Zuckerberg gastou bilhões para colocar a Meta na corrida da IA. E agora?
Antes de reinventar a empresa como gigante da inteligência artificial, o CEO precisa transformar sua promessa de ‘superinteligência pessoal’ em produtos que as pessoas queiram usar.

O CEO da Meta, Mark Zuckerberg, publicou em agosto um manifesto sobre inteligência artificial no site da empresa. O texto de 6.537 palavras lembrava declarações semelhantes de CEOs como Sam Altman, da OpenAI, e Dario Amodei, da Anthropic. Diferentemente deles, porém, Zuckerberg argumentava que o poder dos futuros modelos de IA deveria ser colocado diretamente nas mãos do maior número possível de pessoas, na forma de uma “superinteligência pessoal” que beneficiaria desde pequenos empresários até crianças de oito anos, como a própria filha de Zuckerberg.
“Em vez de centralizar a superinteligência, devemos distribuí-la amplamente e dar a cada pessoa a capacidade de direcioná-la”, escreveu. “Isso tem o potencial de inaugurar uma nova era de autonomia pessoal, na qual os indivíduos poderão usar essa nova e poderosa capacidade para realizar todo o seu potencial, perseguir seus interesses e melhorar suas vidas e o mundo como nunca antes.”
Nove meses antes, durante uma teleconferência de resultados da Meta, Zuckerberg já havia antecipado como tornaria isso possível: “Estou muito concentrado em consolidar a Meta como o principal laboratório de IA de fronteira.”
Mesmo pelos padrões de Zuckerberg, essa é uma meta ambiciosa. Para alcançá-la, a Meta teria de ultrapassar — no mínimo — Anthropic e OpenAI, e talvez o Google. Com o tempo, Microsoft, Amazon e SpaceX também poderiam entrar em seu caminho, assim como algumas empresas chinesas de IA. Outros concorrentes provavelmente surgirão.
Dificilmente se pode acusar Zuckerberg de não ter previsto a ascensão da inteligência artificial: ele criou o primeiro laboratório da empresa dedicado à tecnologia em 2013. Mas logo se deixou distrair pela realidade virtual e pelo metaverso, conceito que capturou tanto sua imaginação que a Facebook Inc. passou a se chamar Meta em outubro de 2021. Treze meses depois, a OpenAI lançou o ChatGPT, e a corrida pelo domínio da IA generativa começou para valer.
UMA APOSTA DE CENTENAS DE BILHÕES
Desde então, a Meta vem participando de uma disputa frenética — e por vezes caótica — para recuperar o atraso, sustentada pelo maior ciclo de gastos de sua história. A empresa não disponibilizou executivos para entrevistas com declarações atribuíveis para esta reportagem. Em junho de 2025, pagou US$ 14 bilhões por uma participação de 49% na empresa de dados de treinamento Scale AI, seu segundo maior negócio depois da compra do WhatsApp por US$ 22 bilhões, em 2014. O cofundador e CEO da Scale, Alexandr Wang, entrou para a Meta como chefe do recém-criado Meta Superintelligence Labs, ou MSL. Outra extravagância recente — US$ 2 bilhões pela Manus, criadora de um agente de IA que vinha chamando atenção — acabou sendo desfeita por reguladores chineses.
Para atrair funcionários de alto nível de suas rivais, a Meta ofereceu pacotes de remuneração sem precedentes até mesmo no Vale do Silício. Segundo relatos, algumas estrelas da IA estão recebendo US$ 100 milhões ou mais no primeiro ano. A maior parte do investimento da Meta em IA, porém, está sendo destinada aos enormes recursos computacionais necessários para implementar a tecnologia em larga escala. A empresa planeja gastar entre US$ 130 bilhões e US$ 145 bilhões em investimentos de capital em 2026, mais que o dobro do total desembolsado em 2024 e 2025 somados. Desde 2024, começou a construir nove data centers, entre eles um projeto de US$ 50 bilhões e cerca de 929 mil metros quadrados (10 milhões de pés quadrados) em Richland Parish, na Louisiana — aproximadamente 50% maior que o Pentágono.
