Google Maps ganha navegação em 3D para reduzir distrações
O aplicativo agora mostra um mapa 3D em tempo real, com prédios e faixas de pedestres, para reduzir a carga cognitiva do motorista

“No semáforo, vire completamente à esquerda na Rua Washington.”
“Então, a segunda proposta de valor...”
“Vire à direita na Terceira Avenida e, na próxima placa de parada…”
O Google Maps interrompe constantemente a própria explicação.
Charles Armstrong, gerente de produto da plataforma, tenta explicar como as direções passo a passo estão recebendo a maior atualização desde o lançamento do serviço, em 2009. Hoje, a plataforma alcança cerca de dois bilhões de pessoas no mundo e detém 70% de participação de mercado no segmento de aplicativos de navegação.
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Mas, enquanto Armstrong tenta me guiar pelas mudanças do redesign, ele continua sendo interrompido pela própria demonstração do aplicativo. E, convenhamos… qualquer pessoa que já tentou conversar dentro do carro enquanto segue instruções de navegação provavelmente acharia a situação um tanto reconfortante.
Ainda assim, preciso admitir: as atualizações, que começaram a ser lançadas nesta quinta-feira (12 de março), parecem promissoras. A seguir, os principais avanços de UX.
O GOOGLE MAPS AGORA É 3D
A atualização mais significativa do Maps está na navegação, que antes era em 2D. Agora, a “câmera” foi inclinada para baixo para revelar um mapa 3D em tempo real, com prédios, faixas de pedestres e saídas de vias expressas.
O que pode parecer apenas um truque visual chamativo tem um objetivo bem prático: reduzir a carga cognitiva do motorista, diminuindo o estresse comum de receber uma instrução de conversão sem conseguir identificar claramente onde ela fica no mundo real.
“Esperamos que o 3D torne tudo mais fácil de relacionar com a realidade”, diz Paolo Malabuyo, diretor de UX do Google Maps. “Assim fica muito mais simples perceber: ‘ah, estou aqui e sei para onde preciso ir daqui a alguns quarteirões.’”
Um detalhe importante: grande parte desse mapa 3D foi gerada com a ajuda da IA Gemini, que o Google utilizou para transformar os próprios scans de ruas capturados por satélite em gráficos tridimensionais.
Elementos como rampas de acesso, por exemplo, não aparecem apenas em um ou dois tamanhos. O mapa foi construído para espelhar de forma mais fiel as proporções das estradas reais.
Ao mesmo tempo, a IA também adiciona alguns elementos dinamicamente, como estacionamentos ou pontos de referência, dependendo de escolhas – como, por exemplo, o seu destino final.
UMA CÂMERA MAIS CINEMATOGRÁFICA
No Google Maps antigo, a câmera “flutuava” sobre o carro, replicando cada movimento exatamente na mesma velocidade. Em teoria, isso parecia perfeito: o mapa mostrava exatamente o que você estava fazendo. Na prática, segundo a equipe, essa decisão de design acabava aumentando o estresse dos motoristas.
Na nova versão, a perspectiva muda. A câmera passa a aproximar e afastar o zoom de forma dinâmica, quase cinematográfica, dependendo da velocidade e da posição do carro na estrada.
Em trechos retos de rodovia, a diferença não é tão perceptível. Mas nas curvas, especialmente nas conversões, o Maps agora projeta a câmera um pouco à frente do veículo, oferecendo uma prévia da rua e dos pontos de referência que vêm pela frente.
Combinado a uma espécie de “visão de raio-X”, que torna transparentes os prédios que bloqueiam a visão do trajeto, o novo Google Maps promete tornar muito mais fácil navegar por ruas congestionadas de centros urbanos.
INSTRUÇÕES DE VOZ MAIS HUMANAS
A câmera também vem acompanhada de um novo sistema de orientação por voz, que a equipe descreve como “mais coloquial” – novamente, com apoio da IA Gemini.
Todo o redesign foi pensado para lidar com 14 situações particularmente propensas a erro, que costumam fazer motoristas perderem conversões.
Instruções de áudio mais claras devem ajudar em vários desses cenários, por exemplo, quando você está numa rodovia com duas saídas seguidas e não sabe exatamente qual delas deve pegar.
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“Houve melhorias sólidas para reduzir instruções repetitivas e meio desajeitadas”, diz Armstrong. “Agora o sistema fala muito mais como um ser humano.”
Essa interface conversacional também funciona nos dois sentidos. A IA Gemini passa a responder perguntas dos usuários por meio de um novo botão chamado “Ask Maps” dentro do aplicativo.
Segundo o Google, você poderá fazer perguntas em linguagem natural, como “meu celular está acabando a bateria – onde posso carregá-lo sem precisar enfrentar uma fila enorme para comprar café?”. O sistema responde verbalmente e, em seguida, gera um mapa personalizado com o trajeto sugerido.
MAIS TEMPO COM OS OLHOS NA ESTRADA
O Google acumula décadas de dados sobre comportamento de motoristas, que ajudaram a orientar muitas dessas decisões de design.
A empresa também validou as mudanças com simulações de direção com rastreamento ocular em laboratório, além de desafiar funcionários a dirigir o que chama de “rota platinum”.
Baseado em Seattle, esse percurso talvez merecesse um nome mais dramático – algo como “rota infernal” –, já que reúne as 14 situações mais difíceis de navegar.
A equipe faz o trajeto, grava o percurso e depois repete a experiência com novos protótipos de interface para testar quais mudanças realmente ajudam os motoristas.
Embora o Google evite divulgar números específicos sobre quanto tempo ou frustração a nova interface pode economizar, a empresa afirma que as melhorias devem impactar de forma mensurável a experiência de dirigir.
Nos testes, a equipe monitora de perto um indicador chamado “olho na estrada”, que mede quanto tempo o motorista olha para a tela de navegação em comparação com o tempo olhando para o caminho.
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Mesmo com uma interface mais rica em informações, o novo Google Maps foi projetado para ser mais fácil de compreender rapidamente. Segundo os testes internos da empresa, motoristas que usam a nova versão olham menos para a tela do que na versão antiga.
Isso é particularmente relevante em um momento no qual toda a indústria automotiva começa a reconhecer os perigos das telas tipi touchscreen dentro dos carros.
Ainda assim, é difícil imaginar um mundo sem navegação passo a passo. Por isso, o desafio do Google é continuar otimizando a experiência do usuário para reduzir a carga cognitiva e aumentar a atenção do motorista à estrada.