POR NICOLE LAPORTE

Nem todo mundo sabe explicar o que é um NFT, mas a maioria das pessoas reconhece que os tokens não fungíveis – seja na forma de cards especiais da NBA ou de itens da coleção Bored Ape Yacht Club – foram a mídia mais marcante culturalmente em 2021. Artistas como Beeple e como Pak, por exemplo, estamparam diversas manchetes e bateram recordes em casas de leilão. Já o Bored Ape Yacht Club estabeleceu um novo padrão de credibilidade social entre seus membros, portadores de alguns dos ativos de criptografia mais caros do mundo.  

Mark Zuckerberg extraiu o termo “metaverso” de um romance de ficção científica considerado uma espécie de “Bíblia Geek”: Snow Crash, de Neal Stephenson. Desde quando o metaverso começou a tomar as manchetes das mídias tradicionais, as reações a ele têm se dividido. Na pior das hipóteses, os NFTs são inexplicáveis ​​– e desesperadas – jogadas de marketing feitas por estúdios, marcas e celebridades de Hollywood. Na melhor das hipóteses, eles estão quebrando os paradigmas das obras de arte e do conteúdo em geral (romances, jogos, filmes), o que pode democratizar a propriedade e a distribuição nesses campos.  

Como não poderia deixar de ser, estamos assistindo ao surgimento de alguns itens colecionáveis que desafiam qualquer categorização. A seguir, fizemos um apanhado dos frutos mais estranhos que nasceram durante o boom dos NFTs em 2021:

NFT DE UMA PANELA 

Quem não precisa urgentemente de um GIF fofinho, que mostre a evolução da aparência de uma panela para cozimento lento? Pois um GIF animado exatamente assim foi feito em homenagem ao 50º aniversário das panelas Crockpot (empresa antiga especializada em cozimento lento, anterior à moda das Air Fryers). A marca se aventurou na web3 e leiloou seu GIF no mercado de NFTs OpenSea, com lances que começaram em 0,03 Ethereum (cerca de US $ 100). O GIF animado recorre à nostalgia e resgata, em uma em animação 2D em blocos, a imagem do modelo original de 1971, quando todos os aparelhos eram bege. Aos poucos, a maravilha da preparação do jantar vai se transformando nos modelos mais elegantes da recém-lançada linha Design e o ragu que aparecia na panela antiga dá lugar a uma porção de ramen. A Crockpot apoiou-se fortemente na ideia de abraçar o futuro sem abandonar o passado. “Começamos como uma simples panela para feijão que minimizava o tempo de cozimento e ajudava as donas de casa ocupadas”, dizia o comunicado da marca à imprensa. “Mas sabemos que precisamos evoluir, dirigindo-nos à próxima geração de cozinheiros domésticos criativos. A solução foi chegar a uma síntese: mesclar passado, presente e futuro. E, enquanto no mundo real a nossa nova linha Design tem feito isso ao trazer uma estética moderna para um eletrodoméstico icônico, este NFT fez a mesma coisa no plano digital, armazenando o Crockpot clássico em blockchain, em vez de esquecê-lo no armário.” 

JENKINS, O MANOBRISTA

Esse foi sem dúvida um marco do metaverso em 2021: um personagem de NFT assinou contrato com a Creative Artists Agency (CAA), uma grande agência de talentos de Hollywood (que trabalha com nomes como Beyoncé e Justin Bieber). Esse personagem é “Jenkins the Valet” (Jenkins, o manobrista, em português), um avatar digital que pertence ao Bored Ape Yacht Club – o clube social baseado em blockchain e no qual os usuários adotam avatares de macacos de aparência peculiar. Mas logo Jenkins se tornou dono de sua própria propriedade intelectual e, é claro, passou a ser representado por uma agência. Criado pela Tally Labs, Jenkins é um macaco de aparência ranzinza e dentuço. Ele usa um uniforme de manobrista (colete e boné) e acumula mais de 25.000 seguidores no Twitter, onde começou a postar a sua história de origem em maio. Três meses depois, o macaco influencer atingiu o blockchain como uma série de NFTs que se esgotou em seis minutos e gerou mais de $ 1,5 milhão em vendas. Os compradores têm acesso a um site exclusivo para membros, chamado The Writer’s Room, onde eles ajudam a fornecer material para um futuro livro NFT voltado para essa comunidade, feito em formato RPG, em que o leitor escolherá sua própria aventura. A agência CAA uniu a figura de Jenkins ao autor Neil Strauss (de Regras do Jogo), que ajudará a criar esse livro. Pode apostar que muitos programas de TV e filmes com certeza ainda vão surgir como frutos desse universo ficcional.

