Em vez de armazenar todos os seus documentos em um provedor em nuvem pertencente a uma gigante, como o Amazon Web Services, que tal uma alternativa descentralizada?  Essa é a proposta da plataforma Skiff, que trabalha com um Sistema de Arquivos Interplanetário, ou IPFS (sigla criada a partir da expressão em inglês, InterPlanetary File System). O usuário que opta pelo Skiff tem seus documentos criptografados, divididos em partes e distribuídos em uma rede de hosts em potencial, que os mantêm fora do alcance das grandes empresas de tecnologia. Como os documentos são criptografados de ponta a ponta, apenas o usuário real é capaz de ver seu conteúdo e isso ajuda a proteger dados pessoais, por exemplo, das ferramentas de controle governamental. 

“Nosso serviço de armazenamento está perfeitamente alinhado com a proposta de privacidade”, afirma Andrew Milich, cofundador e CEO da Skiff. “Não há razão para que seu trabalho pessoal ou sua página da web fiquem armazenados em um servidor da Amazon.”

(Crédito: Cortesia do Skiff)

Mas o potencial desse modelo de compartilhamento que distribui os arquivos vai além de agradar a críticos da vigilância tecnológica. Os entusiastas do protocolo IPFS afirmam que distribuir arquivos torna serviços como o Skiff mais resistentes ao tempo de inatividade do servidor e a interrupções (como aquela que a Amazon Web Services sofreu um ano atrás), já que os documentos não estariam completamente vulneráveis a falhas em um único ponto. Esse protocolo também pode reduzir o custo de fazer backup de suas fotos, vídeos e outros dados.

Por enquanto, muitos desses benefícios são teóricos, mas o Skiff, que está lançando sua versão beta, representa um passo no sentido de torná-los reais. Ele é um dos primeiros exemplos de como uma futura internet descentralizada – cada vez mais debatida por comunidades envolvidas com NFTs e criptomoedas – poderia funcionar com aplicativos atraentes para consumidores comuns.

COMO FUNCIONA O IPFS

Um princípio fundamental da Internet de hoje é que tudo funciona por localização. Quando você clicou neste artigo, por exemplo, o seu navegador pesquisou o endereço do servidor que hospeda esta página e recuperou todos os dados hospedados ali.

O IPFS inverte o princípio de organização da Internet para que o conteúdo esteja em primeiro lugar. Em vez de buscar um local específico em um servidor remoto, os usuários solicitam dados de uma rede de hosts potenciais, com base nas propriedades exclusivas daquele conteúdo. Qualquer pessoa com um computador e com espaço em disco rígido pode hospedar um nó IPFS, e qualquer host cujos dados correspondam à solicitação pode entregar o conteúdo.

(Crédito: Cortesia do Skiff)

Dietrich Ayala, engenheiro de crescimento de ecossistema no Protocol Labs (um desenvolvedor de IPFS), diz que o conceito é semelhante ao do compartilhamento de arquivos ponto a ponto, típico de aplicativos como o BitTorrent. Geralmente, esse tipo de conteúdo não costuma ser criptografado, mas aplicativos individuais, como Skiff, podem aplicar criptografia de ponta a ponta para que os operadores de nó não possam ver o conteúdo do que estão hospedando.

“Você está basicamente transmitindo um pedido para uma rede, dizendo: ‘Ei, alguém tem o que eu preciso?’” explica Ayala. “Só que essa assinatura é única. Ela também serve como uma forma de verificar se o que você recebe em troca são realmente os dados que deseja.”

(Crédito: Cortesia do Skiff)

Ayala aponta vários exemplos de usos potenciais para esse sistema. Ele poderia, por exemplo, ajudar a formar uma alternativa ao The Internet Archive, só que descentralizada, com os usuários preservando cópias de páginas da web ou arquivos que hoje ainda correm o risco de serem removidos ou substituídos. Ele também poderia atrair entusiastas dos NFTs, tornando as compras menos dependentes de links estáticos da web para visualizar a parte gráfica e seus metadados associados.

Em um aplicativo como o Skiff, o protocolo IPFS pode ser ainda mais resistente do que o armazenamento online tradicional. Milich espera oferecer uma versão do Skiff na qual os usuários baixem o software para seus computadores e enviem edições criptografadas por meio de IPFS, mantendo assim o acesso ao serviço mesmo no caso de os próprios servidores do Skiff ficarem inativos. Ayala observa que o sistema também pode servir como uma proteção contra possíveis problemas mais permanentes que o Skiff possa enfrentar.

(Crédito: Cortesia do Skiff)

“Se um dia o Skiff fechar as portas, você ainda terá esse conjunto de provedores que arquivaram os dados e ainda terá as chaves para descriptografar esses dados”, garante ele.

O IPFS pode se tornar, inclusive, uma maneira mais barata de fazer backup de arquivos online. Para incentivar os operadores de nó a hospedar dados de outros usuários, a Protocol Labs criou uma criptomoeda chamada Filecoin, que distribui aos usuários dispostos a alugar seu espaço de armazenamento não utilizado. Ayala diz que isso cria um mercado competitivo para armazenamento e que prejudica os principais provedores de armazenamento em nuvem, como a Amazon. (De acordo com o site File.app, os custos de armazenamento do Filecoin são atualmente 0,02% do que aquilo que a Amazon cobra por seu pacote mais básico).

