Parece mas não é: os mercados de previsão disfarçados de pesquisa eleitoral
Proibidos no Brasil, plataformas como Kalshi e Polymarket veiculam inúmeras apostas sobre os resultados das eleições de 2026

Quem será o candidato que ficará em terceiro lugar no primeiro turno das eleições presidenciais, no próximo domingo (04)? Qual porcentagem de votos este candidato receberá? Quem ficará em quarto lugar? E em quinto lugar? Algum presidenciável vai ganhar logo no primeiro turno? Qual partido receberá mais votos para a câmara dos deputados? Qual porcentagem de votos terá Renan Santos? E quem vai ficar em segundo lugar na disputa pelo senado no Distrito Federal? O presidente Lula participará de um debate antes do primeiro turno? E quanto a Flávio Bolsonaro?
Essas são apenas algumas das dezenas de possíveis situações relacionadas às eleições brasileiras e nas quais se pode apostar dinheiro em mercados de previsões, como o Kalshi e o Polymarket.
O “mercado de previsão” é proibido no Brasil, mas liberado nos Estados Unidos e para qualquer usuário com acesso à rede privada virtual (VPN), na sigla em inglês. Esses sites movimentam apostas que vão dos esportes ao noticiário diário, o que passa pelas eleições brasileiras.
Até o momento de publicação desta matéria, no Polymarket, há mais dinheiro apostado nos resultados das eleições presidenciais brasileiras (U$162 milhões, ou R$846,48 milhões) do que na disputa pelo Ballon D’Or deste ano (U$ 43 milhões, ou R$224,49 milhões).
Nessas plataformas, o usuário deve escolher "sim” ou "não” para a possibilidade de um fenômeno futuro acontecer. Entre os principais temas sobre os quais se especula estão aqueles relacionados aos esportes ("Quem vai vencer a próxima Champions League?”) e à política (“Até quando perdurará o cessar-fogo entre os EUA e Irã?"), mas cultura e celebridades também aparecem entre os tópicos populares ("Quem será a pessoa do ano eleita pela revista TIME?", “Quem será o próximo James Bond?”).
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Nas páginas ligadas à eleição brasileira, há comentários em português e apostas nos mais possíveis cenários para o pleito. Nos últimos meses de campanha eleitoral, a variação percentual nessas apostas tem sido acompanhada não só por quem colocou dinheiro ali, mas também pela mídia, como se as apostas mostrassem uma probabilidade inédita, que pesquisas tradicionais não informavam.
MERCADO PREDITIVO NÃO É PESQUISA ELEITORAL
Quem acompanhou as manchetes relativas à disputa eleitoral deste ano pôde notar que, além das pesquisas eleitorais, outro meio de informar sobre a corrida era a partir dos números que os candidatos apresentavam nos mercados de previsão. No jeito como isso era anunciado, ficava parecendo que todos os percentuais nas chamadas de jornais mediam as mesmas coisas, com o mesmo método.
Porém, pesquisas oficiais devem seguir diversas regulamentações estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e o que elas avaliam é diferente do mercado preditivo. Neale El-Dash, estatístico e fundador do Polling Data, um agregador de pesquisas eleitorais, destaca que as perguntas às quais pesquisas e mercados respondem não são as mesmas.
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Uma pesquisa eleitoral, que procura representar na amostra de participantes todas as parcelas de uma população, tenta trazer a resposta para a pergunta “em quem você vai votar?”. Os números refletem o momento da campanha em que a pesquisa está sendo feita. A pesquisa quer saber a intenção de votos dos participantes.
No mercado de previsões, a pergunta é outra: "quem você acha que vai ganhar a eleição?”. Em alguns casos, como acontece também no mundo das bets, a pergunta implícita é: “quem você quer que ganhe a eleição?”.
Como não há, numa plataforma como o Kalshi ou Polymarket, a procura pela representação de opiniões de grupos diferentes, não há, de fato, uma amostra ou metodologia. Qualquer indivíduo com uma conta (e, no Brasil, com um VPN) pode participar de quantos mercados quiser, e pode apostar num mesmo fenômeno quantas vezes quiser. “O mercado de previsões mede quem tem dinheiro e quem está apostando em certas intenções", diz David Nemer, professor do Departamento de Mídia e Antropologia da Universidade da Virgínia, e que tem estudado o impacto de jogos de apostas na população brasileira.
Para El-Dash, do Polling Data, essa é uma característica importante.
"Quem tiver mais dinheiro vai apostar mais, e vai influenciar mais ainda os resultados. Isso distorce o resultado totalmente em função de quem tem mais renda ou está disposto a correr mais risco. Fazendo uma analogia com o futebol, é como se a gente fizesse uma votação para poder definir qual o time mais popular do país, e as pessoas pudessem votar várias vezes. O torcedor mais fanático votaria um monte de vezes no seu próprio time, o que resulta numa pesquisa sobre para quem os maiores fanáticos de futebol torcem, e não para quem a população torce", diz ele.
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Nos mercados preditivos, é possível deixar comentários e opiniões publicadas sobre as apostas e seus resultados, o que intensifica esse aspecto de torcida. Nas apostas referentes a quem será o vencedor da disputa presidencial brasileira, usuários comentam análises políticas, mas também declaram apoio a candidatos.
Além disso, o fato de que ainda é possível apostar em figuras que não estão oficialmente concorrendo ao cargo, como Michelle Bolsonaro, Ratinho Júnior, e Fernando Haddad, reforça a analogia trazida por El-Dash.