A Meta tem recursos para competir. Em julho, um relatório da influente empresa de pesquisa SemiAnalysis afirmou que OpenAI e Anthropic disputavam entre si o título de principal laboratório de IA de fronteira, mas que os dados, os talentos e os recursos computacionais da Meta lhe davam a melhor chance de chegar ao mesmo patamar. O negócio de publicidade da Meta continua sendo um poderoso motor de crescimento: respondeu por 98% de sua receita no segundo trimestre de 2026, período em que a empresa registrou lucro líquido de US$ 15,8 bilhões. Até o fim de 2026, prevê a empresa de pesquisa de mercado eMarketer, a Meta ultrapassará o Google e se tornará a maior companhia de publicidade digital do mundo.
Dinheiro, por si só, não compra a supremacia em IA.
Mas dinheiro, por si só, não compra a supremacia em IA. “A história da Meta ao longo de mais de uma década tem sido apenas uma sucessão de tentativas que não deram certo”, diz M.G. Siegler, investidor e autor da newsletter Spyglass. “E depois uma busca constante para descobrir o que vem a seguir, sem conseguir encontrar a resposta.” As apostas anteriores da empresa em novas fronteiras não deram retorno — de software corporativo e criptomoedas até, sobretudo, o metaverso. Ao longo dos anos, acompanhei os esforços de Zuckerberg para transformar a empresa em algo novo. Mas, em sua essência, a Meta continua sendo aquilo que ele criou nos primeiros anos: um império de redes sociais construído sobre uma plataforma de publicidade direcionada.
A META PROCURA SEU SEGUNDO ATO
Enquanto busca — mais uma vez — seu segundo ato, a Meta agora aposta tudo na IA. Em menos de quatro meses, lançou três versões do Muse Spark, seu novo grande modelo de linguagem de referência. Até agora, porém, a empresa não conseguiu incorporar a seus produtos nenhum tipo de IA verdadeiramente extraordinária. Também está anos atrás de outros laboratórios de IA nos lucrativos segmentos de programação com IA e serviços de nuvem. Ao conduzir a Meta em direção a uma meta — a superinteligência pessoal — que só agora começa a explicar, e ainda de maneira extremamente vaga, Zuckerberg atravessa um período de mudanças sem paralelo na história da empresa, munido de uma estratégia que está longe de ter sido comprovada.
DE UM LABORATÓRIO DE IA AO METAVERSO
Quando o Facebook era jovem e vivia em pleno modo “se movimente rápido e quebre coisas”, estava ocupado demais para se concentrar em inteligência artificial. “Durante muitos anos, quando as pessoas propunham a criação de um laboratório, uma divisão ou algo assim, eu não queria fazer isso”, contou-me, em 2018, Mike Schroepfer, que entrou na empresa em 2008 e foi CTO de 2013 a 2022. “Eu não conseguia traçar uma relação suficientemente clara entre o trabalho que essas pessoas fariam e aquilo de que a empresa precisava.”
Isso começou a mudar em 2012, por volta da época em que a empresa adquiriu o Instagram por US$ 1 bilhão, neutralizando uma startup que poderia ter se tornado sua maior ameaça competitiva. Como o compartilhamento de fotos já estava entre as atividades mais populares na principal rede social do Facebook, Zuckerberg logo comprou a Face.com, startup israelense de reconhecimento facial, e montou uma pequena equipe de pesquisa dedicada à visão computacional.
Quando o Facebook ultrapassou 1 bilhão de usuários mensais e se aproximou de seu décimo aniversário, o interesse de Zuckerberg por IA se tornou mais abrangente. No fim de 2013, ele criou um laboratório chamado FAIR — sigla de Facebook AI Research ou, na era Meta, Fundamental AI Research — e contratou um dos cientistas mais respeitados da área, Yann LeCun, para comandá-lo. “Mark estava pensando em algo como: ‘O que o Facebook deveria fazer nos próximos dez anos?’”, explicou-me LeCun em 2015. “A IA era vista como um conjunto de tecnologias realmente estratégico para o futuro.”
