Este celular vem com uma chave de fenda — e foi feito para durar

Depois de mais de uma década, o celular ético e reparável da Fairphone finalmente chega aos Estados Unidos. Testamos o aparelho e conversamos com a diretora de tecnologia da empresa sobre seu design incomum.

Mãos realizam reparo em um Fairphone aberto, diante da imagem ampliada de um celular azul.
Arte Fast Company Brasil com imagem Fairphone/Divulgação

Adele Peters 10 minutos de leitura
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Ao retirar o novo Fairphone da caixa, encontrei algo que não costuma acompanhar nenhum outro celular: uma chave de fenda.

A ferramenta é uma pequena parte de um esforço maior da empresa para fabricar um aparelho que possa ser realmente consertado pelos usuários — e que dure o máximo possível. Se a tela quebrar, basta desaparafusar a estrutura e fazer a substituição em casa.

Com a mesma chave, é possível remover cerca de 12 componentes, da porta USB-C aos módulos das câmeras. A empresa holandesa também passou anos reformulando sua cadeia de fornecimento, com materiais como ouro certificado pelo comércio justo e metais reciclados.

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A Fairphone vende celulares na Europa há mais de uma década, mas o Fairphone 6+, que custa US$ 650, é o primeiro modelo disponível oficialmente nos Estados Unidos. Passei uma semana testando o aparelho e avaliando se ele poderia me convencer a abandonar o iPhone.

UM CELULAR QUE VOCÊ REALMENTE PODE CONSERTAR

O aparelho foi projetado desde o início para ser simples de reparar. Tentei desmontá-lo. Não tenho muita habilidade com consertos, mas consegui remover todas as peças substituíveis em cerca de 20 minutos.

Não é preciso nenhum conhecimento especial de eletrônica nem outra ferramenta além da chave de fenda incluída na caixa.

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Qualquer pessoa capaz de montar um móvel da Ikea consegue fazer isso, afirma Chandler Hatton, diretora de tecnologia da Fairphone. A empresa quer mudar a forma como as pessoas se relacionam com os produtos que possuem.

“É algo muito diferente da nossa relação atual com os eletrônicos de consumo”, diz. “Tudo parte da ideia de conseguir abrir um dispositivo e, por exemplo, baixar seu código-fonte. Isso também parece assustador para algumas pessoas, mas, na verdade, não é tão complicado.”

A empresa oferece garantia de dois anos para o celular, com a possibilidade de acrescentar mais três. A bateria, cuja vida útil tende a ser menor, possui garantia de dois anos, além de uma extensão de 14 meses.

Caso alguma peça quebre e precise ser comprada separadamente, os valores são relativamente acessíveis. O usuário pode trocar a tela do Fairphone em poucos minutos, sem pagar pela mão de obra de uma assistência técnica.

Uma tela nova custa cerca de US$ 90. O reparo da tela de um iPhone pode chegar a US$ 379. Já uma bateria para o Fairphone custa aproximadamente US$ 40, enquanto a substituição da bateria de um iPhone pode chegar a US$ 129.

Fairphone aberto sobre uma bancada, cercado por ferramentas, parafusos e componentes removíveis.
O aparelho pode ser desmontado com ferramentas simples, permitindo que o próprio usuário substitua diferentes componentes. Crédito: Fairphone

Para tornar o aparelho tão reparável, a empresa precisou repensar a maneira como celulares normalmente são fabricados.

“Estamos pedindo aos nossos fornecedores e aos nossos engenheiros que façam algo bastante diferente”, afirma Hatton. “Dizemos: ‘Deem um passo atrás em relação ao que vocês vêm fazendo para outras marcas e pensem em como projetar o aparelho desde o início para torná-lo acessível a alguém que não possui ferramentas especiais.’”

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Os componentes internos foram agrupados para facilitar a remoção das peças com maior probabilidade de precisar de substituição. O projeto também simplifica a reciclagem do aparelho ao final de sua vida útil.

A abordagem envolve algumas concessões. Para fabricar celulares cada vez mais finos, as empresas costumam colar os componentes, em vez de usar parafusos. A cola também ajuda a tornar o aparelho mais resistente à água, mas impede que ele seja desmontado para reparos.

