OpenAI estreia anúncios no ChatGPT com preço de Super Bowl e métricas da era da TV

A OpenAI iniciou testes de anúncios no ChatGPT cobrando preços de mídia premium, mas oferecendo métricas limitadas e sem rastreamento de usuários

OpenAI estreia anúncios no ChatGPT com preço de Super Bowl e métricas da era da TV
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Marcos G. Figueira 3 minutos de leitura

Na era dos algoritmos que rastreiam cada clique, a OpenAI está apostando em um modelo publicitário que parece vir de outro tempo. A empresa começou a testar anúncios no ChatGPT com uma proposta tão ousada quanto paradoxal: cobrar preços dignos de final de campeonato, mas entregar apenas dados de audiência dignos de TV aberta.

Por enquanto, os anúncios aparecem para usuários adultos da versão gratuita e do novo plano ChatGPT Go (US$ 8 por mês), ambos disponíveis nos EUA. Quem assina os planos Plus, Pro, Business ou Enterprise permanece com a experiência livre de publicidade.

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Os primeiros testes mostram anúncios exibidos ao fim das respostas do assistente, sinalizados como “patrocinados” e separados do conteúdo gerado pela IA. Tudo feito para evitar a sensação de manipulação ou interferência direta — uma linha tênue quando o canal de mídia é, literalmente, uma conversa.

PREÇO DE ENTRADA: ALTO E SELETIVO

O ponto mais polêmico está no valor. A OpenAI está pedindo cerca de US$ 60 de CPM (custo por mil impressões). Para efeito de comparação, as campanhas no Facebook ou Instagram costumam operar abaixo dos US$ 20 de CPM. Em outras palavras, o preço por mil visualizações no ChatGPT é até três vezes maior que o da Meta.

É o mesmo patamar de inventário premium em vídeo sob demanda ou em transmissões esportivas de alto impacto. Para entrar no piloto, o investimento mínimo fica abaixo de US$ 1 milhão, o que limita, pelo menos por enquanto, a participação a grandes marcas.

MÉTRICAS COM PÉ NO FREIO

Outro ponto que desafia o padrão da publicidade digital é a escassez de dados. Os anunciantes recebem apenas impressões e cliques totais. Nada de conversões, retargeting ou rastreamento comportamental. A OpenAI posiciona isso como um diferencial: não venderá dados dos usuários nem permitirá inferências profundas sobre as conversas, o que reforça a privacidade como valor central.

Num mercado acostumado a medir ROI com lupa, a pergunta é: quem vai aceitar pagar caro por tão pouco controle?

A comparação, curiosamente, é com a televisão: alcance e exposição, sem a obsessão pelo funil completo. Mas, num mercado acostumado a medir ROI com lupa, a pergunta é: quem vai aceitar pagar caro por tão pouco controle?

ENTRE DAVOS E O DILEMA DA CONFIANÇA

Durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, a CFO da OpenAI, Sarah Friar, reforçou a aposta na publicidade como pilar viável — desde que haja escala. E, segundo ela, essa escala já chegou: o ChatGPT registra centenas de milhões de usuários semanais.

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Do outro lado do ringue, o Google DeepMind afirmou que não pretende inserir anúncios no Gemini por enquanto, levantando uma questão essencial: como equilibrar monetização via ads com a promessa de assistentes pessoais confiáveis?

O QUE ISSO MUDA PARA CMOS

Esse movimento não é só sobre abrir mais um canal de mídia. É um experimento — quase antropológico — sobre o comportamento de consumo em interfaces conversacionais. Os primeiros anunciantes não estão apenas comprando espaço publicitário. Estão testando o que significa interagir com consumidores no meio de um diálogo com uma IA.

É uma aposta de longo prazo. Uma volta ao branding. Uma tentativa de capturar atenção qualificada, mesmo com métricas ainda limitadas. E uma oportunidade única para quem quer aprender antes da concorrência.

Se você lidera marketing, mídia ou crescimento, vale observar de perto. O preço vai ajustar. As métricas vão evoluir. Mas a vantagem de entender cedo o papel da IA no mix de mídia pode valer mais do que qualquer CPM.


SOBRE O AUTOR

Marcos G. Figueira é professor da Fundação Getúlio Vargas e sócio da Wyse Brand Intelligence. saiba mais