Geração Z faz “rebelião analógica” para ficar cronicamente offline
Volta do vinil, do iPod e do livro físico não é nostalgia; jovens buscam limites para interromper o feed e escapar das telas

Livros, vinis, eventos ao vivo, iPods, Cybershots, jogos de tabuleiro. Não é só nostalgia e nem tendência A geração Z tem buscado formas de sair das telas e do mundo digital.
Os sinais aparecem em diferentes frentes. Dados da Câmara Brasileira do Livro mostram que os jovens compraram mais livros em 2025. Entre 2024 e 2025, a faixa entre 18 e 34 passou de 35,8% para 39,2% do total de consumidores de publicações no país. O avanço foi puxado pela faixa da geração Z, jovens entre 18 e 24 anos.
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Nos eventos, o movimento ganha corpo. A geração Z já representa 36% do público de eventos ao vivo no Brasil, de acordo com levantamento feito pela Zig, plataforma de tecnologias para eventos. E não se trata apenas de festivais ou shows. Segundo a consultoria Boldpush, 88% desses jovens consideram extremamente importante participar de eventos profissionais presenciais.
Ainda no Brasil, dados da unidade de inteligência do grupo McCan, a McCan Truth Central mostram que 79% dos jovens buscam “hobbies offline” ou “analógicos”. A geração Z é um exemplo concentrado da tensão que a sociedade vive entre uso excessivo de internet e reconexão com a vida física.

Uma pesquisa global da empresa de dados DemandSage indica que esse público passa, em média, 9 horas por dia em telas. Ao mesmo tempo, o grupo é o mais consciente de que as telas não fazem bem. Quase 80% admitem que passam tempo demais no smartphone, frente a 67% dos millennials e 51% dos boomers.
O reencontro dos jovens com o mundo analógico aparece em relatórios de tendência desde 2024 e, volta e meia, é assunto de trends diferentes de consumo nas redes sociais. Já foi chamada de detox digital, de nostalgia e agora ganhou um outro nome, até pela força do contra-ataque: rebelião analógica.
DIMINUIR O SCROLL E AUMENTAR A FRICÇÃO
Em apresentação no South by Southwest (SXSW) deste ano, Maureen Polo, CEO da Hello Sunshine, empresa fundada por Reese Witherspoon, descreve o movimento muito menos como uma desconexão completa das redes sociais e mais como uma “retomada da agência.” Ou seja, o retorno da escolha pessoal e íntima em prol dos algoritmos.
“Existe uma ideia de que a rebelião analógica vem da nostalgia. Mas, naquela época, havia mais agência do que essa geração tem hoje e é o que eles querem recuperar: a capacidade de escolher sem feeds”.
E é aí que entram as procuras por aparelhos digitais “dos anos 2000”, como o iPod e a câmera fotográfica cybershot. São dispositivos que permitem fazer a ação desejada (tirar foto, escutar música) sem ter de passar por uma curadoria do feed ou do aplicativo.
Futurista e antropóloga de tecnologia, Jésabel DC explica que tais dispositivos “low tech” contêm um componente essencial para a autonomia do usuário: a fricção. Um tocador de mp3, por exemplo, depende de um momento para baixar as músicas, criar as playlists e, até mesmo, deixar de lado alguns arquivos por falta de espaço.
“É um uso mais intencional e exige mais criatividade. Um futuro offline para mim é um futuro em que somos realmente intencionais sobre o que nos interessa, o que estamos criando", diz Jésabel.
Evitar o scroll também faz parte da rebelião analógica. Relatórios da consultoria de tendências WGSN apontam que termos como “engajamento seletivo” e “moderação digital” ganham força entre consumidores mais jovens.
RECONEXÕES COM AS PESSOAS
Neste ano, no Coachella - festival de música e arte realizado na Califórnia -, o Pinterest vai testar a rebelião analógica na prática. Para entrar no espaço da plataforma, será preciso deixar o celular em uma bolsa. Lá dentro, a proposta é outra: conversas em grupo, experiências presenciais, interação sem tela.
Em apresentação feita no South by Southwest (SXSW) deste ano, a pesquisadora sobre saúde social, Kasley Killam, afirmou que “2026 seria o ano do analógico”. “ Essa necessidade não vem só de um lugar de nostalgia, mas também de um desejo genuíno de fazer conexões humanas significativas".
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Em um ambiente mediado por plataformas, encontrar outras pessoas presencialmente deixa de ser padrão e passa a ser escolha. E, cada vez mais, uma escolha intencional. Não é à toa que cresce também o interesse por encontros presenciais, clubes, experiências compartilhadas e atividades coletivas. Entre elas, os jogos de tabuleiro.
No Brasil, o setor vem se expandindo rapidamente. O número de editoras dedicadas a jogos de tabuleiro saltou de apenas 3, entre 2013 e 2018, para mais de 50 em 2025.
OFFLINE PERFORMATIVO
Nem toda tentativa de desconexão escapa da lógica digital. Em algumas situações, o analógico é apenas uma nova estética para permanecer online e acelerado.
Nas redes sociais, cresce o interesse pelas chamadas analog bags. O conceito é simples: bolsas montadas com itens que remetem ao offline — cadernos, livros, canetas coloridas, materiais de desenho, kits de pintura e até de costura.
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O assunto virou trend no TikTok no começo deste ano, com criadores de conteúdo mostrando o que levam em suas sacolas. Influenciadores fazem o “tour” pelo que têm de analógico para, depois, colocar o link de onde comprar todos os objetos que ajudam a se desconectar.
É um paradoxo: a desconexão é tema de conteúdos online. Quando o assunto é hiper-consumo e aceleração, o cronicamente online e o cronicamente offline andam de mãos dadas. E este talvez seja o maior desafio da geração Z ao continuar a rebelião analógica. Afinal de contas, os livros, os vinis, os shows, os ipods e os jogos de tabuleiro podem trazer a conexão fora do mundo digital. Mas, no final, eles podem ser apenas…produtos.