Gilles Lipovetsky: a armadilha da autenticidade na política

Para o filósofo, o mesmo valor que molda o indivíduo moderno também é combustível para o populismo, além de estar presente nas redes sociais e discursos sobre a arte.

Gilles Lipovetsky fala ao microfone em montagem com papéis amarelos amassados sobre fundo azul.
Crédito: Rafael Strabelli / Fronteiras do Pensamento e volodymyr-hryshchenko via Unsplash

Sofia Bolina 19 minutos de leitura
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Teórico da hipermodernidade, da sociedade de consumo, do mercado de luxo, e de tantos outros fenômenos sociais e culturais que vivenciamos a partir dos novos estágios do capitalismo, o filósofo francês Gilles Lipovetsky esteve no Brasil na última semana para participar do projeto Fronteiras do Pensamento.

Na palestra em São Paulo, Lipovetsky falou da autenticidade, que vê como um valor fundamental da sociedade atual: dos queijos às viagens, e das empresas à liberdade de se escolher profissões e parceiros românticos, a autenticidade é o imperativo que rege a forma como vivemos. “É provavelmente o ideal que mais transformou nossas existências nos últimos 50 anos", disse durante sua fala no evento realizado em parceria com a Universidade Presbiteriana Mackenzie.

É esse também o tema de um dos seus livros que lança este mês no Brasil, “A Consagração da Autenticidade", pelo selo Amarilys e originalmente escrita em 2021, antes da inteligência artificial (IA) fazer parte do dia-a-dia de muita gente. E, mesmo assim, a obra permanece atual, sobretudo com os desdobramentos que a própria IA traz sobre a educação e a cultura. 

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Aos 82 anos, Lipovetsky se mostra preocupado com a juventude de hoje diante dos desafios que a era hipertécnica tem nos colocado, e se diz menos otimista com o futuro do que nos anos 80, quando escreveu o ainda atualíssimo “A Era do Vazio". No entanto, para ele, nossa realidade é muito mais frágil, em todas as esferas de nossas vidas. Mas “não estou desesperado, mesmo que a gente vá viver um século trepidante”, diz o francês.

Em sua passagem pelo país, Lipovetsky concedeu entrevista à Fast Company Brasil, e comentou desde o impacto das redes sociais na política ao uso da autenticidade como valor máximo da expressão artística, e da importância da agência humana a discursos de extrema direita considerados “autênticos”. Na conversa, assim como na palestra no projeto Fronteiras do Pensamento, os paradoxos apareciam frequentemente em sua filosofia: além de hipermoderna, esta é uma era de muitas tensões impossíveis de serem completamente "resolvidas". 

A tradução de Lipovetsky foi feita por Juremir Machado da Silva, sociólogo e professor da PUC-RS, tradutor também de algumas obras do francês.

FC Brasil - Em sua palestra no Fronteiras do Pensamento, o senhor falou de autenticidade, que é um dos principais valores da sociedade atual. Quando você escreveu o livro sobre isso, não havia inteligência artificial (IA) como existe hoje. De que forma você analisa os usos que fazemos da IA, que trabalha reconhecendo e reproduzindo padrões, em relação à autenticidade?

Gilles Lipovetsky - O ideal da autenticidade quer dizer muito simplesmente estar de acordo consigo mesmo, ser quem se é. Então, nesse sentido, o uso que se faz de uma tecnologia não contraria o ideal de autenticidade. Para muitos, é um acessório, é uma ferramenta que serve para ir mais rápido, obter informações. Não passa disso, não é muito diferente do uso que as pessoas já faziam de coisas como o Google.

O problema é que há dois campos em que as coisas se confundem um pouco. 

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Um primeiro aspecto é em relação aos jovens na escola. Por exemplo, se o professor manda trabalhar um tema em casa, os alunos tendem a pedir a resposta para o ChatGPT. E isso é um problema. Nesse ponto, não estou convicto de que tenha muito a ver com autenticidade, porque o aluno só quer uma nota boa. Ele não está pensando em algo que tenha a ver com quem ele realmente é. É um comportamento utilitarista. Não é ângulo que vejo para discutir a questão da autenticidade.

FC Brasil - Mas se o aluno usa a IA para a maioria dos trabalhos escolares, isso não molda quem ele está se tornando?

