Ilegal, pornografia por IA é negócio dentro do Telegram
Ferramentas disponíveis na plataforma estão mais realistas, acessíveis e resistem a denúncias no País

Em menos de dois minutos e com cerca de R$ 2, bots no Telegram transformam fotos de qualquer pessoa em vídeos pornográficos hiper-realistas. Funcionam como serviços completos: oferecem menu, suporte, programas de fidelidade, assinatura e até canais para reclamação. Os pagamentos são feitos com moedas virtuais do próprio aplicativo.
Denúncias contra tais serviços, ilegais no Brasil, já existem no Ministério Público Federal desde 2024. Mas, em 2026, eles seguem ativos, acessíveis e mais sofisticados, acompanhando o salto técnico da inteligência artificial generativa e o recente “boom” de deep nudes gerados pelo Grok, IA do X (Ex-Twitter), de Elon Musk.
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A Fast Company Brasil monitorou por dois meses oito bots no Telegram capazes de gerar deepfakes pornográficas. Entre janeiro e março de 2026, a reportagem realizou testes, ouviu especialistas, fontes do Ministério da Justiça e do governo federal e procurou o próprio Telegram para entender por que esses serviços, que oferecem riscos principalmente para crianças e adolescentes, seguem ativos - e o que pode ser feito para contê-los.
UM PRODUTO DE DEEPFAKE
O que a reportagem encontrou não são casos isolados. Em 2024, a SaferNet já havia mapeado mais de 800 grupos dedicados à troca de imagens de abuso sexual infantil — parte deles operados por bots que utilizavam inteligência artificial.
Nos oito bots monitorados pela Fast Company Brasil este ano, o padrão se repete. Há variações de preço cobrados pelos vídeos e imagens criados ,e interface, mas o modelo é o mesmo: chatbots conectados a grupos dentro do Telegram, funcionando como “comunidades”.
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Os links para chegar aos bots são indicados e circulam em fóruns e redes sociais, como o Reddit. A partir daí, o acesso leva para um chatbot dentro da plataforma do Telegram. E não precisa mais sair de lá para transformar a imagem de qualquer pessoa em vídeos eróticos e pornográficos.
O usuário entra no bot e encontra menus organizados, opções de criação de vídeos eróticos e pornográficos, a partir de uma fotografia real. A fotografia base não precisa ser da pessoa despida ou em ambiente íntimo, Os bots também contam com lojas internas para compra de créditos e sistemas que incentivam o uso contínuo do serviço.
Alguns oferecem moedas próprias, bônus diários e programas de indicação que pagam por novos usuários — uma lógica comum a plataformas digitais, aqui aplicada à criação de pornografia não consensual.
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A maioria opera em inglês, mas parte deles já oferece interface em português. A divulgação acontece dentro dos próprios grupos, com promoções diárias e incentivos ao uso recorrente. Dentro dos bots, há a explicação de como fazer o upload e de quais fotos usar, dicas de ângulos, enquadramento e iluminação para que a IA dê um retorno mais fidedigno.
Dentro do Telegram, há bots que utilizam inteligência artificial generativa para criar vídeos a partir de comandos eróticos. Alguns chegam a sugerir prompts automaticamente. A reportagem usou a fotografia hiper-realista de uma mulher gerada a partir do ChatGPT para testar os bots. Com essa foto foi possível fazer vídeos em que a imagem enviada executa ações específicas em poucos segundos. Simulando um striptease, por exemplo.
Outros operam com técnicas de face swap, aplicando rostos a vídeos pornográficos já existentes, organizados em galerias por tipo de cena e preferência, em uma lógica semelhante a plataformas como o RedTube. O resultado, muitas vezes com estética amadora, é suficiente para gerar dúvida sobre sua veracidade.
Em certos casos, é possível ajustar diretamente o resultado, com alterações em características físicas das imagens. Os controles disponíveis seguem um padrão: são voltados majoritariamente ao corpo feminino.
PAGAMENTO LIBERADO
Tais bots operam com um único modelo de negócio. A maioria trabalha no formato freemium: oferece versões básicas gratuitas e cobra por funcionalidades mais avançadas, como vídeos mais longos ou personalizados. Eles ainda permitem que cada vídeo ou imagem seja comprada de maneira independente.
