Quem está no controle da sua atenção: você ou as plataformas?
Livro de Kim Loeb e Erick Benikes Carlier explica como recursos digitais transformam tempo, dados e comportamento em lucro — e propõe caminhos para recuperar a autonomia.

A Meta fechou nesta quarta-feira (26) um acordo que pode chegar a US$ 17,1 bilhões para encerrar processos nos Estados Unidos que acusavam Instagram e Facebook de colocar em risco a segurança e a saúde mental de crianças e adolescentes.
A empresa calcula o valor em aproximadamente US$ 18 bilhões ao incluir parcelas condicionais. O entendimento não representa uma admissão de culpa e ainda depende de aprovação judicial.
Mais importante do que a cifra, porém, é o que o acordo diz sobre o funcionamento das redes sociais. Além do pagamento, a Meta aceitou restrições sobre notificações, recomendações, filtros, reprodução automática e tempo de uso para adolescentes.
Os processos colocaram no centro da discussão as escolhas de design usadas para manter alguém conectado. Até que ponto a permanência nas plataformas é uma decisão do usuário? E quando a tecnologia começa a interferir nessa capacidade de escolha?
Essa é a pergunta que orienta o livro 1 minuto de sua atenção, de Erick Benikes Carlier e Kim Loeb.
A obra apresenta o conceito de “extrativismo de atenção” para explicar como plataformas digitais transformam o tempo, os dados e o comportamento dos usuários em recurso econômico.
O projeto nasceu de uma inquietação de Loeb diante de um mundo cada vez mais barulhento — e de um questionamento sobre o papel da própria comunicação nesse cenário.
Antes do livro, o tema deu origem ao movimento de mesmo nome, criado pelos autores. A iniciativa começou com a publicação de textos e se expandiu para conversas com estudantes, pais e professores.
“Ficava muita coisa que a gente queria falar, mas que não dava tempo para falar”, explica Loeb.
O PROBLEMA NÃO É A TECNOLOGIA
O conceito central da obra é o extrativismo de atenção, expressão usada para descrever estratégias desenvolvidas para prolongar a permanência dos usuários nas plataformas.
Rolagem infinita, notificações, sistemas de recomendação e mecanismos de validação social estão entre os recursos que podem estimular mais tempo de uso.

Para Loeb, esses mecanismos ultrapassam a persuasão e se aproximam da manipulação quando reduzem a capacidade de escolha do usuário.
A questão não está em toda tecnologia que disputa atenção, mas nos objetivos que orientam seu funcionamento. Uma ferramenta pode ajudar alguém a chegar a determinado lugar. Outra pode assumir o controle do “guidão” e conduzir a pessoa para onde a plataforma deseja.
QUANDO A PLATAFORMA ASSUME O CONTROLE
Um dos exemplos citados por Loeb é o “foguinho” das redes sociais, mecanismo que registra sequências de interações entre usuários.
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Mesmo quando alguém deseja abandonar a plataforma, pode continuar utilizando-a para não interromper uma sequência construída com outra pessoa. A tecnologia deixa de funcionar apenas como ferramenta de comunicação e cria um incentivo adicional para que o usuário permaneça conectado.
A disputa também envolve aquilo que aparece na tela.
Segundo Loeb, existe uma diferença entre o conteúdo que uma pessoa decide procurar e aquilo a que é constantemente exposta. Sistemas de recomendação identificam padrões de comportamento e podem priorizar conteúdos capazes de provocar reações mais intensas, como medo, indignação ou curiosidade.
O autor compara esses estímulos às “cobras” que chamariam imediatamente a atenção de um ser humano em um ambiente de sobrevivência. São sinais que parecem exigir uma resposta, mesmo quando não estavam entre os assuntos que a pessoa desejava encontrar.
“Existe uma diferença muito grande entre aquilo que você quer ver e aquilo que você não consegue evitar ver”, afirma Loeb.
A ATENÇÃO TAMBÉM É AUTONOMIA
Responsabilizar apenas o usuário pelo tempo que passa nas redes sociais é insuficiente, segundo Loeb, diante do desequilíbrio entre indivíduos e plataformas.
De um lado, está uma pessoa tentando controlar os próprios hábitos. Do outro, empresas com grandes volumes de dados, sistemas de inteligência artificial e equipes dedicadas a entender quais estímulos mantêm os usuários conectados.
O acordo envolvendo a Meta torna essa assimetria mais concreta. A discussão deixa de tratar apenas da capacidade individual de fechar um aplicativo e passa a questionar as escolhas de quem projeta esses produtos.

A atenção, nesse contexto, não representa apenas tempo. Ela funciona como um filtro que determina o que entra na percepção e como uma fonte de energia necessária para perseguir objetivos.
Recuperar a atenção significaria, portanto, recuperar parte da própria autonomia.
Loeb afirma que o processo de escrever e ilustrar o livro produziu esse efeito. Parar, organizar as ideias e transformá-las em imagens foi uma maneira de “cuidar da própria atenção”.
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A inteligência artificial generativa acrescenta uma nova camada ao problema. As interações com sistemas de texto e voz podem ocupar espaços cada vez mais íntimos da rotina, ampliando a disputa para além dos feeds tradicionais.
Quanto mais personalizadas essas interfaces se tornam, maior é a importância de entender quais objetivos orientam suas respostas e recomendações.
UMA MUDANÇA QUE NÃO DEPENDE SÓ DO USUÁRIO
Apesar das críticas, Loeb não defende o abandono completo da tecnologia.
Se pudesse imaginar uma rede social ideal, criaria uma plataforma na qual o usuário tivesse maior controle sobre o funcionamento do serviço e pudesse escolher, por exemplo, como os conteúdos seriam recomendados.
O modelo de negócios também deveria estar alinhado aos interesses de quem utiliza a plataforma, não apenas à necessidade de prolongar sua permanência.
O acordo da Meta mostra os limites de uma transformação baseada exclusivamente em decisões individuais. Ao impor restrições sobre notificações, recomendações, reprodução automática e tempo de tela, o entendimento leva a discussão para a própria arquitetura dos produtos.
Existe uma diferença muito grande entre aquilo que você quer ver e aquilo que você não consegue evitar ver.
A mudança também não dependeria somente das empresas. Ao final do livro, os autores propõem uma “resistência atencional coletiva”, formada pela combinação de atitudes individuais, transformações culturais e pressão por mudanças regulatórias.
Entre as sugestões estão usar despertadores físicos, procurar informações diretamente em veículos jornalísticos e criar “oásis de atenção”: espaços dedicados a desenhar, escrever, jogar bola ou simplesmente conversar.
Mais do que determinar quanto tempo alguém deveria passar diante de uma tela, a proposta é questionar quem controla esse período e quais interesses existem por trás da disputa.
Para Loeb, o primeiro passo é dar nome ao problema. Enquanto a discussão permanecer limitada a frases como “o celular faz mal” ou “as redes sociais são ruins”, a tecnologia continuará sendo tratada como um bloco único.
O extrativismo de atenção propõe outra leitura. O problema não está necessariamente na existência da tecnologia, mas nos mecanismos usados para capturar, prolongar e monetizar a atenção humana.
Recuperar a atenção, nesse sentido, não exige abandonar o mundo digital. Significa voltar a decidir, individual e coletivamente, para onde vale a pena olhar.