“É TUDO APOSTA”
No próprio nome - "mercado de previsões” - já é possível perceber a tentativa de diferenciar plataformas como Polymarket e Kalshi das bets, que foram proibidas no Brasil na última semana.
O que difere, tecnicamente, uma coisa da outra é que em jogos de azar, o usuário aposta contra a casa, que lucra quando a aposta não vinga. Nos mercados de previsões, a casa lucra independentemente do apostador estar correto ou não. Além disso, em plataformas como a Kalshi, a aposta ocorre entre os usuários. Nesse sentido, especificamente, é similar ao modo como o mercado financeiro funciona.

No entanto, David Nemer alerta que essas diferenças são pequenas e parte de um esforço grande das empresas por trás dos mercados preditivos para não serem vistos como bets. "Fundamentalmente, é tudo aposta", diz ele. “Gera o mesmo tipo de consequência social, os mesmos danos à saúde mental, o vício, o endividamento. São só formas diferentes de se apostar.”
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Segundo o antropólogo da tecnologia, em mercados preditivos o apostador pode escolher em qual evento futuro vai apostar, por conta da hiper fragmentação de possibilidades - do número de postagens no X feitas por Elon Musk nos próximos sete dias à possibilidade dos EUA invadirem o Irã antes de 2027. Enquanto isso, em apostas esportivas, por exemplo, os eventos futuros já estão pré-definidos pela casa de apostas.
Nos mercados preditivos, isso pode fazer com que a pessoa ache que sabe de algo que ninguém mais sabe, o que a induz a apostar por crer ter algum controle sobre o futuro, que na verdade não tem.
Em abril deste ano, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), inclusive, definiu que o mercado de contratos deve ficar fechado a apostas com referenciais econômico-financeiros que, de certa forma, são mais verificáveis. Basicamente, as pessoas podem especular sobre a movimentação do dólar, mas não sobre o futuro do governo.
PROBLEMAS DO DISCURSO
Quando Donald Trump voltou ao cargo de presidente dos Estados Unidos, contrariando pesquisas eleitorais daquele momento, os mercados preditivos aproveitaram a oportunidade para se lançarem como um recurso confiável. Na época, tanto o Polymarket quanto o Kalshi mostravam que seus usuários apostavam na vitória de Trump. Daí para a confusão com resultados de pesquisas eleitorais, inclusive na disputa brasileira, foi um pulo.
Levando isso em conta, Nemer chama atenção para a relação da extrema-direita com os mercados de previsão, e o papel da imprensa nisso. Hoje, nos Estados Unidos, o filho mais velho do presidente, Donald Trump Jr., tem ações e faz parte dos boards da Kalshi e Polymarket; ao mesmo tempo, canais de mídia como a CNN fecham contratos com esses mercados para informar as odds de apostas ao vivo.
“A desinformação é um pilar fundamental da extrema-direita", diz o acadêmico, citando a relação desse campo político com as fake news. Se uma informação falsa pode ser checada e eventualmente desmentida, para o professor da Universidade da Virgínia, os mercados preditivos ajudam na fabricação de “fatos” a partir de probabilidades antes inexistentes e que se tornam "reais” pela quantidade de dinheiro apostado nisso, ao invés de chances concretas de um fenômeno acontecer.
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Isso, aliado à forma como a imprensa por vezes comunica os números de apostas em mercados preditivos, ajuda a legitimar esses números e portanto a manipular e descredibilizar, num contexto como as eleições presidenciais brasileiras, diversas pesquisas eleitorais sérias.
“Comparado à forma como a imprensa trata de bets, os mercados de previsão são apresentados como se fossem um negócio mais limpo, mais justo, e não são. O tom é muito mais leve, como se fosse uma questão técnica, mas o efeito das apostas é o mesmo. Há uma parte do jornalismo indo contra o que significa um fato, apresentando uma atividade que é considerada ilegal no Brasil com esse indosso de “verdade”. É muito preocupante,” reforça Nemer.
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