Recuperar dados de uma coleção de nós distantes pode acabar sendo mais lento do que, por exemplo, procurar imagens no Google Fotos, mas, por outro lado, é mais barato e mais seguro do que apenas deixar sua biblioteca de imagens armazenada em um disco rígido local.
“O armazenamento de fotos pessoais é um caso de uso que se aplica muito bem a essa proposta, porque é o tipo de dado ao qual você não precisa de acesso em tempo real. Mas você quer dormir tranquilo, com a certeza de que eles estarão guardados e seguros.”, diz Ayala.

PRIMEIROS PASSOS RUMO AO ARMAZENAMENTO DESCENTRALIZADO

O IPFS ainda tem um longo caminho a percorrer antes de ser capaz de oferecer ao grande público a maioria dos benefícios que tem em vista. Embora atualmente qualquer pessoa já possa hospedar um nó baixando o software IPFS para desktop, a possibilidade de ler dados a partir desses nós depende do suporte de aplicativos e navegadores da web.

Quanto aos navegadores, por enquanto apenas o Opera e a versão para desktop do Brave conseguem ler páginas da web ou arquivos independentes na rede IPFS. O navegador para desktop da Brave também pode servir como um nó IPFS, permitindo que os usuários “favoritem” os arquivos e páginas da web que desejam manter na rede. Ayala diz que o Protocol Labs está pressionando por mudanças estruturais nos mecanismos de renderização da web, como o Chromium e o WebKit, o que facilitaria ampliar o suporte IPFS.

(Crédito: Cortesia do Skiff)

O suporte a aplicativos é ainda mais escasso, com o diretório do ecossistema do IPFS limitado principalmente a ferramentas utilizadas por desenvolvedores ou relacionadas à criptomoeda. No ramo dos aplicativos que apostam claramente em uma web com arquitetura descentralizada e que se voltam para o usuário comum, o Skiff está sozinho, competindo com grandes nomes como Google Docs, Microsoft Word e Notion.

Para dar um pontapé inicial que ajude a projetar o Skiff, a Protocol Labs está oferecendo aos desenvolvedores de aplicativos a promessa de armazenamento gratuito de arquivos. Milich reconhece que esse foi um dos motivos pelos quais o Skiff decidiu dar prioridade ao uso do IPFS. Essas duas startups têm um investidor em comum na Sequoia Capital, empresa de capital de risco.

“Hoje, há uma necessidade real e profunda de criar aplicativos com base em IPFS, então eles oferecem doações, apoiam projetos, dão todos esses empurrões”, analisa Milich.

(Crédito: Cortesia do Skiff)

Mas mesmo com uma maior adesão por parte dos desenvolvedores, o sistema traz novas preocupações, que não existiam na web centralizada. Os nós IPFS são públicos para que qualquer pessoa que conheça o identificador exclusivo de um operador de nó possa ver um registro de todos os metadados que eles armazenaram. O Brave tem a solução alternativa de percorrer os identificadores, mas, de modo geral, o IPFS não apresenta uma maneira padrão de proteger a privacidade dos operadores.

Aqueles que desejam acessar o IPFS sem executar seu próprio nó podem, como alternativa, usar um gateway que oculta suas atividades do público – o Skiff, por exemplo, opera seu próprio gateway para os usuários – mas, nesse caso, você precisa confiar ao gateway um registro completo de sua atividade de navegação. É semelhante ao dilema de usar um VPN para garantir sua privacidade e, ao mesmo tempo, ter que confiar seus dados ao provedor do VPN.

Mesmo se começarmos a ver mais aplicativos IPFS de armazenamento em nuvem voltados para o usuário comum, como sistemas de backup de fotos, ainda não ficou claro como os usuários pagariam por isso. O conceito de comprar e vender produtos com criptomoeda ainda é nebuloso, e Ayala reconhece que vai dar muito trabalho para torná-lo mais amigável.

“A interação dos usuários finais com os mercados abertos ainda é muito nova”, ele pondera. “Como usuário, eu acharia prático ter que gerenciar meu relacionamento com 16 provedores de armazenamento Filecoin diferentes? Acho que não.”

Tudo isso nos ajuda a compreender por que o suporte IPFS no Skiff é uma conjunção tão interessante. Estritamente como um editor de documentos, ele é rápido e leve, suporta subpáginas e caixas de seleção semelhantes ao Notion e torna a colaboração privada simples. O fato de todos os documentos serem criptografados de ponta a ponta não compromete o software de forma perceptível, e mudar para o armazenamento IPFS é tão simples quanto clicar em uma caixa de seleção. Aplicativos como Skiff, mais que NFTs ou criptomoedas, são exatamente o que a web descentralizada precisa para provar sua viabilidade.

“Produtos como o Skiff estão realmente na vanguarda no tratamento de problemas dos quais todos reclamam tanto na web”, defende Ayala. “Ver uma experiência de autoria de alcance mundial, como a do Skiff, combinada com uma garantia de privacidade quando me comunico com as pessoas que mais importam para mim, é realmente empolgante.”

SOBRE O AUTOR

Jared Newman escreve sobre aplicativos e tecnologia do seu posto remoto em Cincinnati. Ele também escreve duas newsletters, Cord Cutter Weekly e Advisorator.