POR RUTH READER

Cientistas e pesquisadores há muito tentam provar que as drogas psicodélicas podem tratar alguns dos problemas mais intratáveis da saúde humana, como dependência e transtorno do estresse pós-traumático (TEPT). Agora, eles têm dados para sustentar suas afirmações, abrindo caminho para o crescente mercado de psicodélicos.

Em 10 de maio, a revista Nature publicou os resultados dos ensaios clínicos de fase III sobre psicoterapia assistida por MDMA como um tratamento para o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), operado pela Multidisciplinary Association of Psychedelic Studies (MAPS). Os dados são impressionantes. Após 18 semanas e três sessões, 67 participantes que fizeram tratamento com MDMA viram uma redução tão grande nos sintomas que não mais se enquadravam no diagnóstico de TEPT.

“Você vê uma melhora no sono – dormir mal e ter pesadelos são sintomas muito comuns do transtorno”, afirma Amy Emerson, CEO da MAPS. Após a terapia assistida com MDMA, os pesadelos diminuíram. No geral, Emerson relata que os relacionamentos dos pacientes com família e amigos melhoraram, assim como a qualidade de vida e a disposição para o trabalho. Também houve uma diminuição no abuso de substâncias, que será examinado mais a fundo em um futuro estudo. Por comparação, menos de um terço do grupo de controle (que recebeu placebo e terapia) teve resultados similares. Os dados mostram que enquanto a terapia, por si só, pode aliviar os sintomas de estresse pós-traumático, acrescentar MDMA a essa equação ajuda a acelerar o processo de superação do transtorno.

Essa conveniência é importante porque grande parte das pessoas em terapia com foco no trauma não vai até o fim do tratamento. Um estudo recente descobriu que, em média, 16% dos participantes em ensaios clínicos randomizados sobre tratamentos de TEPT desistiram. Entre os veteranos de combate, a taxa de abandono pode ser ainda maior, variando entre 5% e 78%, de acordo com outro estudo. Uma razão para essas altas taxas é que o trabalho pelo trauma pode ser traumatizante em si, diz Emerson.

Com a conclusão do ensaio clínico de fase III, a MAPS está planejando como será a comercialização de seu protocolo. Já existem várias empresas investindo em medicina psicodélica que estão prontas para trazer essa nova terapia ao mercado, incluindo MindMed, Compass, Field Trip, Mind Cure e Novamind. O mercado deve crescer: estimativas de analistas variam de US$ 6,8 bilhões a US$ 10,75 bilhões até 2027.

“Estamos dobrando o tamanho de nossa rede de clínicas seis meses antes do previsto, e a capacidade adicional nos permite aumentar para 65.000 as visitas de clientes em 2021″, escreveu o CEO da Novamind, Yaron Conforti, em um comunicado à imprensa publicado no início deste mês. A empresa – que oferece vários tratamentos novos para problemas persistentes de saúde mental, como terapia assistida por cetamina e estimulação cerebral não invasiva – está adicionando quatro novas instalações. “Espere um crescimento contínuo e agressivo à medida que expandimos a rede clínica da Novamind e a infraestrutura de pesquisa clínica, antes das aprovações antecipadas do FDA para o MDMA e a psilocibina,” o ingrediente ativo dos cogumelos alucinógenos.

Os resultados do ensaio de fase III também são significativos porque criam um caminho para que a Food and Drug Administration (FDA) aprove o MDMA para uso terapêutico. Quando isso acontecer, provavelmente virá com estratégias de avaliação e mitigação de risco (REMS), parâmetros obrigatórios que garantem a segurança. O REMS inclui critérios que os médicos e suas clínicas precisam atender para administrar uma terapia.

Mesmo com o apoio da FDA, o mercado levará um tempo para se desenvolver comercialmente porque os terapeutas precisarão ser treinados para administrar a terapia assistida por MDMA de acordo com o REMS. “Acabamos de desenvolver e tornar nosso programa de treinamento capaz de lidar com um número maior de terapeutas ao mesmo tempo e vamos continuar adicionando à nossa equipe de treinamento de terapia”, diz Emerson. Ela espera que a terapia assistida por MDMA seja lançada ao público em 2023.

No futuro imediato, Emerson acredita que essa abordagem terapêutica será uma especialização, com clínicas específicas oferecendo apenas terapia psicodélica. Mas olhando para o futuro, ela diz que espera que as clínicas pensem sobre como integrar essa terapia na vida das pessoas.

“O ideal seria uma clínica mais completa”, conta. Ela imagina um ambiente terapêutico que não apenas trate doenças mentais, mas forneça cuidados de acompanhamento que abordem as dificuldades sociais, como garantia de moradia estável e gestão financeira. “Para mim, isso seria incrível.”

SOBRE A AUTORA

Ruth Reader é redatora da Fast Company. Ela cobre a interseção de saúde e tecnologia.