Exoesqueletos simples vencem a armadura do “Homem de Ferro”
Em vez de transformar soldados em máquinas de guerra, a tecnologia está sendo usada para reduzir lesões e facilitar tarefas logísticas

O soldado do futuro não leva sua arma para a batalha – ele a veste.
No romance "Tropas Estelares" (Starship Troopers), de Robert Heinlein, publicado em 1959, o traje de combate motorizado de Johnny Rico é uma segunda pele de servomotores e blindagem que o torna mais rápido, mais forte e mais letal do que qualquer guerreiro da história da humanidade.
O traje permite que Rico atravesse um campo de batalha em um único salto, ignore o fogo de armas leves como um predador que espanta mosquitos e carregue munição suficiente para destruir quarteirões inteiros.
Esse exoesqueleto militar definitivo, escreveu Heinlein, era tão intuitivo e integrado que “você não precisa controlá-lo; simplesmente o veste, como suas roupas, como sua pele”. Não era necessário treinamento intensivo nem uma interface complexa – você entra nele e se transforma em algo mais do que humano.
Em menos de dois anos após a publicação de "Tropas Estelares", o Departamento de Defesa dos Estados Unidos já solicitava à indústria de defesa uma versão real do equipamento.
Agora, depois de décadas de pesquisa e desenvolvimento, os sonhos do Pentágono com exoesqueletos estão se tornando realidade – só que não da maneira que ele imaginava.
Ao longo da última década, os esforços das Forças Armadas norte-americanas com exoesqueletos avançaram lenta, mas continuamente. Em 2022, o Exército realizou testes de campo do Soldier Assistive Bionic Exosuit for Resupply, ou SABER, para prevenir lesões nas costas.
No início de 2024, o Exército e a Universidade Baylor realizavam uma análise biomecânica de tarefas médicas em centros de treinamento de médicos de combate para entender como a tecnologia de exoesqueletos poderia reduzir lesões musculoesqueléticas.

Mais tarde naquele ano, soldados testaram sistemas comerciais disponíveis no mercado enquanto transportavam projéteis de artilharia de e para obuseiros na base de Fort Sill, em Oklahoma.
Em dezembro de 2025, integrantes da Força Aérea dos Estados Unidos testavam exoesqueletos da Roam Robotics para carregar carga em aeronaves de transporte na área de operações do Comando Central dos EUA.
E, ainda em maio, o Comando de Pesquisa e Desenvolvimento Médico do Exército apresentou seu exoesqueleto de batalha Intrepid, um estabilizador para a parte inferior da perna, dobrável e projetado para permitir que soldados feridos fiquem de pé, caminhem e façam sua própria evacuação sem precisar esperar por uma equipe com maca.
As Forças Armadas dos Estados Unidos não são a única força de combate a testar exoesqueletos. Em março, o 7º Corpo de Assalto Aéreo da Ucrânia publicou um vídeo de soldados usando exoesqueletos Hypershell na frente de Pokrovsk para ajudar equipes de artilharia a transportar projéteis pelo campo de batalha.
O sonho da armadura motorizada, como a do Homem de Ferro, sempre foi uma fantasia.
Separadamente, tropas ucranianas vêm testando o Gyurza-1, um exoesqueleto passivo desenvolvido no próprio país, sem componentes eletrônicos ou baterias, que supostamente permite aos usuários carregar cargas de até 70 quilos, reduzindo consideravelmente a pressão sobre a coluna vertebral.
A China vem avançando em uma direção semelhante. Em agosto de 2025, a emissora estatal CCTV-7 transmitiu imagens de soldados do Exército de Libertação Popular da China realizando exercícios em terrenos montanhosos acidentados.
Um dos militares aparecia equipado com uma estrutura rudimentar de exoesqueleto sem propulsão, projetada para reduzir a sobrecarga nas costas durante longas marchas.
Nos últimos anos, o exército chinês vem empregando exoesqueletos em unidades que atuam em condições fisicamente exigentes, como brigadas de montanha e regimentos de defesa de fronteira no Tibete e em Xinjiang, onde os soldados realizam longas patrulhas a pé e missões de abastecimento em grandes altitudes.

As atuais aplicações de exoesqueletos que parecem estar dando certo têm quatro características em comum: atuam sobre uma parte específica do corpo, como as costas ou os joelhos; são passivas ou têm pouca propulsão; resolvem um problema logístico específico e pouco glamouroso; e são leves e simples o suficiente para que um soldado realmente queira usá-las.
Elas não vão permitir que o soldado lance bombas de alto poder explosivo a partir do seu suporte em Y a cada duas centenas de metros. O problema das forças terrestres nunca foi realmente “como fazer um soldado lutar como 10”; é “como evitar destruir o corpo dos soldados antes que a guerra termine”.
Os exoesqueletos que estão tendo sucesso hoje não prometem transformar a guerra, apenas permitir que um soldado de artilharia volte para casa depois de uma missão com os joelhos e as costas (mais ou menos) intactos.
O sonho da armadura motorizada, do soldado da infantaria móvel de "Tropas Estelares" ao Homem de Ferro, sempre foi uma fantasia: uma visão infinitamente sedutora, mas completamente irrealista, do combate mecanizado, que acabou obscurecendo aplicações mais duradouras.

As Forças Armadas podem acreditar que precisam de supersoldados para vencer a próxima grande guerra, mas também precisam que suas tropas convencionais continuem funcionais depois de meses carregando munição por terrenos difíceis e que consigam colocar militares feridos novamente de pé.
O exoesqueleto que atende a essas necessidades pesa menos do que um rifle, não tem baterias e cabe em uma maleta. É provável que ele nunca apareça em um filme da Marvel – mas, em compensação, aparecerá em um campo de batalha perto de você.
Este artigo foi republicado com permissão da Laser Wars, newsletter sobre armas a laser militares e outras tecnologias futuristas de defesa.