Futuro conversacional das marcas: muito além da capacidade das IAs

A linguagem verbal exige profundidade cultural, simbólica e relacional para gerar conversas relevantes e mais humanas entre empresas e consumidores

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Taise Kodama 5 minutos de leitura

Muito se fala que o futuro das marcas é conversacional. Mas, curiosamente, ainda tratamos linguagem verbal como se fosse detalhe operacional de branding ou ajuste de copy.

Juntam-se algumas palavras-chave aprovadas em reunião, organizam-se exemplos em um PDF chamado algo como “Tom_de_voz_v12_final_agora-vai”.

Talvez seja apenas apego ao que sempre fizemos. Só que o contexto mudou de forma radical.

À medida que as marcas deixam de existir apenas em campanhas e conteúdos pontuais e passam a habitar ambientes vivos de interação, a linguagem deixa de ser suporte e passa a ser, literalmente, comportamento de marca.

E comportamento é incômodo, porque expõe verdades que a narrativa sozinha não sustenta por muito tempo.

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Uma marca pode se dizer próxima e soar burocrática no primeiro atendimento. Pode defender inovação e responder como um manual corporativo de 2007. Pode falar de humanidade enquanto escreve como um robô excessivamente otimista tentando resolver um problema que claramente não entendeu.

Vivemos em um mundo que repete que “falar é pouco importante, o que vale são as atitudes”, mas esquece que essas atitudes se materializam, também, pela linguagem que escolhemos usar todos os dias.

É justamente aqui que a linguagem verbal deixa de ser só “como escrever ou falar”. O que está sendo construído vai muito além do arranjo de letras em um parágrafo: é repertório simbólico e emocional. É a forma como uma inteligência (humana, artificial ou híbrida) demonstra coerência ao longo do tempo.

A IA generativa torna isso impossível de ignorar. Ela impulsiona escala, dá velocidade, multiplica pontos de contato. Se antes já existiam times inteiros falando e escrevendo em nome de marcas, agora temos pessoas e máquinas operando interações em tempo real, sendo a voz da marca em centenas de micro conversas simultâneas.

LINGUAGEM E PROXIMIDADE

Pela primeira vez, as marcas começam a existir como entidades conversacionais contínuas. Acabou o modelo das identidades estáticas que entram em cena em uma campanha e desaparecem até o próximo lançamento. A marca passa a interpretar contexto, adaptar linguagem, participar da experiência enquanto ela acontece.

É meio assustador, meio fascinante e, certamente, exige um olhar ético-filosófico muito mais atento do que aquele que reservávamos à velha “peça de campanha”. Isso muda completamente o papel dos sistemas verbais.

Durante décadas, muitos sistemas de linguagem foram pensados para emissão e controle: palavras permitidas, palavras proibidas, nível de formalidade, exemplos de headline, listas de “faça isso, não faça aquilo”. Uma espécie de central de padronização. O problema é que conversa não funciona assim. Relação também não.

escultura de cabeça soltando raio amarelo pelo olho
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Ninguém cria vínculo porque uma empresa soube encaixar corretamente três adjetivos institucionais.

Vínculo nasce quando existe sensação de reconhecimento. Quando percebemos uma coerência quase invisível entre intenção, repertório, sensibilidade e expressão. Quando a marca parece ter uma visão de mundo que se manifesta até nos pequenos lugares onde, teoricamente, ninguém estaria prestando atenção.

E é aí que o futuro conversacional das marcas revela seu ponto mais sensível: ele não será decidido apenas pela capacidade técnica das inteligências artificiais, mas pela profundidade cultural e simbólica dos sistemas de linguagem que alimentam essas inteligências.

Se antes já havia times inteiros falando em nome de marcas, agora temos pessoas e máquinas conversando em tempo real.

Linguagem não é só estética textual; ela organiza percepção e define proximidade. Pode criar pertencimento, distância, hierarquia. Pode produzir confiança ou ruído.

Mikhail Bakhtin (filósofo russo da linguagem, historiador e teórico da literatura) já falava da linguagem como fenômeno essencialmente dialógico: toda fala existe em relação ao ambiente e ao outro. É um fenômeno que se constrói na interação sócio-histórico-ideológica.

Toda expressão carrega visão de mundo, intenção, memória cultural, posicionamento simbólico. Nenhuma linguagem é neutra, embora muito branding ainda finja que seja.

O resultado é um número impressionante de marcas que se esforçam para soar corretas, porém acabam apenas corretamente esquecíveis. Elas aprenderam a escrever. Mas ainda não aprenderam a conversar.

IMPERFEIÇÃO E ADAPTABILIDADE

Conversar exige algo mais difícil de sistematizar: repertório humano, ritmo, escuta. Uma dose de contradição, às vezes.

A temperatura emocional não nasce de uma diretriz; ela é construída na observação do outro, interação após interação. Nem nós, humanos, conseguimos fazer isso de forma impecável o tempo todo, e talvez esteja justamente aí a beleza do desafio.

Ao tentar ensinar máquinas a se comportarem de forma mais humana, somos obrigados a encarar a pergunta desconfortável: o que nos torna humanos nas conversas? Saber quando aprofundar e quando recuar. Entender que nem toda interação precisa soar encantadora e inspiradora.

Pessoas reais não funcionam assim (ufa ainda bem né!). Falhamos, tropeçamos, respondemos torto, revisamos, aprendemos. É dessa imperfeição que nasce a adaptabilidade.

A questão é: os sistemas verbais das marcas comportam isso? Ou tentam aprisionar a linguagem em um ideal de consistência que não admite nuance, vulnerabilidade, contradição?

Talvez a diretriz verbal deva ser menos mapa rígido e mais bússola. Menos checklist e mais campo de possibilidades. Em vez de engessar frases, ajudar a orientar comportamentos linguísticos: como escutamos, como devolvemos, como lidamos com tensão, silêncio, erro, surpresa.

No fundo, os sistemas verbais mais potentes do futuro não serão apenas aqueles que organizam textos, e sim os que conseguem transformar a linguagem em cultura relacional. Sistemas que entendem que cada troca, mediada por humanos, por IA ou pelos dois, é um momento de construir ou desgastar a confiança.

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Porque, no cenário que começa a emergir, as marcas mais fortes provavelmente não serão as que falam mais ou “melhor”, mas as que aprendem com o que dizem e com o que escutam.

As que conseguem fazer alguém sentir, ali dentro da conversa, que não está falando com um script – está falando com uma marca que realmente o considera parte da relação.

E é essa humanidade, traduzida em linguagem sociocultural, que nenhuma IA consegue reproduzir se a marca não tiver, antes, consciência da sua essência e dos contextos em que se insere e como quer se comportar neles.

Definir contornos para regramentos de marca diz menos, hoje em dia, sobre construir diretrizes de reprodução, mas estruturar premissas de comportamento.


SOBRE A AUTORA

Taise Kodama é sócia e head de design & digital da consultoria de marca e experiência Gad. saiba mais