Frictionmore: como a fricção também pode gerar descoberta

A eficiência resolve tarefas. Mas são a surpresa, a exploração e a sensação de reconhecimento que transformam uma transação em relação

aumentar a dificuldade pode ser bom para a experiência do usuário
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Taise Kodama 4 minutos de leitura

Durante algum tempo, desenhar uma boa experiência pareceu simples: identificar as fricções da jornada e eliminá-las. Menos cliques, etapas, espera e esforço; mais automação, previsibilidade e velocidade.

Houve avanços importantes: ninguém sente saudade de repetir o mesmo dado, esperar longos períodos por atendimento ou enfrentar menus eletrônicos confusos. Eliminar fricções operacionais continua fundamental.

O problema surge quando o frictionless deixa de ser princípio de eficiência e vira ideal absoluto. Ao eliminar toda fricção, podemos retirar também a surpresa, a pausa, a curiosidade, a descoberta e a sensação de que algo aconteceu durante o caminho.

E se falássemos menos em frictionless e pensássemos em frictionmore? Não seria mais humano?

Essa ideia não promove a criação de dificuldades artificiais, mas o reconhecimento de que nem toda fricção é problema e que, inclusive, ela faz parte da experiência e do crescimento humano. Sem fricção não há faísca; sem faísca não há encantamento.

PESSOAS NÃO ESTÃO TENTANDO SER PRODUTIVAS O TEMPO TODO

Grande parte das jornadas de consumo é desenhada a partir da ideia de que comprar é uma tarefa a concluir no menor tempo possível: entrar, encontrar, clicar, pagar e ir embora. É eficiente, mas pouco humano.

Tem situações na jornada em que sim, só queremos isso. Em outras, as pessoas exploram, hesitam, mudam de ideia, comparam coisas incomparáveis e, às vezes, saem com algo que nem imaginavam precisar.

Leia mais: Consumidor no centro: discurso ou realidade?

Nem toda interação precisa seguir o caminho mais curto entre intenção e conversão. A experiência pode ampliar repertório, provocar perguntas, estabelecer conversas ou apresentar possibilidades novas. Isso exige espaço: uma pequena dobra na jornada, em que nem tudo esteja decidido de antemão.

A obsessão pela fluidez reduz a pessoa à função de consumidora, embora ela seja social, emocional, contraditória e contextual. Chega à marca atravessada pelo dia, pelas relações, inseguranças, desejos, urgências e vulnerabilidades. Colocá-la no centro é considerar também o que existe ao redor da intenção de compra.

A FRICÇÃO QUE ATRAPALHA E A QUE DESPERTA

Há fricções que precisam desaparecer: processos confusos, etapas redundantes, sistemas inacessíveis, atendimentos que não resolvem, informações escondidas e burocracias que protegem a empresa do consumidor. Elas desperdiçam tempo e paciência.

Mas há diferença entre a fricção que atrapalha e a que desperta: uma impede a ação; outra amplia a percepção, apresenta novos pontos de vista e oferece um contexto ainda não considerado.

um pouco de fricção na jornada pode  fazer bem ao consumidor
Créditos: Muhammad Safuan/ cyano66/ Getty Images

Frictionmore é colocar intencionalidade nessa escolha: quais fricções remover e quais interações preservar, transformar ou criar? Assim, o design passa da eficiência ao significado. A eficiência resolve a tarefa; a intencionalidade pergunta o que ela produz na vida de alguém.

Uma farmácia pode identificar, pelos dados de compra, que uma pessoa adquire medicamentos para dor de cabeça toda semana. A personalização poderia gerar uma oferta, desconto, assinatura ou lembrete. Mas o mesmo dado pode indicar que a recorrência merece atenção e levar a marca a recomendar orientação médica.

nem toda fricção é problema, ela faz parte da experiência e do crescimento humano.

Essa decisão vai além da eficiência operacional: transforma informação privilegiada em vínculo e cuidado. Introduz uma fricção, pois interrompe a compra automática, desloca a pessoa do hábito e apresenta uma pergunta incômoda. Pode não ser a jornada mais fluida; é, possivelmente, a mais responsável.

Durante anos, os dados foram usados para prever comportamentos, reduzir barreiras e aumentar a probabilidade de novas transações. Nunca foi tão possível observar pessoas – mas observar não é compreender.

A questão é o que as marcas devolvem a partir do que aprenderam. Personalizar também pode significar perceber quando há algo mais importante a oferecer do que uma compra. Conhecer alguém em profundidade cria responsabilidade.

A JORNADA NÃO TERMINA NA CONVERSÃO

Branding e marketing organizaram a relação com as marcas em jornadas que terminam na compra, com um pós-venda voltado a confirmar a entrega, pedir avaliação ou oferecer o próximo produto.

Mas a vida continua depois do funil: há pós-compra, pós-uso, pós-atendimento e pós-contato, além dos efeitos do produto, do serviço, da embalagem e da interação.

A responsabilidade não termina na transação; muitas vezes, é ali que a relação começa.

Uma jornada pode ser impecável e ainda indiferente, manipuladora ou irresponsável. Uma pausa, uma pergunta ou o desestímulo à compra podem demonstrar consideração.

“Colocar o consumidor no centro” exige perguntar qual parte dele está sendo considerada: a que compra, clica e aumenta a conversão ou a pessoa inteira, com motivações, contextos, vulnerabilidades, relações e consequências?

É preciso trocar “como fazemos alguém comprar?” por “o que estamos ajudando essa pessoa a fazer?” e “como usamos esse dado?” por “o que devemos devolver a partir do que sabemos?”.

Isso não significa renunciar à eficiência, mas torná-la benéfica para os dois lados. O futuro talvez esteja em jornadas capazes de distinguir o obstáculo do encontro: eliminar o que confunde, desperdiça tempo e exclui, preservando o que provoca descoberta, cria significado e transforma transação em relação.

Frictionmore não é tornar a experiência mais difícil. É deixar de confundir facilidade como o principal objetivo da experiência humana.


SOBRE A AUTORA

Taise Kodama é sócia e head de design & digital da consultoria de marca e experiência Gad. saiba mais