Gilles Lipovetsky - Refletindo, neste momento, acredito que essas coisas acabam se ligando. Porque se um jovem começa a pedir todas as respostas para o ChatGPT, ao final ele terá de se perguntar: Bom, mas quem é ele realmente? Será que para ser quem se é, não precisa de uma formação, uma educação?

A autenticidade é estar em conformidade consigo mesmo. Mas o que é "si mesmo"? Como temos acesso a isso? Se o indivíduo se resume a ser um consumidor de mensagens, cadê o "si mesmo"? 

A IA não desafia a autenticidade; ela é um desafio para a educação. Estou triste em ver que os governos não estão à altura do problema, não encaram as questões a fundo. Como formar numa era da hipertecnologia? Isso teria de se transformar num debate coletivo, mas continua sendo um debate de técnicos.

Gilles Lipovetsky fala ao microfone no palco de um auditório, diante da plateia.
Gilles Lipovetsky durante palestra do Fronteiras do Pensamento, realizada em São Paulo, em outubro de 2026. Crédito: Rafael Strabelli

FC Brasil - E o segundo campo de interseção entre a IA e autenticidade, qual seria?

Gilles Lipovetsky - O segundo aspecto diz respeito às obras de arte e à cultura. Há todo um debate estabelecido porque a IA consegue fazer o que se chamava de “obras de arte": Filmes, romances, etc. A questão é que desde o século XVIII a obra de arte é vista como uma expressão profunda daquilo que é o indivíduo. Ela só é legítima enquanto expressão de uma personalidade singular. Então, isso exclui a cópia. Copiar alguma coisa é indigno.

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Uma obra pode ser assinada por uma pessoa mas ter sido feita em grande parte por uma IA. Normalmente, isso gera um escândalo, porque é visto como uma falsificação. É “completamente inautêntico”, porque aquilo que deveria ser a expressão mais profunda, mais íntima de uma pessoa, acaba sendo feito de maneira mecânica por uma máquina.

A IA não desafia a autenticidade; ela é um desafio para a educação.

Até agora isso não colocava muitos problemas para a música de entretenimento ou campanhas publicitárias, por exemplo. Como essas coisas não são consideradas de alta cultura, não provocavam grandes escândalos. O escândalo surge quando isso começa a atingir obras consideradas de alto valor na cultura.

Nós ainda estamos no meio do furacão de uma polêmica na França que diz respeito a um autor haitiano que recebeu o Prêmio Fnac. E, depois, se soube que a obra foi escrita por um robô. A obra existe, mas é dita inautêntica no sentido artístico do termo. Porque, como já disse, a obra de arte moderna deve ser uma expressão da singularidade de uma pessoa, da pessoa em si. E no caso, o livro vencedor do prêmio é a expressão de uma máquina. 

O debate está aberto, e é muito complicado. Tem escritores que reconhecem esse tipo de situação e dizem que foram "ajudados". Há autores que admitem para si mesmos que usam a IA como auxiliar, e por vezes acabam cancelados.

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Eu condeno esse tipo de atitude, esse cancelamento, porque é uma imagem de criação que não corresponde à realidade, veicula uma imagem da criação artística completamente romântica. O ser humano não cria sozinho. A gente nunca para de se servir de toda a nossa herança. Qualquer marceneiro se serve de ferramentas para fazer o seu trabalho. Por que só com o romance seria totalmente proibido? Quando escrevo, acabo retomando fórmulas que li em outros livros; não invento tudo. 

Denuncio esse ideal romântico. Há, ainda, um ponto de vista político: esse processo acaba gerando uma sociedade de vigilância permanente. Se produz uma situação permanente de suspeita. É algo moralista e culpabilizante - como a ecologia culpabiliza aqueles que usam carro - estendido a pessoas que utilizam uma ferramenta extraordinária. Além de achar isso idiota, lamento que se crie um regime de suspeita total como aquele movimento dos anos 50 nos Estados Unidos, o Macarthismo. 

Meu próximo ponto sobre isso é que a gente esquece que um livro feito integralmente por IA, ou 98% feito por IA, apresenta outros problemas. Ao nível empírico: será que esses números são confiáveis? Vejo uma contradição muito interessante. De um lado, as pessoas denunciam o uso de IA e do outro, confiam na IA para verificar se houve ou não o uso da IA. Para mim, é inverossímil que se faça isso.

