JBS quer antecipar movimentos e tendências no consumo de alimentos

Crédito: Shutterstock

Fábio Cardo 6 minutos de leitura

O executivo Gilberto Xandó não é exatamente um novato à frente da operação brasileira da maior empresa de alimentos do mundo. O CEO da JBS comandou a Vigor entre 2011 e 2020; de 2017 até assumir a nova posição, há cinco meses, foi membro do conselho de administração da companhia.

Nos primeiros meses, rodou o Brasil, conheceu times e colheu as informações necessárias para entender como funcionam as unidades de negócios, cada marca, as ações de ESG. Assim, pode definir prioridades e iniciar seu trabalho para o crescimento sustentável da empresa. Entre muitas reuniões com clientes durante o evento Apas Show 2022, Xandó conversou com a Fast Company Brasil sobre suas visões e planos iniciais para a JBS no país.

“A JBS, como um todo, acaba sendo uma casa de produtos de marcas relevantes. Temos uma grande capacidade de leitura de mercado, de antecipação de algumas tendências”, destaca o executivo. Ele entende que é possível dividir a análise sobre os negócios a partir de dois segmentos: de produtos e de serviços.

Gilberto Xandó, CEO da JBS (Crédito: Paulo Vitale)

“A empresa mais do que se preparou, nos últimos anos, o que é um diferencial. Isso me surpreendeu. Primeiro, a capacidade de inovação no produto em si, a antecipação de tendências. A JBS se especializou em tentar antecipar esses movimentos de consumo”, analisa.

Um exemplo é a marca Incrível, de produtos plant-based, quanto à forma como ela está se apresentando, ganhando relevância e aumentando as vendas. Isso demonstra a capacidade de inovar em produtos, com mais ou menos ruptura, o que faz com que o mercado se mantenha ativo.

É um processo de oxigenação, com a oferta de alimentos saborosos, que atendem às novas demandas em busca de nutrição saudável, por exemplo. Empresas de marca e consumo têm que estar sempre levando movimentação para o cliente varejista, para ativar o consumidor e gerar novidades. Isso torna a marca mais relevante, mais visível e aumenta sua reputação ao longo do tempo.

Outro pedaço importante do negócio destacado por Xandó é a capacidade que a JBS tem de se associar e atuar muito próxima do varejo. “Descobrimos que a proximidade não se dava mais só pelo produto, mas pela capacidade de poder atender o serviço do varejo”, aponta o executivo.

ANTECIPANDO INOVAÇÕES

Ao longo do tempo, houve inovações importantes, como o Friboi Mais, modelo de parceria antes conhecido

“Temos uma grande capacidade de leitura de mercado, de antecipação de algumas tendências relevantes.”

como Açougue Nota 10. Trata-se de uma parceria com o varejista cujo objetivo é agregar ainda mais valor aos serviços e produtos para comerciantes e consumidores. O trabalho foi muito além de caprichar na apresentação de um produto novo ou colocá-lo em uma prateleira diferente. Primeiro, a empresa teve que fazer uma gestão da categoria, treinar o varejista para entender como poderia vender mais. Algumas questões básicas são levadas aos clientes: quais são os perfis de consumidores das suas lojas? Quais os cortes necessários em cada ponto de venda? O segundo ponto é prestação de serviço e promover a melhor qualificação do varejo.

LOJAS PRÓPRIAS

Esse tipo de serviço não existia há alguns anos. “A JBS se especializou em fazer isso. Temos 1,7 mil lojas Friboi Mais no Brasil. Já não é um experimento, não é um laboratório”, explica Xandó. A partir dessa experiência, a empresa expandiu para o Empório de Frios, que usa a mesma lógica e ainda treina o funcionário do próprio varejo.

Essa lógica de precisão de serviço foi estabelecida antecipadamente pela JBS. “Quando chegamos em uma feira como a da Apas [Associação Paulista de Supermercados], onde muita gente vem nos procurar, não vou falar só do produto físico. Vou apresentar os resultados que as redes de varejo obtêm, essa forma de pensar e vender junto com o varejo”.

Xandó também destaca a grande inovação da marca Swift, como referência de qualidade e atendimento a novos hábitos de consumo. “Ninguém comia carne bovina congelada há 10 anos”, lembra. O processo de congelamento ultrarrápido de porções individuais, ampliou as opções de acesso a proteínas, permitindo ao consumidor escolher o que comer a cada momento. Hoje é possível experimentar diversos mixes de produtos, com sabor, textura e suculência tão boas quanto as das carnes frescas.

Empresas de marca e consumo têm que estar sempre levando movimentação para o varejista, para ativar o consumidor e gerar novidades.

Com a tecnologia unida ao serviço, o Empório de Frios conta com mais de 500 lojas pelo Brasil. “Aí tivemos outra sacada importante: a loja de rua e a prestação de serviços dentro dos pontos de venda, com atendentes para orientar os consumidores. Dessa forma, a empresa e o varejo fidelizam o cliente, que permanece mais tempo dentro da loja”, explica.

Uma das principais prioridades é estudar o hábito de consumo, se antecipando às tendências. “Temos que ter capacidade de leitura de mercado e oportunizar produtos através dessas tendências, o mais rápido possível e antes do concorrente. A JBS é a maior empresa de proteína animal do mundo, mas o que mais nos movimenta é a capacidade de desenvolver marcas, uma alta capacidade de penetração e de reconhecimento no mundo”, afirma o CEO.

Segundo ele, a empresa se colocou um desafio: ter 10 marcas que faturem pelo menos US$ 1 bilhão nos próximos anos. “Só esse movimento já mostra qual é o nosso pensamento: aumentar o valor agregado dos produtos, com marcas de alta reputação. Essa é a lógica de criação de valor. Vamos continuar fornecendo a commodity e a semi commodity, porque isso é uma necessidade do consumidor no mundo todo. Mas a lógica estratégica da companhia está em ser uma estrutura de marcas relevantes, com alta reputação em todos os países onde atuamos”, destaca Xandó.

SUSTENTABILIDADE NA BASE DOS NEGÓCIOS

a empresa se colocou um desafio, ter 10 marcas que faturem pelo menos US$ 1 bilhão nos próximos anos.

A sustentabilidade na empresa é uma questão sem volta, com objetivo de cuidar das próximas gerações. “Isso está no DNA da companhia e deve ser considerado como uma jornada. Temos vários projetos ao longo do tempo, marcando o que estamos fazendo e pensando”, assegura.

A JBS conta com uma estrutura dedicada ao tema no Brasil e no exterior. O CEO garante que governança ambiental, social e corporativa (ESG, na sigla em inglês) são três pontos fundamentais para a organização. “Estamos aprendendo muito porque, nesse negócio, ninguém sabe tudo. Vamos ter que aprender mesmo, trazer esse conhecimento para dentro de casa e desdobrar os principais projetos.”

Segundo o executivo, são projetos que têm início, mas não têm fim. “Não depende só de nós. Depende de juntar também os concorrentes para fazer o que é bom para o planeta. Nós nos desafiamos com o Net Zero até 2040. Vamos descobrir as respostas ao longo da jornada” finaliza.


SOBRE O AUTOR

Fábio Cardo é economista de formação, atua em comunicação empresarial e empreendedorismo e é co-publisher do canal FoodTech da Fast Co... saiba mais