O Fairphone é um pouco mais espesso, embora tenha me parecido confortável na mão. Ele não foi projetado para ficar submerso, mas pode ser usado na chuva — o que atende às necessidades da maioria das pessoas.

Vista explodida do Fairphone mostra bateria, câmeras, estrutura e tampas separadas.
A construção modular permite trocar peças individualmente e prolongar a vida útil do aparelho.

A CADEIA DE FORNECIMENTO TAMBÉM FAZ PARTE DO PRODUTO

Parte do trabalho por trás do Fairphone não está visível no aparelho. A empresa passou anos estudando formas mais responsáveis de obter materiais como o cobalto.

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A cadeia de fornecimento desse mineral é conhecida por problemas relacionados aos direitos humanos, incluindo o trabalho infantil. Ao analisar o desafio, a Fairphone decidiu não abandonar determinadas minas, reconhecendo que elas são uma importante fonte de renda para as comunidades locais.

Em vez disso, trabalha com moradores de lugares como a República Democrática do Congo para melhorar as condições de trabalho.

“Estamos realmente tentando enfrentar os problemas difíceis e conversar com toda a cadeia de valor, especialmente com as pessoas que trabalham em cada região”, afirma Hatton.

Mais da metade dos materiais utilizados no celular é reciclada ou obtida por meio de práticas consideradas mais justas. A lista inclui alumínio, cobre, aço, estanho, índio, níquel, plástico e terras raras reciclados.

Outras empresas também vêm ampliando o uso de materiais de origem responsável. A Fairphone, porém, tenta ir além e incentivar o restante do setor a seguir o mesmo caminho.

Duas pessoas seguram modelos do Fairphone nas cores verde e cinza.
O Fairphone aposta em reparabilidade e materiais de origem responsável, mesmo que isso envolva concessões em desempenho e design.

O novo aparelho está disponível em uma tonalidade chamada pela empresa de “cobalto”, um azul profundo e saturado semelhante à cor tradicionalmente associada ao mineral. As outras opções, preto e verde-floresta, são mais discretas.

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O modelo azul chama atenção o suficiente para fazer outras pessoas repararem e perguntarem sobre o celular. Segundo Hatton, a empresa não pretende necessariamente iniciar conversas sobre a mineração de cobalto, mas a cor funciona como uma referência sutil ao trabalho realizado na cadeia de fornecimento.

Para muitos clientes da Fairphone, o compromisso com a fabricação ética é o principal argumento de venda. Diante da escolha, quem não preferiria um aparelho feito com materiais que não destroem o meio ambiente e produzido por trabalhadores remunerados de maneira justa?

Alguns consumidores europeus também são atraídos pelo fato de a Fairphone ser holandesa, em um momento em que marcas norte-americanas enfrentam uma rejeição crescente em outros países devido a Donald Trump.

Ainda assim, para quem não está entre os fãs mais dedicados, o celular precisa oferecer desempenho suficiente para competir. Nesse aspecto, o Fairphone é um produto bom, embora esteja longe de ser perfeito.

FACILIDADE DE REPARO NÃO É TUDO

Primeiro, um aviso: todos os smartphones que já tive foram iPhones. Nunca fiquei insatisfeita o bastante com a Apple para querer mudar.

De certa forma, porém, sou uma potencial cliente ideal da Fairphone. Tento manter meus aparelhos pelo máximo de tempo possível. Meu celular atual é um iPhone SE relativamente antigo, que continuo usando porque gosto do tamanho reduzido e porque ele ainda funciona.

Se pudesse manter um telefone para sempre sem perder desempenho, eu faria isso. Nunca tive vontade de comprar o modelo mais recente e sofisticado.

O novo Fairphone é um celular intermediário competente. Com uso leve, sua bateria durou ainda mais do que os dois dias prometidos pela empresa. Em videochamadas e outras atividades mais intensas, a carga caiu mais rapidamente.

O aparelho vem com 12 GB de memória RAM e 256 GB de armazenamento, que pode ser expandido para até 2 TB por meio de um cartão microSD. A tela OLED é nítida e brilhante, e o suporte de software está previsto até 2033.