Não acredito que um escritor seja completamente passivo, mesmo quando peça ajuda à IA. Ele dá instruções no prompt, mas também faz correções e ajustes. Não há nada que seja inteiramente IA, ou inteiramente de um autor. A sabedoria hoje é entender que uma tecnologia com um potencial tão extraordinário não pode ser denunciada para que não seja utilizada. É preciso ser pragmático e razoável e entender que o ser humano deve continuar pilotando a máquina. Continuamos tendo escolhas e gostos, dizemos para a IA o que nos interessa ou não. O futuro é por aí, continuamos dizendo o que queremos. 

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O problema não é o uso da IA, é o resultado da IA. A cultura de massa existe desde antes da IA, então os filmes e músicas feitos por IA terão a mesma qualidade do consumo de entretenimento medíocre. Isso não me incomoda, tem pouca importância. É como escolher Coca-Cola ou Pepsi. Declarar guerra a esse tipo de coisa é não ver o que interessa. O importante é manter a exigência, querer coisas de qualidade. Acho que a IA pode fazer coisas de qualidade, mas o ser humano sempre pode fazer melhor, acrescentar algo. É preciso valorizar esse aspecto. 

Aplicar o ideal de autenticidade aos líderes políticos é uma coisa perigosa.

Para mim é uma aberração que não se use nenhuma ferramenta. O ser humano é feito pelas ferramentas. Há aquelas que são excelentes e outras que produzem mediocridades. É preciso aprender a julgar o que faz com que uma obra tenha qualidade ou não, e para isso é preciso uma formação, na cultura clássica, nas diversidades, nas humanidades. Assim se pode fazer um uso inteligente de ferramentas com a IA. A inteligência que deve prevalecer sobre um moralismo fácil.

FC Brasil - O senhor falou, no Fronteiras do Pensamento, sobre outros valores que devemos priorizar além da autenticidade: a inovação, a inteligência, a cultura, a justiça… Diante do mundo hipertécnico em que vivemos, como você vê a necessidade do resgate desses valores, não só para a juventude mas para todos nós? É fato que não sabemos ainda, na educação, lidar com a IA, mas há questões relacionadas a ela que se repetem em outros grupos etários, com pessoas que estudaram antes da IA. 

Gilles Lipovetsky - Mais uma vez, não acho que o problema esteja aí, por ver o uso da IA como uma amplificação do uso que já faziam do Google. Mas aproveito para desenvolver um ponto que trouxe no meu livro. 

Para muitos, essa questão traz um ponto que já era discutido por um intelectual alemão chamado Günther Anders, que falava da obsolescência programada. E aí vira uma histeria: as pessoas dizem que os algoritmos agora detêm o poder e destroem a vida autêntica, "varrendo” a autenticidade representada pela singularidade da escolha da pessoa. Estamos num ponto em que há gente falando que tudo será definido pelos algoritmos: onde invisto meu dinheiro, com quem faço amor, etc. Então, nesse sentido, a máquina toma o poder. Ela estaria eliminando a liberdade, o livre arbítrio, o subjetivo.

Não concordo com isso. Quando utilizamos a IA, estamos em permanente diálogo com ela. É muito raro que a IA escolha o que devemos fazer como se não tivéssemos nossas próprias ambições pessoais. Pode ser que isso valha, mais uma vez, para tudo o que diz respeito ao entretenimento. Mas mesmo nesse âmbito, tenho considerações a fazer. 

Dizem que a IA nos conhece melhor do que nós mesmos. Tenho dúvidas sobre isso. A IA recomenda um filme e você pode não gostar dele. Então, ela não conhece você totalmente. E nós mesmos nos conhecemos mal.

A existência não é uma coisa fixa, não é como uma xícara que é sempre uma xícara. O ser, em si, muda a todo tempo. Nossos humores não são estáveis. Você pode passar da alegria à tristeza muito rapidamente. E quem domina isso? Nós mesmos não dominamos, como a máquina poderia dominar?

Se alguém está em dúvida sobre manter um relacionamento com outra pessoa, você até pode perguntar para a IA, mas quem vai realmente decidir ir ou ficar é você. Então, para as coisas importantes da vida, como o amor, o casamento, a educação dos filhos, a IA até pode dar conselhos, como os amigos dão conselhos, mas não é ela quem decide, como não são os amigos que decidem. A decisão é da pessoa.

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Quem decide é cada um, na dificuldade das suas escolhas. Essa ideia de obsolescência do homem é uma ideia absurda.

Enfim, dou um último exemplo, que é o mais trágico e que altera a geopolítica planetária. Falemos da Guerra da Ucrânia. Alguém acredita que foi a IA que mandou Putin enviar soldados para a região de Donbass? 

