IA está fazendo os smartphones ficarem mais caros e piores

Com a memória cada vez mais cara e disputada pela indústria de IA, fabricantes começam a reduzir especificações de aparelhos mais baratos

IA está deixando smartphones mais caros e menos potentes
Créditos: alphaspirit/ Adobe Stock/ Ashkan Forouzani/ Brecht Corbeel/ Unsplash

Chris Stokel-Walker 4 minutos de leitura
Favoritar no Google

Estamos nos aproximando rapidamente do lançamento de novos produtos de hardware de algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo.

A Apple acaba de anunciar novos Mac minis e Mac Studios equipados com seus mais recentes chips M6, enquanto esperamos que o iPhone 18 Pro e o Pro Max, o primeiro iPhone dobrável da Apple e novos modelos do Apple Watch sejam anunciados no evento anual da empresa para o iPhone, na semana que vem (9 de setembro).

Embora os Mac minis e Studios tenham tecnologia de ponta e alta qualidade, estamos entrando em um mundo novo e estranho. O hardware para consumidores – e a tecnologia que equipa as ferramentas das quais dependemos cada vez mais – começa a ficar pior, em vez de melhor.

Um exemplo disso pode ser visto no futuro processador Vera, da Nvidia. O JPMorgan afirma que a Nvidia reduziu pela metade a quantidade planejada de memória SOCAMM conectada a cada chip, de 1,5 TB para 768 GB.

A empresa também reduziu a memória HBM planejada para seus sistemas Rubin Ultra, passando de pilhas HBM4E de 16 camadas para versões de oito ou 12 camadas.

O banco descreve essas mudanças como uma “otimização de componentes como mecanismo de adaptação” à oferta limitada de memória, e não como um sinal de que os sistemas de repente precisam de menos memória. "Nessa escala, nunca vimos nada parecido antes”, afirma Runar Bjorhovde, analista sênior do grupo de pesquisa em tecnologia Omdia.

Não é que a inovação tenha chegado ao fim ou que a lei de Moore – segundo a qual a quantidade de poder computacional que pode caber em um chip, e portanto a capacidade da tecnologia, dobra a cada dois anos – precise ser jogada pela janela. A questão é que ficou caro demais continuar como antes.

Um dos principais motivos é a enorme demanda por memória e outros componentes avançados por parte dos hyperscalers (empresas que oferecem serviços de gerenciamento de dados e computação em nuvem), que estão ampliando sua infraestrutura de IA.

A VOLTA DO 4G

Os grandes fabricantes de memória têm concentrado cada vez mais sua atenção e sua capacidade de produção em produtos de alto desempenho, pelos quais os hyperscalers estão dispostos a pagar caro.

Expandir a oferta também não é algo rápido. Novas fábricas podem levar de dois a três anos para serem construídas e, cada vez mais, tendem a ser projetadas para atender GPUs de especificações mais altas e maior retorno, em vez de componentes básicos.

Esses desafios fizeram os preços dispararem. Bjorhovde afirma que os componentes de memória agora custam quatro ou cinco vezes mais do que custavam há cerca de um ano.

Créditos: RapidEye/ Getty Images/ Jason Jarrach/ Unsplash

Como resultado, a memória pode representar hoje mais da metade do custo de materiais de alguns dispositivos mais baratos, ante cerca de 10% a 15% antes da disparada de preços provocada pela IA.

Essa economia já começa a mudar os dispositivos que as empresas fabricam. Com os custos subindo tão rápido, os fabricantes estão escolhendo a opção que causa menos danos a seus negócios: reduzir a quantidade de componentes.

“Estamos vendo marcas voltarem aos celulares 4G”, afirma Ben Hatton, analista da CCS Insight, porque eles podem funcionar com menos memória do que um aparelho 5G equivalente.

Outras empresas estão reduzindo o armazenamento, instalando câmeras piores ou usando gerações mais antigas de processadores da Qualcomm e da MediaTek.

QUESTÃO ESTRUTURAL

O efeito não será igual em todo o mercado. Notebooks de alto padrão ainda precisarão de memória e poder de processamento suficientes para funcionar adequadamente e justificar os preços exorbitantes cobrados pelos fabricantes. Mas, na parte mais barata do mercado, a troca em favor do corte na qualidade dos componentes fica mais evidente.

Tudo isso significa que o meio do mercado está sendo espremido enquanto os fabricantes tentam convencer os consumidores a gastar mais – segmento em que há margem suficiente para absorver parte da enorme inflação nos custos dos componentes.

a memória pode representar hoje mais da metade do custo de materiais de alguns dispositivos mais baratos.

Já há sinais dessa mudança. Bjorhovde cita o Galaxy A16 4G, da Samsung, um celular barato que já tem cerca de 18 meses e continua sendo o modelo mais vendido da empresa em volume na Europa.

Outro exemplo é a Xiaomi. Os embarques da empresa caíram cerca de 25% em relação ao ano anterior no primeiro semestre de 2026, afirma o analista da Omdia,, enquanto a receita recuou apenas cerca de 5%, à medida que a companhia migrou para produtos mais caros.

O aumento do custo dos novos dispositivos também está levando os usuários a procurar aparelhos recondicionados, embora, cada vez mais, um celular topo de linha com dois ou três anos de uso possa custar o mesmo que um aparelho novo muito mais fraco.

O problema deve persistir por vários anos, afirmam os dois especialistas. Bjorhovde acredita que quedas significativas nos preços são improváveis nos próximos 18 meses, enquanto Hatton espera que o aperto continue pelo menos até meados de 2028.

“Não é um problema de curto prazo”, afirma Hatton. “É uma questão estrutural bastante significativa, quase sistêmica, que está mudando a forma como provavelmente vamos usar e consumir tecnologia de maneira mais ampla daqui para frente.”


SOBRE O AUTOR

Chris Stokel-Walker é um jornalista britânico com trabalhos publicados regularmente em veículos, como Wired, The Economist e Insider saiba mais