O objetivo do laboratório era desenvolver uma IA “superior ao nível humano em todos os principais sentidos humanos: visão, audição, linguagem e cognição geral”, disse-me Zuckerberg em 2015. O FAIR rapidamente deixou sua marca ao criar o PyTorch, framework de código aberto para desenvolver, treinar e executar algoritmos de aprendizagem profunda. Ele se tornou um padrão do setor, adotado por outras empresas, entre elas um laboratório então pouco conhecido chamado OpenAI.
Mas o trabalho do FAIR não transformou o Facebook tanto quanto outra prioridade estratégica de Zuckerberg. Até o lançamento do iPhone pela Apple, em 2007, dar início ao boom dos smartphones, o Facebook havia sido um produto centrado no computador. Em 2012, porém, seus produtos dominavam os dispositivos móveis: Facebook e Instagram respondiam por 26% do uso de aplicativos nos Estados Unidos, segundo a empresa de análise de mídia Comscore. As propriedades do Google, somadas, representavam 10%.
Zuckerberg não via isso como um triunfo. Afinal, o Facebook ainda era apenas um inquilino nas plataformas da Apple e do Google, e não o proprietário. Sua tentativa de criar um “telefone do Facebook”, com uma camada própria de software sobre o Android, do Google, tornou-se um dos fracassos mais famosos da empresa: a AT&T reduziu o preço do aparelho de US$ 99 para US$ 0,99 menos de um mês depois do lançamento.

“Um dos meus grandes arrependimentos é o Facebook não ter tido uma oportunidade significativa de moldar o ecossistema dos sistemas operacionais móveis”, lamentou Zuckerberg em 2015. Ele me explicava por que havia adquirido a Oculus VR no ano anterior por um valor que, mais tarde, se revelou próximo de US$ 3 bilhões. O headset de realidade virtual da startup era um avanço impressionante — tão deslumbrante que parecia poder se tornar o próximo dispositivo capaz de inaugurar uma nova era. Se a Oculus se revelasse o iPhone da realidade virtual, o Facebook se tornaria sua Apple.
Depois de investir pacientemente na tecnologia, a Meta vendeu mais de 10 milhões de unidades do headset Quest 2, de US$ 299, em pouco mais de 14 meses após sua estreia, no segundo semestre de 2020, segundo a Counterpoint Research. Ainda assim, a realidade virtual parecia limitada — uma forma sofisticada de jogar, mas não a sucessora inevitável do smartphone. Zuckerberg, porém, não se abalou e anunciou a mudança de marca do Facebook para Meta em outubro de 2021. Foi uma incursão cara. Entre 2020 e 2025, a Reality Labs acumulou perdas operacionais de US$ 84 bilhões, divisão responsável pelo hardware do metaverso. Em março de 2026, anunciou que encerraria a versão para Quest da rede social Horizon Worlds, o mais próximo que havia chegado de um protótipo funcional do metaverso. Um dia depois, após reclamações dos usuários, afirmou que manteria os espaços e jogos existentes disponíveis “por tempo indeterminado”.
Em sua tentativa de desafiar a primazia do smartphone como plataforma, Zuckerberg também avançou no mercado de óculos inteligentes em parceria com a gigante do setor óptico EssilorLuxottica. Não havia nada de extraordinário nos resultados iniciais: um par de óculos escuros Ray-Ban com câmeras e microfones embutidos, reprodução de áudio sem bloquear os ouvidos e um aplicativo complementar. A vantagem era simplesmente existirem de fato.
Zuckerberg continuava incomodado com a primazia do smartphone como plataforma. “Acho que o fato de basicamente tirarmos essa coisa do bolso e ficarmos algum tempo com a cabeça enfiada nela simplesmente não é a maneira como todos nós queremos interagir”, disse-me em 2021. O fato de a Apple ter vendido 235 milhões de iPhones naquele ano, segundo a empresa de pesquisa de mercado IDC, sugeria que nem todos concordavam. Ainda assim, os óculos da Meta se mostraram uma plataforma viável para usar IA sem as mãos. Em 2023, a empresa acrescentou a eles um assistente de voz semelhante à Siri. Em 2025, apresentou um modelo com pequenas telas no campo de visão de quem os usa.