São as velhas paixões humanas que fizeram isso. É o humano demasiadamente humano do qual falava Nietzsche. A megalomania, a vontade de poder, a paranóia; não é a máquina. Nenhuma inteligência artificial teria aconselhado Putin a invadir a Ucrânia. Ele fez isso por razões passionais. Daria para falar o mesmo das decisões de Trump, o presidente americano. Ele, sozinho, acaba por cansar a IA por mudar de decisão a cada quinze minutos!

O que acaba prevalecendo é o reino do homem com suas paixões. As ferramentas estão cada vez mais poderosas, mas o ser humano, com suas fragilidades e emoções, permanece. Como tem permanecido desde o paleolítico.

Gilles Lipovetsky segura um microfone e aponta com a mão durante uma palestra.
Para Lipovetsky, o uso da inteligência artificial deve preservar a capacidade humana de fazer escolhas e avaliar resultados. Crédito: Rafael Strabelli

FC Brasil - Falemos das redes sociais enquanto vivemos num momento de inflação de imagens. Como isso se relaciona à tendência do capitalismo em mobilizar afetos? Especificamente, qual o impacto disso tanto na publicidade quanto na política, ambas muito presentes nas redes sociais?

Aí temos um grande problema, do qual se fala por todo o planeta, que é a dependência das redes sociais. É uma coisa mensurável, a gente vê o número de horas que cada um passa diante das telas. A adicção é um aspecto psicológico conhecido, que afeta os jovens de uma maneira terrível, por exemplo, no sono, nos estudos, e prejudica a memória.

A primeira rede social é de 2012, mais ou menos. De lá para cá, vimos a taxa de suicídios entre jovens aumentar, o que permite pensar numa correlação. O perigo é verdadeiro, é real. Qual é a solução? Podemos, por exemplo, proibir os celulares nas escolas, os pais podem ficar mais atentos, mas será que isso resolve? 

As redes sociais são plataformas de monstros econômicos, que ganham dinheiro colhendo os afetos dos consumidores. Não adianta uivar contra isso, porque isso vai continuar. Mas não estamos condenados à paralisia. 

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É um enorme debate planetário, no qual se opõem duas visões de mundo. Uma, comandada pelos Estados Unidos, que recusa qualquer forma de regulação em nome da liberdade; por estar na constituição americana, desrespeitá-la pode fazer com que você seja chamado de ditador. Do outro lado está a União Europeia (UE), cuja concepção como bloco é de que o mundo digital não pode ser aceito como um faroeste, e precisa de regulamentação.

Hoje, já não chamaria meu livro de ‘A Era do Vazio’, e sim de ‘A Era da Insegurança’

Essa é a razão pela qual agora os americanos enxergam a Europa como um inimigo maior do que a Rússia. Para eles, regulamentar significa impedir os negócios. Acho que os membros da UE, que tem mais de 450 milhões de consumidores, vão exigir o controle de algumas coisas, e não me parece haver nada de absurdo nisso. Há coisas que não são aceitáveis. Com a IA, como sabemos, existem os deepfakes e nudes. Isso não pode ser admitido. 

Se há a condenação da chamada imprensa escrita por difamação e calúnia, por que não se teria regras de condenação nas redes? Não há diferença entre o mundo real e o mundo virtual. As regras que valem num devem valer no outro. Há coisas que tem que se respeitar, regras básicas que precisam existir na internet. E isso de fato é um problema político. Mas não é a tecnologia que é política, é o nosso uso dela que é. 

Até a reeleição do presidente Trump, as redes sociais eram democráticas. Com o início de seu segundo mandato, vimos uma mudança de lado dessas empresas; a liberdade sem limites leva à tirania. Sem regras, os mais frágeis são transformados em vítimas, especialmente os mais jovens. 

FC Brasil - Como o senhor analisa os desafios políticos e democráticos na era hipermoderna, caracterizada pelo individualismo e culto à autenticidade? Há mais ou menos dez anos, vimos surgir políticos que são descritos como “autênticos”, mas que defendem revogar o direito à autenticidade para grupos específicos da nossa sociedade.

Gilles Lipovetsky - É preciso defender a autenticidade, principalmente contra os fundamentalismos e contra todos aqueles que querem se apropriar do que ela possa representar. 