Segundo levantamento da reportagem, os conteúdos variam entre cerca de R$ 40 a pouco mais de R$ 1. Há incentivo à compra de pacotes maiores e à assinatura dos bots, prática comum em jogos mobile.
Os pagamentos são feitos por meio das “estrelas”, a moeda virtual do Telegram. Para comprar as estrelas, é possível usar um cartão de crédito, Apple Pay ou o Google Pay. O que significa que, na ponta final, o usuário está comprando conteúdos pornográficos não consentidos por meio de sistemas de pagamento oficiais e regulados.
Como as transações ocorrem dentro da própria infraestrutura da plataforma, o Telegram também participa da cadeia de receita, ainda que indiretamente. Esse modelo não é irrelevante. Em abril de 2025, último dado disponível, o Telegram reportou US$ 14,9 milhões em receita proveniente deste canal das moedas digitais, das compras internas do app.
DERRUBA, MAS NÃO CAI
Com foco em privacidade, criptografia e baixa interferência sobre o conteúdo, o Telegram criou um ambiente fértil para a dark web nas suas operações. Embora tenha termos que proíbam expressamente o uso do sistema para divulgar pornografia ou para “cometer atos ilegais”, o Telegram falha em fazer moderação do que ocorre dentro da plataforma.
Procurado pela reportagem, o Telegram afirmou que pornografia não consensual e ferramentas para criá-la são proibidas pela plataforma e que conteúdos desse tipo são removidos quando identificados. A empresa também disse que atua de forma proativa e recebe denúncias para investigar os casos.
“É como limpar a cena de um crime.”
Thiago Tavares, presidente da SaferNet Brasil
Desde o ano passado, o aplicativo informa o total de grupos e canais bloqueados por dia. Só em 2026, 135,8 mil grupos e canais ligados a materiais de abuso infantil foram banidos do Telegram. Especialistas, no entanto, apontam limites nesse modelo. Para Thiago Tavares, presidente da SaferNet Brasil, a remoção isolada não resolve o problema — e pode, inclusive, dificultar investigações. “É como limpar a cena de um crime”, afirma.
A alternativa seria entregar os dados para as autoridades governamentais em caso de denúncias. Algo que o Telegram não faz em nenhum país.
Além disso, canais mais sofisticados de pornografia com IA, como os monitorados pela Fast Company Brasil, já oferecem uma alternativa a uma possível derrubada: compartilham links alternativos e versões espelhadas dos mesmos bots. Nos dois meses que a Fast Company Brasil acompanhou os oito bots, apenas três saíram do ar - mas não interromperam o serviço: o sistema de redistribuição e “regeneração” funcionou.

Um especialista em segurança digital escutado pela Fast Company Brasil afirmou que o Telegram é “terra de ninguém”. Com cerca de 1 bilhão de usuários ativos no mundo, o Telegram tem headquarters em Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. Mas o aplicativo já teve sede na Rússia, de onde foi expulso em 2014, por pressão do governo Putin contra o fundador da plataforma, Pavel Durov.
Durov se coloca fortemente contra a “censura” e a “perseguição política”, mas acaba caindo na mesma casa de Elon Musk ao não colocar filtros na plataforma e permitir discursos e crimes perigosos ocorrendo no ecossistema. A resistência à perseguição de autoridades políticas russas explica a postura do próprio aplicativo com relação aos governos.
A IMPORTÂNCIA DO BRASIL PARA O TELEGRAM
O Brasil é hoje o terceiro maior mercado do Telegram, atrás apenas da Rússia e da Índia, com cerca de 38% da população utilizando o aplicativo. Pesquisa da Mobile Time de 2025 indicou que 57% dos brasileiros tinham a aplicação instalada em seus smartphones. O Telegram só perde para o WhatsApp e o Instagram Messenger, ambos da Meta. Apesar disso, a empresa não tem representante no Brasil, o que é ilegal no País.
Em 2022 e 2023, o aplicativo sofreu suspensões temporárias no Brasil, determinadas pelo Supremo Tribunal Federal e pela Justiça Federal. A razão era exatamente não ter um representante em território nacional. Na época, uma firma de advocacia foi indicada como responsável e, então, o app voltou a funcionar.