Hoje, Meta e EssilorLuxottica detêm 69% do ainda incipiente mercado de óculos inteligentes, segundo a IDC, que espera que a categoria cresça para quase 40 milhões de unidades por ano até 2030. Isso não chega nem perto do mercado de smartphones, mas ao menos Zuckerberg, que já saiu na frente de Google e Apple, não ficará privado de uma oportunidade justa de moldar um novo ecossistema. Ninguém sabe se esses produtos se tornarão centrais para a forma como a maioria das pessoas interage com a IA, como ele insiste em prever.
QUANDO O LLAMA COLOCOU A META NA CORRIDA
Enquanto Zuckerberg tentava convencer o mundo a adotar headsets e óculos inteligentes, uma reviravolta do destino ajudou a levar a Meta para perto da vanguarda dos laboratórios de IA — pelo menos por algum tempo. Em fevereiro de 2023, a Meta anunciou um novo LLM chamado Llama, sigla de large language Meta AI. A princípio, planejava compartilhar sua criação com pesquisadores acadêmicos após avaliar cada caso. Uma semana depois, porém, enquanto o mundo ainda tentava compreender o ChatGPT, lançado havia três meses, uma versão vazada apareceu no fórum 4chan.
De repente, o Llama estava disponível para qualquer pessoa que conseguisse descobrir como baixá-lo e instalá-lo. E quem fizesse isso poderia modificar o código de acordo com seus próprios objetivos. O lançamento involuntário do Llama despertou temores de uso indevido por agentes mal-intencionados. Parte disso se concretizou, incluindo a criação de um bot para Discord equipado com o Llama que disseminava discurso de ódio. Mas também houve entusiasmo com o potencial daquele modelo disponível gratuitamente para democratizar a disseminação de formas úteis de IA.
OpenAI, Anthropic e Google mantêm controle rígido sobre seus principais modelos. Zuckerberg percebeu que poderia acelerar as melhorias compartilhando o trabalho da Meta. A perspectiva abalou outras empresas. “Paradoxalmente, a única vencedora evidente em tudo isso é a Meta”, escreveu Luke Sernau, engenheiro do Google, em um memorando interno publicado pela SemiAnalysis. “Como o modelo vazado era deles, na prática eles conseguiram mobilizar o trabalho gratuito de um planeta inteiro.”
Menos de cinco meses depois, a Meta decidiu explorar essa vantagem. Em vez de avaliar os usuários, a empresa simplesmente disponibilizou o Llama 2 ao público como um modelo de pesos abertos. Puristas da IA usam esse termo para modelos como o Llama, cujos dados de treinamento continuam sendo proprietários, o que impede que sejam considerados plenamente de código aberto. Em abril do ano seguinte, fez o mesmo com o Llama 3, que o desenvolvedor de IA e blogueiro Simon Willison classificou como “absolutamente espetacular”. Impulsionado pela recepção eufórica, Zuckerberg escreveu que esperava que o Llama se tornasse o modelo mais avançado do setor até 2025.
Em vez disso, o impulso da Meta em IA se dissipou. Em janeiro de 2025, a chinesa DeepSeek lançou um modelo de IA de pesos abertos surpreendentemente poderoso, causando espanto no setor e invadindo o território da Meta. Alguns meses depois, a empresa respondeu com o Llama 4, destacando seu forte desempenho em benchmarks padronizados do setor que avaliam áreas como raciocínio, programação e geração de imagens. Mas surgiu uma controvérsia quando ficou claro que a Meta estava promovendo resultados de uma versão do modelo que, na verdade, não havia lançado. LeCun, chefe do FAIR, disse mais tarde ao Financial Times que os resultados haviam sido “um pouco manipulados”. Segundo o The Wall Street Journal, a Meta adiou então o lançamento de uma versão mais poderosa, batizada de Behemoth — informação que um porta-voz da empresa classificou como “especulação e boato”.
