GEO: a disputa silenciosa por influência na era dos resumos de IA

Marcas e publishers perdem influência ao ficar fora dos resumos automáticos

Créditos: Qarlos Qastilla/ gremlin/ Getty Images

Pete Pachal 4 minutos de leitura

Quando eu era diretor de equipe da CoinDesk, também era responsável pela estratégia da publicação em relação à inteligência artificial. Um dos primeiros debates do nosso comitê interno de IA foi decidir se deveríamos permitir ou bloquear que sistemas de IA indexassem nossos conteúdos.

A maioria do grupo defendia o bloqueio dos crawlers. Embora a onda de processos judiciais sobre direitos autorais ainda não tivesse começado, o tema já ganhava relevância. O argumento era direto: não fazia sentido permitir que empresas de IA resumissem nosso conteúdo sem oferecer qualquer tipo de compensação.

Mas um argumento contrário se destacou. Se a IA se tornasse o principal canal de descoberta de informação – como, de fato, aconteceu –, ficar fora desses sistemas significaria retirar nossas reportagens das respostas consolidadas que usuários de IA passariam a consumir.

Mais do que perder tráfego (que já sabíamos que seria limitado), estaríamos abrindo mão de algo mais estratégico: influência sobre narrativas e construção de consenso. Na prática, permitir ou não a indexação por IA não era apenas uma decisão técnica ou jurídica, mas uma escolha de posicionamento em um novo ecossistema de distribuição.

O CUSTO DE NÃO APARECER

O que antes parecia um debate quase teórico hoje é central para marcas, publishers e profissionais de marketing. A presença ou ausência em respostas geradas por IA se tornou um tema chave para relações públicas, autoridade de marca e estratégia de conteúdo.

Independentemente de como evoluam as discussões sobre direitos autorais e remuneração, a IA já atua como a principal camada de interpretação de conteúdo para uma audiência em rápida expansão.

Foi nesse contexto que surgiu o conceito de otimização de motores generativos, ou generative engine optimization (GEO), também conhecido como otimização de respostas generativas, ou answer engine optimization (AEO).

Diferentemente do SEO tradicional, o GEO não busca cliques, mas visibilidade, citação e influência dentro das respostas produzidas por sistemas de IA.

A pergunta mais comum sobre GEO ainda é: por que investir nisso se a IA resume o conteúdo sem direcionar tráfego ao site? No entanto, a pergunta mais estratégica é outra: qual é o custo de não investir?

O risco não está mais na perda de visitas; esse movimento já está em curso. O verdadeiro risco é perder relevância como fonte primária de interpretação.

vetor de imagem da sigla generative engine optimization

Historicamente, publishers e marcas estabeleciam a abordagem inicial dos fatos, a partir da qual outros reagiam. Sem essa presença, a IA passa a construir respostas com base em versões secundárias, fragmentadas ou enviesadas da informação.

Mesmo que um publisher ou marca decida bloquear a indexação, os fatos continuam circulando. Eles serão reinterpretados por terceiros, reorganizados por modelos de IA e apresentados como síntese confiável. Esse “primeiro rascunho algorítmico” tende a se tornar a versão dominante da realidade para muitos usuários.

Do ponto de vista de martech, isso redefine o valor do conteúdo. Métricas tradicionais como tráfego, page views e tempo de permanência deixam de capturar o impacto real. A nova disputa acontece em outro nível: presença em respostas de IA, recorrência de citação, influência sobre narrativas e impacto de longo prazo sobre confiança e autoridade de marca.

GEO, A NOVA FRONTEIRA DO MARKETING DE CONTEÚDO

Adotar uma estratégia de GEO não significa abrir mão da discussão sobre compensação ou uso justo. Pelo contrário: demonstrar que um conteúdo influencia diretamente as respostas geradas por IA é uma evidência concreta de valor — algo que fortalece tanto negociações comerciais quanto disputas jurídicas.

O que o crescimento do GEO revela é que a verdadeira disputa não é apenas por propriedade intelectual, mas por capacidade de formatar significado em escala. E essa é uma questão central para o marketing, a comunicação e a estratégia de marca.

Hoje, medir com precisão como um conteúdo específico impacta respostas de IA ainda é um desafio, mas isso começa a mudar. Graças à demanda gerada por equipes de marketing, agências de relações públicas e marcas globais, surgem ferramentas, métodos e práticas voltadas a entender como fatores técnicos, estrutura editorial e consistência narrativa influenciam a forma como a IA seleciona, prioriza e sintetiza informações.

O risco não está mais na perda de visitas, e sim em perder relevância como fonte primária de interpretação.

Assim como o SEO, o GEO nunca será uma ciência exata. Mas, também como o SEO, tende a se tornar um pilar da estratégia digital. Em pouco tempo, não será mais uma prática experimental, e sim uma competência essencial para quem disputa atenção, confiança e relevância em escala.

A IA caminha para se tornar o principal canal de acesso à informação. As batalhas jurídicas por compensação seguem sendo fundamentais, mas não substituem a necessidade de competir por espaço nesse novo ambiente.

Profissionais de marketing e comunicação talvez já não controlem os canais finais de distribuição, mas ainda controlam os insumos mais valiosos: fatos, narrativas e contexto.

Em um mundo mediado por IA, garantir que esses elementos estejam presentes nas respostas algorítmicas não é apenas uma decisão técnica: é uma escolha estratégica.


SOBRE O AUTOR

Pete Pachal é jornalista e criador do podcast e da newsletter Media CoPilot, que trata de inteligência artificial e seus efeitos no jo... saiba mais