A Fast Company Brasil entrou em contato com este e outros dois escritórios de advocacia ligados ao Telegram. Todos afirmaram que não trabalham mais com o aplicativo. A última firma, Valeska Lourenção Advocacia, explicou que presta serviços jurídicos terceirizados para o Telegram em casos pontuais. E indicou que não há representantes do app no Brasil.
Isso não ocorre apenas no País. Em 2024, o fundador do Telegram, Pavel Durov, foi preso na França após investigação sobre conteúdos de tráfico de pessoas que circulavam na plataforma. O aplicativo não cooperou com autoridades locais e também não tinha um representante em solo francês.
Na Austrália, a rede de Durov foi multada em 1 milhão de dólares australianos no começo de 2025 por não ter colocado em práticas medidas para evitar a disseminação de material relacionado a abuso infantil e à violência extremista. “Eles testam o limite institucional de cada país”, diz Tavares.
MAIORES DE 16 ANOS
Atualmente, o Telegram tem classificação indicativa de 16 anos. Na Apple Store, a classificação ainda aparece como acima de 14 anos de idade.
No Telegram, os bots ensinam o usuário a escolher as melhores fotos para transformar em vídeos pornográficos. Falam em enquadramento, iluminação e, até mesmo, distância de câmera. Em nenhum momento a reportagem fez a garota da imagem aparentar ter menos de 18 anos. Até porque, o ChatGPT tem limitações contra prompts que tratem de crianças e adolescentes.
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Os especialistas que entraram em contato com as ferramentas a pedido da Fast Company Brasil indicaram que falta a elas o filtro de idade. O que indica que poderiam ser usadas para produzir pornografia infantil. Levantamento da Internet Watch Foundation (IWF) publicado nesta semana indica que em 2025 as ferramentas de IA generativa foram usadas para criar 8 mil de imagens e vídeos pornográficos de abuso infantil.
A SaferNet também está fazendo um levantamento para visualizar a situação brasileira. O documento será publicado no mês que vem.
ECA DIGITAL
Durante a apuração, a reportagem ouviu fontes do governo e do Ministério da Justiça para entender quem deveria lidar com casos como os bots do Telegram. A resposta variava. Em alguns momentos, a orientação era procurar o Ministério Público. Em outros, a Polícia Federal. Em outros, ainda, o tema era tratado como algo “em transição”.
Por se tratar de uma tecnologia ainda não regulada (a IA) e de outra que já tem regulação difusa (Telegram) é naturalmente mais complexo lidar com esses casos na esfera institucional, já que são assuntos inter-governamentais. Podem ser investigados, analisados e multados por agências diferentes.

Crédito: serggn e yaom/ Getty Images
Em janeiro deste ano, por exemplo, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) se juntou com a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e o MPF para recomendar que o X proibisse a sua inteligência artificial, Grok, de criar conteúdos sintéticos de caráter sexualizado a partir de imagens de pessoas reais. Para fontes do governo ouvidas pela Fast Company Brasil, o caso dos bots sexualizados do Telegram poderia trilhar o caminho aberto por esse processo. Mas ainda assim, sem certeza de como poderia ser uma investigação.
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Ainda há várias perguntas sem resposta: O que fazer caso esses bots não estejam sediados no Brasil? Diferentemente do X, o Telegram não opera a plataforma de IA que cria a pornografia. Como fica a responsabilização jurídica? Como limitar a atuação de um sistema de IA a partir de um “produto” oferecido por ele?
A Lei do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital) que entrou em vigor na última semana pode dar uma luz para esse caminho tão confuso. A nova lei estabelece que qualquer serviço digital com acesso provável por crianças e adolescentes, independentemente de onde esteja sediado, precisa adotar medidas para prevenir riscos como exposição à pornografia e exploração sexual.
O ECA Digital também prevê multa de até R$ 50 milhões em casos de descumprimento.
A lei também criou o Centro Nacional de Proteção à Criança e ao Adolescente ligado à PF. A ideia é centralizar denúncias e acelerar investigações de crimes digitais. Haverá aumento de profissionais da PF voltados e treinados para tratar de pesquisas e investigações no meio digital. Ainda assim, a nova estrutura levará tempo para ser construída. Enquanto isso, os bots seguem criando vídeos a preços cada vez menores, com conteúdos cada vez mais explícitos e para um público que está cada vez mais vulnerável.