Os usuários consideraram amplamente o modelo que de fato receberam um retrocesso. “O que ouvi é que eles cometeram alguns erros nos dados utilizados, e essa é uma das razões pelas quais o Llama 4 não foi um grande modelo”, diz Andrew Dai, ex-cientista do Google DeepMind e um dos profissionais do setor que Zuckerberg tentou recrutar por e-mail para a Meta. Dai acabou deixando o Google para fundar uma startup. Em relação aos dados de treinamento subjacentes, a Meta era tão fechada quanto qualquer concorrente. “Se você examinar os artigos sobre Gemini e ChatGPT, normalmente há apenas um parágrafo, ou algumas frases, sobre os dados”, observa Dai.
Após o lançamento do Llama 4, a Meta “saiu da disputa e, historicamente, quando você sai da disputa, não consegue voltar”, diz Ethan Mollick, professor da Wharton, codiretor dos laboratórios de IA generativa da escola de negócios e autor de Co-Intelligence e do futuro Co-Existence. LeCun disse ao Financial Times que o episódio fez Zuckerberg perder a confiança na equipe do FAIR. Pouco depois, Zuckerberg iniciou conversas exploratórias com Wang, da Scale AI, que acabaram levando o executivo a assumir o comando do Meta Superintelligence Labs. Já sem ser o arquiteto da estratégia de IA da Meta, LeCun saiu para fundar sua própria startup de inteligência artificial.

A NOVA ESTRATÉGIA DA SUPERINTELIGÊNCIA
A contratação de Wang foi recebida com ceticismo por pessoas de fora e até por alguns funcionários. Um empregado da Scale disse à Fast Company que os ex-funcionários de Wang o viam como uma “figura de marketing” para a Meta. Mas, quando o novo laboratório lançou seu primeiro modelo, o Muse Spark 1.0, em abril de 2026, as avaliações foram, em geral, positivas. “Não era um modelo de fronteira, mas foi uma boa volta à disputa”, diz Mollick. O sistema também era tão hermeticamente fechado quanto qualquer produto da Anthropic e da OpenAI. O mesmo ocorreu com o Muse Spark 1.1 e o 1.2. Este último também chamou atenção por oferecer preços drasticamente inferiores aos de outros fornecedores de IA, sobretudo para clientes que concordassem em permitir que a Meta treinasse futuros modelos com os dados inseridos por eles.
Mas a chegada do Muse Spark não marcou o fim do investimento da Meta em IA de pesos abertos. Em seu manifesto de agosto, Zuckerberg escreveu que abrir a IA é crucial para o futuro da tecnologia em várias frentes — da redução dos riscos de cibersegurança à manutenção dos Estados Unidos na vanguarda do desenvolvimento de modelos. No mesmo dia em que publicou o texto, a Meta lançou um novo modelo de pesos abertos, o Muse Glimmer, eficiente o bastante para rodar em um PC ou Mac de alto desempenho. A empresa também prometeu disponibilizar, em poucas semanas, uma versão de pesos abertos do Muse Spark 1.2.
Enquanto mobiliza recursos para essa nova investida, a transição vem sendo dolorosa para os funcionários. Semanas depois de lançar o Muse Spark, a Meta demitiu 8 mil pessoas — cerca de 10% de sua força de trabalho. As equipes dedicadas ao hardware do metaverso estavam entre as mais afetadas, embora alguns funcionários em cargos ligados à IA também tenham sido dispensados. Outros 7 mil profissionais foram transferidos para funções voltadas a acelerar o desenvolvimento de modelos. A Meta também começou a implementar um software corporativo para rastrear as teclas pressionadas e os movimentos do mouse dos funcionários, usando esses dados como matéria-prima para treinar modelos. Mais tarde, suspendeu o programa.
Em 2015, Zuckerberg havia me dito, orgulhoso, que seu sucesso como CEO era resultado do esforço dedicado a “construir uma cultura na qual as pessoas pensam sobre a missão da mesma forma que eu”. Agora, essa sintonia parece ter desaparecido, ao menos por enquanto.