CYBER PERFUME  

A primeira “fragrância digital” do mundo foi lançada no ano passado através da Look Labs, empresa com sede em Berlim que usou espectroscopia no infravermelho próximo para criar um reflexo digital dos comprimentos de onda moleculares de um perfume. Obras de arte baseadas no perfume Cyber ​​Eau de Parfum (o nome não poderia ser outro), foram vendidas como um NFT, junto com 10 obras de arte digitais que o acompanham. Depois, 888 versões físicas do perfume unissex também chegaram ao mercado — o número é uma referência ao ano em que a perfumaria francesa que o produziu foi fundada: 1888. Segundo a Look Labs, o perfume da Cyber ​​Eau de Parfum foi “inspirado em filmes de ficção científica e em um mundo no qual tecnologia, a IA e as inovações científicas avançadas fazem parte de nossas vidas diárias.” É um buquê de “notas de cabeça energizantes” que, em seguida, “se mistura em um coração de incenso, resfriando o perfume em notas de madeira zen e âmbar.”

SITCOM DO SNOOP DOGG

O primeiro sitcom da NFT tem o dedo de ninguém mais, ninguém menos do que Snoop Dogg. O rapper fez parceria com os Harlem Globetrotters para lançar o Da Dogg Gone Gym na plataforma blockchain Vast, em outubro de 2021. O show, que é ambientado em um cenário de fundo com estilo soul-funk, apresenta um Snoop Dogg dos anos 1970 interpretando um treinador do Globetrotter tentando colocar o time em forma. O projeto fazia parte de uma campanha maior da Globetrotters –  New Tech, New Trainer, New Tour –  que inclui uma nova música-tema escrita por Snoop Dogg. Mas o projeto Globetrotters é apenas uma peça do florescente império NFT do rapper. Em março, ele já havia lançado uma faixa original, NFT, como um token não fungível, e sob o pseudônimo Cozomo de ‘Medici acumulou $ 17 milhões em participações NFTs, incluindo nove cobiçados CryptoPunks.

NFT DE UM PAPEL HIGIÊNICO

A marca Charmin entrou no ramo dos NFTs com o primeiro NFTP (papel higiênico não fungível) – uma peça de arte digital inspirada na marca. O golpe de marketing foi ainda mais longe, oferecendo uma “exibição física” no caso de os compradores quererem “pendurar seu NFTP em seu banheiro ao lado de seus rolos IRL”. Cinco itens colecionáveis ​​NFT exclusivos foram oferecidos, com lances iniciais variando entre US $ 500 e US $ 2.100. Um dos NFTs apresentava os ursinhos que são mascotes da Charmin, mas outros eram peças de arte originais dos artistas Donna Adi, Shanee Benjamin e Made by Radio. A mudança foi uma das muitas feitas por diversas marcas –  incluindo Pizza Hut, Budweiser e Adidas – com o intuito de se inserir no meio criptográfico e, assim, aumentar a sua repercussão. Se essa estratégia funcionou para vendas de papel higiênico, ainda não sabemos. 

PEIDOS DIGITAIS

Exercitando o humor excêntrico, o diretor de cinema Alex Ramírez-Mallis, do Brooklyn, optou por satirizar toda a loucura por trás dessa mania de criptografia: ele criou uma coleção de peidos não fungíveis. Os sons foram gravados ao longo de um ano durante a quarentena com um grupo de amigos, que inicialmente compartilharam os sons via WhatsApp. Quando o mercado de NFT começou a explodir, Ramírez-Mallis e seus amigos transformaram essas gravações em um arquivo de áudio chamado “Master Collection”, de 52 minutos, e o colocaram no blockchain para venda. NFTs de peidos solo também estavam disponíveis para compra. “A febre do NFT é absurda – essa ideia de atribuir valor a algo inerentemente intangível”, problematiza Ramírez-Mallis ao New York Post. “Esses NFTs não são nem peidos, são apenas sequências alfanuméricas digitais que representam propriedade… Espero que esses peidos do NFT possam ao mesmo tempo criticar a bolha do NFT, fazer as pessoas rirem e me tornar rico.”

SOBRE A AUTORA

Nicole LaPorte é redatora sênior da Fast Company em LA. Ela escreve sobre os cruzamentos entre a
tecnologia e o entretenimento. Anteriormente, ela foi colunista do The New York Times e redatora da
Newsweek / The Daily Beast e da Variety More