POR BRANDON KRIEG

O setor de serviços financeiros está corrompido e já sabemos disso há muito tempo. Considere, por exemplo, os US$ 11 bilhões em taxas do cheque especial cobrados pelos maiores bancos dos EUA em 2019. Ou a forma como essas taxas afetam desproporcionalmente os clientes de baixa renda e não brancos. Perceba que apenas 9% dos clientes pagaram 84% destes US$ 11 bilhões. São clientes que já são vulneráveis às práticas bancárias predatórias, pois tendem a ter saldos “baixos” em contas. Para alguns, as taxas bancárias podem custar quase US$ 1.300 por ano.

 

Agora, pense na realidade do dia-a-dia de muitos americanos.

 

Em 2019, mais da metade da população estava com alguma dificuldade financeira, enquanto 17% se encontravam em situação grave. Dois terços dos americanos não possuem o equivalente a um mês e meio de salário guardado e, embora a tendência esteja melhorando, cerca de 40% ainda relatam dificuldade em conseguir a quantia de US$ 400 em situações de emergência. Mulheres, de todas as idades, têm quase 10% a mais de probabilidade de relatar este problema em comparação a homens, e 7% a mais de apresentar estresse financeiro. As barreiras históricas e estruturais enfrentadas por não brancos fazem com que a média das reservas de uma família negra seja de apenas um sexto da de uma família branca. É importante ressaltar que 35% dos negros americanos também relatam sentir que sua raça, gênero ou renda afetaram sua capacidade de adquirir – ou receber taxas melhores em – vários produtos e serviços financeiros.

 

Com a COVID-19, muitos dos que já enfrentavam dificuldades financeiras, agora se encontram em uma situação desoladora. Nos EUA, só nos últimos meses, mais de 50 milhões de pessoas se cadastraram no seguro-desemprego – problema que afeta desproporcionalmente a população negra. Mais de um em cada quatro americanos está usando, ou planeja usar suas reservas financeiras de aposentadoria para sobreviver. Além disso, mais de 40% gastam parte, ou tudo, de seus fundos em necessidades imediatas, como contas ou alimentação. Outros 30% não se sentem confortáveis com a volta ao trabalho presencial, mas afirmam que precisam do dinheiro.

 

É por esta realidade econômica que estou pedindo uma reformulação estrutural na forma como projetamos, construímos e executamos serviços financeiros. Luto por uma mudança que atenda às necessidades urgentes dos consumidores diários. É por isso que odeio taxas predatórias e imploro às instituições financeiras que não sacrifiquem a empatia em favor lucro.

 

Caros colegas atuais – e futuros – do setor financeiro, esta é a nossa obrigação e a hora agir é agora.

 

O CAMINHO PARA A IGUALDADE

Acredito que tudo começa com uma visão de longo prazo, e com um compromisso de ficarmos atentos e nos adaptarmos às necessidades em constante mudança. Isso quer dizer duas coisas. Em primeiro lugar, significa comprometer-se a criar produtos que atendam às necessidades financeiras dos clientes como um todo, ao longo de suas vidas. Do jeito que está, mais de um terço das famílias dos EUA vivenciam uma mudança de + 25% na renda ano a ano. Esse tipo de volatilidade na receita pode tornar incrivelmente difícil seguir algumas das recomendações financeiras e orçamentárias mais conhecidas. Para resolver isso, precisamos considerar como estamos projetando nossos produtos e fornecendo orientação para que os clientes se sintam igualmente apoiados tanto durante períodos difíceis quanto nos estáveis.

 

Em segundo lugar, precisamos levar em consideração a forma como a tecnologia afetará o modo como as pessoas acessam e gerenciam seu dinheiro – em um, cinco ou 10 anos. A tecnologia já mudou radicalmente os serviços financeiros. É por isso que vimos um crescimento de bancos digitais e um aumento em assinaturas de serviços de gerenciamento de dinheiro – de forma similar às cobranças mensais de serviços de streaming. O que possibilitou a quase todos os americanos o acesso às ferramentas financeiras e à orientação que merecem. Mas, ainda há trabalho a ser feito.

 

É fundamental que continuemos a criar produtos e serviços que acabem com a necessidade – e dependência – de recursos analógicos e presenciais. Você não deveria ter que comparecer a uma agência física de seu banco, por exemplo, para obter ajuda ou acessar seu dinheiro. Em essência, a inovação tem o potencial de derrubar algumas das barreiras injustas que ainda persistem. Por exemplo: investimentos em ações fracionárias ainda não são oferecidos universalmente; bem como a utilização de dados para criar experiências e aconselhamentos hiper personalizados para cada cliente.

 

Por fim, para atuar com empatia e compreensão não podemos discriminar. Enquanto as pessoas seguem o longo e tortuoso caminho de suas jornadas financeiras, é inevitável que elas eventualmente tropecem. Todos nós tropeçamos em algum momento. Pense neste exemplo: e se seu salário for depositado um dia depois do esperado e você, sem saber, saca de sua conta? Como podemos mudar nossas práticas – enquanto indústria – para contemplar todos os clientes, não apenas aqueles com grandes quantias em conta, nos momentos inesperados da vida? Não existem clientes “ruins”, apenas clientes em diferentes situações e com metas únicas que mudam ao longo do tempo. Eu quero viver em um mundo onde perdão e lucro não sejam mutuamente excludentes.

Estou bem ciente de que a vasta e profunda desigualdade financeira em nosso país não pode ser resolvida por um único agente. É um problema que exige muito trabalho e colaboração entre instituições financeiras, startups de tecnologia, legisladores, entre outros. Também estou ciente de que este movimento vem tarde, e é por isso que estou comprometido em fazer minha parte na criação de um setor financeiro melhor e mais justo. Um setor adaptável e resiliente, que vê os clientes como seres humanos distintos e age com empatia e compaixão. Caros colegas do setor financeiro e de tecnologia: vocês estão comigo?

SOBRE O AUTOR

Brandon Krieg é o CEO e cofundador do Stash, um aplicativo bancário de poupança e investimento que permite aos usuários comprar ações fracionárias e fundos, fazer transações bancárias e aprender sobre finanças pessoais.