Segundo um funcionário atual do MSL, os empregados do laboratório veem a conversa de Zuckerberg sobre “superinteligência pessoal” como um slogan, não como um roteiro para desenvolver produtos úteis. Uma fonte do Vale do Silício afirma que os profissionais de IA generosamente remunerados que conhece na empresa são “mercenários”, que estão ali “para aproveitar enquanto durar o interesse de Zuck e tirar da mesa o máximo de dinheiro possível”. O ânimo entre funcionários mais antigos, que viram amigos e mentores saírem por decisão da empresa ou por escolha própria, despencou, diz o empregado do MSL.
“Os empregados do laboratório veem a ‘superinteligência pessoal’ como um slogan, não como um roteiro para desenvolver produtos úteis.”
A liderança da Meta foi obrigada a reconhecer a turbulência. “É evidente que fizemos um trabalho atroz ao explicar a visão”, admitiu o CTO Andrew Bosworth em um memorando interno noticiado pela Wired em junho.
Em outro memorando, citado pela Reuters no mesmo mês, Zuckerberg afirmou estar “concentrado em proporcionar o máximo de estabilidade possível” e disse não esperar novas demissões — pelo menos não demissões “em toda a empresa” — em 2026. Mas também preparou os funcionários para novas rupturas: “Não quero prometer demais, porque o mundo está mudando de maneiras que fogem ao nosso controle.”
AINDA FALTA UM PRODUTO QUE JUSTIFIQUE A APOSTA
Mesmo enquanto desmonta a Meta e a reconstrói em pleno funcionamento, Zuckerberg continua vago sobre o que a empresa faria com um modelo de IA transformador. Em julho de 2025, escreveu que a superinteligência pessoal ajudaria “você a alcançar seus objetivos, criar aquilo que deseja ver no mundo, viver qualquer aventura, ser um amigo melhor para as pessoas de quem gosta e crescer para se tornar a pessoa que deseja ser”. Mais de um ano depois, em seu manifesto, disse que a tecnologia seria “um tutor personalizado”, “um orientador com doutorado em todas as áreas e paciência ilimitada” e “um assistente de aprendizagem superinteligente que sabe exatamente como ensinar novas competências profissionais”. Também escreveu que a Meta ofereceria essa tecnologia “de graça ou pelo preço mais acessível possível”, sugerindo um modelo de negócios baseado em publicidade.
De certa forma, a falta de especificidade de Zuckerberg faz sentido. Embora as definições de superinteligência variem, o termo é amplamente entendido como uma IA que não apenas iguala a capacidade humana em todas as áreas — o que é conhecido como inteligência artificial geral, ou AGI —, mas a supera amplamente. Talvez apenas uma IA superinteligente, que ainda não existe, saiba ao certo o que poderia fazer por nós.
Pouco do que a Meta lançou até agora, como o Pocket — aplicativo de IA que permite aos usuários criar jogos simples —, parece ser um precursor de tudo isso. E, depois de atravessar aos tropeços mais de 20 anos de controvérsias relacionadas à privacidade, a empresa continua criando novos problemas evitáveis, alimentando a desconfiança em relação à superinteligência pessoal antes mesmo de ela chegar. Em junho, a Wired encontrou um software de reconhecimento facial — tecnologia que a Meta havia deixado de lado em 2021 devido a “crescentes preocupações sociais” — incorporado ao aplicativo Meta AI para smartphones, aparentemente em preparação para o uso com os óculos inteligentes da empresa. No mesmo mês, a 404 Media informou que hackers haviam descoberto como era trivialmente fácil enganar o assistente de suporte com IA da Meta para que os ajudasse a assumir o controle de contas importantes no Instagram. Em julho, a reação negativa a um novo recurso que permitia aos usuários do Instagram gerar imagens fotorrealistas de outras pessoas — sem necessidade de autorização — levou a Meta a retirá-lo do ar depois de dois dias.
