Afinal, a IA te faz ganhar tempo no trabalho?
Estudos mostram que ferramentas de IA ampliam tarefas, intensificam o ritmo e podem gerar mais retrabalho do que ganho real de produtividade

Ferramentas de IA, no estado atual, trazem o paradoxo da produtividade: dão ilusão de poupar tempo, mas intensificam trabalho (e geram burnout)
A promessa imediata que a inteligência artificial traz para as empresas é a de reduzir a carga de trabalho dos colaboradores. Pesquisas recentes, no entanto, mostram um cenário contrário. Pelo menos com os modelos e ferramentas atuais, os sistemas inteligentes podem criar novos ruídos, ampliar escopos e, em alguns casos, empurrar profissionais para perto da exaustão.
Pesquisa da UC Berkeley, publicada nesta semana no Harvard Business Review, mostrou que os funcionários que mais usam IA são justamente os que mais estão trabalhando. O estudo, conduzido ao longo de oito meses em uma empresa de tecnologia americana com cerca de 200 colaboradores, identificou que usuários frequentes de IA “trabalharam em um ritmo mais acelerado, assumem uma gama mais ampla de tarefas e estendem o trabalho por mais horas do dia, muitas vezes sem que lhes fosse solicitado”.
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Os resultados ainda são parciais porque a pesquisa segue em andamento. De acordo com as responsáveis pelo estudo, as professoras Aruna Ranganathan e Xingqi Maggie Ye, a IA generativa deu capacidade para que profissionais atuem fora de suas áreas. Designers começaram a escrever códigos com rapidez, engenheiros passaram a revisar textos e apresentações e programadores viraram mentores para os demais.
Com mais responsabilidades e atividades no dia a dia, as pessoas se viram na necessidade de ativar o botão do multitarefa, o que reduz a atenção e se soma para um processo de exaustão. Assim que as ferramentas deixaram de ser novidade para os colaboradores, o que ficaram foram a fadiga cognitiva e a dificuldade de tomada de decisões, explicam as pesquisadoras.
MINUTOS X HORAS
Os dados não são totalmente inéditos. No ano passado, um estudo do National Bureau of Economic Research, que acompanhou a adoção de IA em milhares de locais de trabalho na Dinamarca por um ano, indicou que a economia de horas trabalhadas ficou menor do que em 3%, sem alteração de salário.
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Até mesmo as áreas mais entusiastas pelo uso da IA, como a de desenvolvedores de software e de profissionais de marketing, tiveram redução menor do que 10% no total de horas trabalhadas no final do mês. Isso acontece por algumas razões: uma vez acostumadas com o sistema, as pessoas tendem a usá-lo como “parceiro” e a rodar outras tarefas no lugar.
"Muitos trabalhadores notaram que estavam fazendo mais coisas ao mesmo tempo. Embora a economia de tempo proporcionada pela automação tivesse sido ostensivamente destinada a reduzir essa pressão."
Aruna Ranganathan e Xingqi Maggie Ye, pesquisadoras
Na análise de Aruna e Xingqi, elas descobriram que muitos usam o chatbot durante o almoço, em reuniões ou enquanto esperam um arquivo carregar. "Muitos trabalhadores notaram que estavam fazendo mais coisas ao mesmo tempo. Embora a economia de tempo proporcionada pela automação tivesse sido ostensivamente destinada a reduzir essa pressão", afirmam as pesquisadoras.
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Outra pesquisa, feita pela consultoria Metr, analisou como desenvolvedores e programadores usam os modelos de IA ao longo de um ano. A constatação é que os profissionais que utilizavam ferramentas de IA levavam 19% mais tempo para concluir tarefas, embora acreditassem que eram 20% mais rápidos.
Há um gap entre o que a liderança e os demais colaboradores entendem como tempo ganho com a IA. Números de uma pesquisa feita pela consultoria Section indicaram que 47% dos colaboradores acreditam que a IA vai reduzir de 2 a 4 horas semanais o trabalho. Já quando é perguntado para líderes e diretores, 33% acreditam que a IA vai poupar 8 ou mais 12 horas semanais.
ENTRE O WORKSLOP E A PRODUTIVIDADE
As alucinações e respostas erradas da IA também geram desafios para os profissionais. São os workslops, aqueles relatórios incorretos, códigos com problema ou contratos com leis que não existem.
Há histórias de vibe coding, o ato de programar “no feeling” apenas com apoio da IA, que gerou dezenas de bugs críticos para a base tecnológica da empresa. O que travou o time de engenharia e de tecnologia. A Deloitte, por exemplo, reembolsou o governo australiano no ano passado após erros em um relatório gerados por IA.
Estimativas da Workday indicam que cerca de 37% do tempo economizado com IA acaba sendo consumido por retrabalho. Funcionários relatam gastar horas corrigindo, esclarecendo ou reescrevendo conteúdos gerados pela própria ferramenta.
Ou seja, para cada 10 horas de eficiência que se ganha usando IA, 4 horas são “perdidas” no retrabalho. Talvez nada ilustre melhor o paradoxo da produtividade da IA do que relato de um desenvolvedor de software Siddhant Khare que viralizou nas comunidades sobre a tecnologia no Reddit.
“Esse é o paradoxo: a IA reduz o custo de produção, mas aumenta o custo de coordenação, revisão e tomada de decisão.”
Siddhant Khare, desenvolver de software
Khare diz que o seu dia a dia ficou mais difícil. Se antes ele levava uma tarde para resolver um problema, agora leva uma hora. No entanto, ele tem que lidar com seis ou sete questões por dia. “Esse é o paradoxo: a IA reduz o custo de produção, mas aumenta o custo de coordenação, revisão e tomada de decisão. E esse custo recai quase inteiramente sobre o humano”, finaliza.