“Nosso objetivo é oferecer esses celulares em grande volume para pessoas em todo o mundo. Por isso, precisamos atender o consumidor onde ele está. Muitas vezes, ele compra um aparelho com base nas especificações, e não na própria consciência”, afirma Hatton.

Na lateral, há um botão verde-amarelado que ativa um recurso chamado “Moments”. A função permite limitar temporariamente o acesso a apenas alguns aplicativos — como câmera, mapas e telefone — durante o trabalho ou em encontros com amigos, quando o usuário quer evitar distrações.

Quem não considerar o recurso útil pode programar o botão para executar outra tarefa, como ligar e desligar a lanterna.

Na maior parte do tempo, o celular funciona bem, mas apresenta algumas falhas.

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MAS, ELE FUNCIONA FORA DA HOLANDA?

A primeira surpresa foi descobrir que ele não é compatível com a Verizon, operadora utilizada por mim e por mais de um terço dos norte-americanos. O aparelho é compatível com T-Mobile e AT&T (nota da Fast Company Brasil: atualmente, o Fairphone não funciona no Brasil, nem é autorizado pela Agência Nacional de Telecomunicações - Anatel).

A Verizon ainda não autorizou o dispositivo em sua rede, e o aparelho não oferece suporte à banda LTE 13, uma das principais utilizadas pela operadora. Tecnicamente, seria possível tentar usá-lo, mas a cobertura provavelmente seria instável.

A Fairphone não comentou especificamente sobre a Verizon, mas informou que conversa com diferentes operadoras norte-americanas.

O conjunto de câmeras inclui uma principal de 50 megapixels, uma ultrawide de 13 megapixels e uma frontal de 32 megapixels. A qualidade das imagens não compete com a de aparelhos mais sofisticados nem com a de alguns modelos vendidos pelo mesmo preço.

Também encontrei rapidamente alguns problemas na versão básica do Android instalada no aparelho. Ao tirar as primeiras fotos, por exemplo, consegui abrir apenas uma delas. As ferramentas de edição só funcionaram corretamente depois que atualizei alguns dados armazenados pelo navegador. A navegação também pareceu menos fluida do que no iPhone.

No Reddit, proprietários do Fairphone relatam desde quedas na conexão Wi-Fi e falhas no sensor de impressão digital até problemas para usar o Google Wallet no transporte público.

A qualidade dos alto-falantes também não é das melhores. Infelizmente, como acontece com a maioria dos celulares atuais, o Fairphone não possui entrada para fones de ouvido. Para escutar música ou assistir a filmes, provavelmente será necessário usar fones Bluetooth.

O sensor de impressão digital está em uma posição pouco confortável e nem sempre reconheceu meu dedo quando precisei bloquear ou desbloquear o aparelho.

Alguns proprietários também relatam que os botões de volume, igualmente mal posicionados, podem se soltar. Ironicamente, esse parece ser um dos poucos componentes que a Fairphone não vende separadamente para reparos.

A empresa se comprometeu a oferecer suporte de software de longo prazo como parte essencial de sua estratégia para fabricar um celular mais durável.

“É muito importante que, ao oferecer às pessoas um produto com um componente de software, você também mantenha esse software por um período prolongado”, afirma Hatton.

Críticos, porém, afirmam que os celulares da marca apresentam problemas de privacidade e segurança, em parte porque a empresa demora a disponibilizar atualizações importantes. Para quem não quer utilizar o Android tradicional, a Fairphone comercializa uma versão com o sistema e/OS, de código aberto e voltado à privacidade. Ele executa aplicativos do Android, mas remove mecanismos de rastreamento do Google.

O e/OS, no entanto, também apresenta atrasos nas atualizações de segurança, e alguns aplicativos do Android podem não funcionar perfeitamente. Antes de testar o Fairphone, eu considerava seriamente fazer a mudança. Ainda considero, porque adoro a possibilidade de reparar o aparelho em casa. Por enquanto, porém, talvez eu apenas compre uma nova bateria para o meu antigo iPhone.


SOBRE A AUTORA

Adele Peters é redatora da Fast Company. Ela se concentra em fazer reportagens para solucionar alguns dos maiores problemas do mundo, ... saiba mais