Mas no plano político surgem outros problemas. Esta é uma época em que o cidadão se caracteriza por uma desconfiança abissal do que fazem os seus representantes políticos. O cidadão, principalmente o francês, embora seja uma tendência que vá além da França, não acredita mais nas promessas dos eleitos. O cidadão acha que o político só pensa nos seus próprios interesses, em ser reeleito. Então, entramos na era da hiperdesconfiança. 

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Os cidadãos não confiam no prefeito, não confiam no presidente, não confiam nos deputados, não confiam nos líderes. Não confiam em ninguém. Essa é uma das imagens do hiperindividualismo. E aí é que está a armadilha da autenticidade. Atualmente, os líderes populistas, como são chamados, fazem crer que só eles representam o povo. Eles adotam, pouco a pouco, um linguagem espontânea, grosseira, e que faça crer que eles sejam como os seus eleitores. Os insultos, ofensas, coisas horrorosas que dizem... O benefício político disso é que são vistos pelos cidadãos como “autênticos", por  "dizerem o que pensam". 

Trump foi considerado autêntico, e venceu Hillary Clinton em 2016. Ela era vista como uma tecnocrata enquanto ele dizia o que vinha à sua cabeça, como se apenas ele fosse verdadeiro e estivesse dizendo o que realmente pensava. Portanto, há um uso da autenticidade que favorece a ascensão do líder populista.

Estamos numa época em que não existe mais uma grande ideologia que carregue as pessoas. E quando a gente observa bem as pesquisas, a gente vê que aquilo que os cidadãos acabam por apoiar fortemente são a honestidade e a sinceridade. Para mim é grave porque tomar as decisões políticas não é uma questão de sinceridade, mas de inteligência e de capacidade de calcular o que realmente é melhor para o país.

Aplicar o ideal de autenticidade aos líderes políticos é uma coisa perigosa. Quando o presidente argentino Javier Milei sai à rua com uma motosserra, isso pode ser considerado autêntico, mas na verdade é um espetáculo da autenticidade, e muito menos uma solução. 

FC Brasil - Há coisas que o senhor escreveu há 40 anos e que se mostram cada vez mais atuais. Existe algo inesperado que você observou nos últimos anos e que te surpreendeu?

Gilles Lipovetsky - Muitas coisas. Hoje, já não chamaria meu livro de “A Era do Vazio" (1983), e sim de “A Era da Insegurança". Escrevi esse livro numa época de grande virada, em que a utopia estava desaparecendo; os desafios e ameaças de hoje já não são mais os mesmos. 

Quando escrevi o livro, era um desses intelectuais que defendiam a cultura de massa, o consumo e a mídia, porque via nisso algo que favorecia uma certa autonomia. Agora, não é bem assim. Tudo o que pesava sobre a autonomia das pessoas desapareceu. O que parecia favorecer o ideal para o bem se tornou um problema. 

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A poluição, as questões ecológicas, já existiam nos anos 80. Mas hoje a dimensão é outra. Pensávamos que não haveria mais guerra, que elas tinham acabado. Infelizmente, os prognósticos eram falsos. O desemprego existia, é verdade, mas a gente acreditava que os estudantes podiam encontrar um lugar na sociedade. Hoje, com a IA, quem tem mais estudo acadêmico é mais ameaçado. É melhor fazer um preparatório para ser encanador do que estudar para ser um advogado.

Então, meu livro “A Odisseia da Superpotência”, que acaba de ser publicado no Brasil, tem por subtítulo “Hiperpoder e Fragilidade Generalizada”. E aí é que está o grande problema. Eu vejo um mundo cada vez mais fragilizado. 

Não enxergo uma esfera que escape disso, mesmo no plano da vida íntima dos casais ou na vida profissional; os territórios sofrem incêndios imensos, inundações. A gente pensava, e eis o paradoxo, que quanto mais poder o homem tivesse graças à tecnologia, mais ele seria livre e feliz num mundo com justiça. Mas isso é falso. Não somos mais felizes; estamos estressados e temos problemas terríveis. Desse ponto de vista, nunca tivemos tanta desigualdade, além da guerra que não termina -  basta olhar a corrida armamentista no mundo inteiro. 

Hoje, sou menos otimista do que quando escrevi “A Era do Vazio". Mas não estou desesperado, mesmo que a gente vá viver um século trepidante. 


SOBRE A AUTORA

Sofia Bolina é jornalista, formada em Estudos Culturais pela Universidade Humboldt de Berlim e mestre em escrita de não-ficção pela Un... saiba mais