnológica e a Europa em regulação, a visão chinesa sobre novas tecnologias é muito pragmática”, diz Chengyi Lin, professor do INSEAD. Em duas palavras: “adoção de mercado”.

A inovação acelerada pode gerar ganhos no curto prazo, mas também complicar a competição global.

A política industrial chinesa também prevê aplicações mais amplas para tecnologias emergentes, incluindo usos de vigilância em interfaces cérebro-computador.

Lin cita um caso em que uma empresa europeia de tecnologia industrial descobriu que uma companhia chinesa usava sua propriedade intelectual sem autorização.

A resposta, segundo ele, foi enquadrar a tecnologia como subutilizada e propor um licenciamento retroativo – exemplo de uma abordagem pragmática e orientada à velocidade que diferencia a China. “É algo bem distinto das práticas dos EUA e da Europa”, afirma.

ÉTICA E LEGISLAÇÃO

A regulação é outro tema em que as posturas são diferentes. Kendra Schaefer, sócia da consultoria Trivium China, baseada em Pequim, observa que, embora reguladores chineses possam ser cautelosos, “eles ainda são muito mais rápidos do que os norte-americanos”.

Nos EUA, esse contraste fica cada vez mais evidente. A Administração Federal de Aviação lançou um programa para acelerar a adoção segura de aeronaves eVTOL, enquanto a Joby Aviation só recentemente iniciou voos de sua primeira aeronave de produção em conformidade com a agência.

Ao mesmo tempo, cortes recentes no governo federal atingiram equipes da FDA (órgão que regula a comercialização de alimentos e medicamentos nos EUA) responsáveis por avaliar a Neuralink, potencialmente abrindo mais espaço para avanços da empresa de interfaces cérebro-computador de Elon Musk.

Robôs humanoídes China e EUA
Crédito: imagem criada por IA via ChatGPT.

“Nos Estados Unidos, há um discurso constante de críticas à regulação – algumas válidas, outras nem tanto – que está incentivando uma redução das regras”, alerta Kosal.

Já a China não opera sem regras. Samm Sacks, pesquisadora do Paul Tsai China Center da Escola de Direito da Universidade Yale, afirma que Pequim “não é monolítica” ao lidar com os riscos de uma corrida para o fundo do poço regulatório.

Segundo ela, o governo tenta “equilibrar forças”, conciliando a pressão para competir em IA com esforços paralelos para criar regulações que respondam a novos riscos.

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Em outras palavras, velocidade tem seu preço. A inovação acelerada pode gerar ganhos no curto prazo, mas também complicar a competição global.

“De forma contraintuitiva, regulações mais rígidas acabaram protegendo muitas empresas ocidentais, ao dificultar a entrada de companhias chinesas no mercado europeu”, diz Lin.

O que deixa uma tensão final no ar: se ambos os lados se sentem pressionados a avançar mais rápido, quem define onde estão os limites?


SOBRE O AUTOR

Chris Stokel-Walker é um jornalista britânico com trabalhos publicados regularmente em veículos, como Wired, The Economist e Insider saiba mais