POR FRANÇOISE TERZIAN

Em meio à expansão do segmento, quem será a próxima grande fintech brasileira da vez? Quem será o próximo Nubank? “Quando a gente fala de neobanks, que são os bancos digitais que servem o grande público, fica mais difícil replicar modelos como o do Nubank, com uma escala muito grande hoje. Nessa geração também tem o Neon e o Banco Inter, que já têm uma expressão no mercado. A régua ficou muito alta. Virou uma briga de cachorro grande”, afirma Bruno Diniz, co-fundador da Spiralem.

Nesse caso, os três nomes mais citados pelas fontes ouvidas pela Fast Company são: Magalu, Banco Inter e Mercado Livre com seu Mercado Pago. “O Magalu está um belo passo à frente. Tiveram uma sacada e conseguiram evoluir. Investiram em marketplace, oferecem uma experiência muito boa e tem clientes fidelizados”, observa Chen Weichi, sócio de consultoria em transformação digital e inovação da EY.

Não é de hoje que o CEO Frederico Trajano vem declarando sua ambição de criar o grande ecossistema digital do varejo brasileiro, com serviços financeiros, logística e tecnologia. O plano vem lá de trás e remete à admiração pelo modelo chinês, formado por gigantes como Alibaba. Essa compreensão de que a China está anos-luz à frente fez Trajano incentivar que parte do conselho do Magazine Luiza viajasse ao país asiático.

Outro nome apontado é o do Banco Inter, que começou como banco digital e hoje se define como uma “plataforma para facilitar a vida”, com conta digital grátis, shopping, investimentos e, em 2021, promete novidades como delivery de comida. “Olhando para os futuros players desse mercado, eu acredito no potencial do Banco Inter, uma fintech que tem apostado na estratégia de super app e pode se tornar bastante grande por ter uma tese interessante e dinheiro”, aposta Diniz.

No final de 2016, o recém-criado app do Inter, contabilizava 80 mil clientes. Hoje, são 7,2 milhões de clientes –  60% deles geraram algum tipo de receita para o banco no terceiro trimestre. “Hoje, somos mais do que um banco. Crescemos nossa oferta de serviços a partir da plataforma de banco digital e temos serviços não financeiros”, explica Helena Lopes Caldeira, CFO do Inter.

Hoje, eles têm o Inter Shop, plataforma de conexão para o e-commerce, no qual eles encaminham os clientes para sites e apps de outros varejistas ou integram o catálogo de varejistas no app próprio do Inter. São mais de 100 varejistas hoje – como Via Varejo, Amazon, Samsung e Magalu. A expectativa é que, ao final de 2020, o Inter Shop se torne uma plataforma de e-commerce de R$ 1 bilhão. Só no terceiro trimestre, o número foi de R$ 375 milhões, o que rendeu quase R$ 19 milhões de receita ao Inter.

O caminho, recomendam especialistas, não é só prestar serviços financeiros, mas atrelá-los a outras facilidades para que o correntista fique mais dentro da plataforma. E isso o Inter tem feito. “Daqui para frente, a gente quer ser capaz de oferecer mais crédito para os clientes consumirem nessa plataforma. Eu te dou mais limite no cartão se for para uso na plataforma”, diz Helena.

A ideia é evoluir para mais lojas e serviços, o que incluirá a venda de passagens aéreas e diárias em hotel. No início de 2021, o app do Inter também deverá contar com um ícone para pedido de comida via delivery. “A gente quer ser uma plataforma que esteja presente na vida do cliente da hora em que ele acorda até quando for dormir.”

Por trás das estratégias, Helena conta que o Inter investe em tomadas de decisões rápidas, estruturas bem horizontais, acesso livre ao CEO e comitê de inovação.

Cada dia maior também é o Mercado Livre com seu Mercado Pago, que acabou de receber autorização do Banco Central para operar como instituição financeira. “Eu acredito que Mercado Livre é uma tese ganha. Os caras já são grandes no mercado deles e, agora, com a nova geração de serviços financeiros, terão êxito”, observa Diniz. 

Tulio Oliveira, vice-presidente do Mercado Pago, brinca que seu negócio será o próximo Mercado Pago – uma espécie de versão do futuro -, já que a operação está em constante evolução. Hoje, ele é conta digital completa, produto de pagamento, crédito, cartão e, mais recentemente, seguro. A base de clientes é colossal. Mais de 60 milhões de pagadores únicos.

Uma parte importante desse público é composto por pequenos empreendedores com necessidade de banco, já que há muitos desbancarizados ou sub bancarizados mal atendidos pelos bancos. “Para muita gente, somos a primeira linha de crédito em um canal 100% digital”, conta o vice-presidente do Mercado Pago.

O mercado de pagamentos, observa, vai se transformar muito nos próximos 10 anos. E isso inclui o Open Banking, que será implementado em 2021. Isso mudará o jogo dramaticamente. “Como a gente entra? Temos muita tecnologia, capacidade de desenvolvimento tecnológico avançado e muito entendimento do nosso público-alvo. Juntar essas duas coisas com os ativos que a gente tem”, explica Oliveira. Sua meta é clara: estar na liderança de produtos, serviços bancários e pagamentos. “A gente não está nessa briga para ser coadjuvante.”

SOBRE A AUTORA

Françoise Terzian é jornalista especializada em negócios e colaboradora da Fast Company Brasil