Há ainda os crescentes problemas jurídicos enfrentados pela Meta diante das acusações de que suas plataformas prejudicam crianças. Entre eles estão multas de US$ 942 milhões no Novo México e uma ação movida por 29 estados, que a Meta acaba de encerrar com um acordo pelo qual aceitou pagar até US$ 17,1 bilhões em penalidades e fazer mudanças em seus produtos.
Em seu manifesto e em outras ocasiões, Zuckerberg vem lançando críticas a pessoas não identificadas que acreditam que a IA compete com a humanidade, em vez de ampliar suas capacidades. Em contraste, a Meta acredita em “colocar o poder nas mãos das pessoas para que persigam suas próprias aspirações”, escreveu ele em um artigo de opinião publicado no The Wall Street Journal. Mas a própria imagem pública recente de Zuckerberg faz dele um porta-voz peculiar para o tipo de crescimento pessoal que, segundo ele, a IA pode impulsionar. Por volta do retorno de Donald Trump à Casa Branca — celebrado por Zuckerberg como coanfitrião de uma recepção de gala em Washington, D.C. —, o executivo começou a se mostrar mais desinibido. No podcast de Joe Rogan, reclamou da “castração cultural” das empresas dos Estados Unidos e da valorização insuficiente de uma “energia masculina” agressiva. Em junho, esteve entre os convidados de uma luta do UFC realizada na Casa Branca no dia em que o presidente completou 80 anos.

Seja qual for o resultado da superinteligência pessoal — e por mais tempo que isso leve —, a Meta já enfrenta pressão dos investidores para demonstrar que suas iniciativas de IA não serão um poço sem fundo para sempre. Depois que a teleconferência de resultados do segundo trimestre não conseguiu tranquilizá-los, as ações da empresa caíram 10% em um único dia. No início de agosto, a Meta lançou o Muse Code, seu primeiro agente de programação baseado em IA. Mas, como qualquer outro produto da categoria, terá enorme dificuldade para conquistar atenção e usuários da Claude Code, da Anthropic, atual queridinha do setor. E, embora a Meta agora ofereça o Muse Spark como API para desenvolvedores externos, isso representa apenas um passo minúsculo na direção de criar um negócio de computação em nuvem semelhante ao Google Cloud. Enfrentar os grandes fornecedores de IA na nuvem “não é o tipo de coisa para a qual a Meta tenha as competências, o software ou as pessoas necessárias”, diz Ben Bajarin, CEO e analista-chefe da Creative Strategies, empresa de pesquisa de mercado.
Mesmo que a Meta não desenvolva uma plataforma corporativa completa de IA, a tecnologia pode fortalecer suas operações existentes. Em junho, por exemplo, apresentou um serviço chamado Meta Business Agent, que permite às empresas oferecer atendimento automatizado ao cliente por WhatsApp, Messenger e Instagram. Mas, até Zuckerberg conseguir mostrar como o investimento da empresa dará retorno, continuará vulnerável às críticas. “Para ele, a questão é: ‘Como posso ser um grande nome da tecnologia e não ter meu próprio modelo?’”, diz a fonte do Vale do Silício mencionada anteriormente. “Isso é puro ego. Não faz sentido, do ponto de vista dos negócios, gastar o dinheiro que ele está gastando para treinar modelos próprios.”
“Os recursos extraordinários de que Zuckerberg dispõe não garantem nada. A parte mais difícil ainda está por vir.”
Fazer a IA de fronteira se pagar “exigirá produtos matadores, algo que a Meta já fez no passado, mas não faz há algum tempo, exceto por meio de aquisições”, diz Siegler, investidor e escritor. “Talvez os óculos. Talvez. Ainda assim, é inteligente da parte deles tentar tudo isso. E estão lançando esses novos modelos em tempo recorde.”
A falta de clareza sobre o rumo da IA talvez não preocupe tanto Zuckerberg. Depois de transformar um projeto de programação criado em um dormitório de Harvard em um colosso de US$ 1,5 trilhão, que monetiza diariamente a atenção de 3,6 bilhões de pessoas, improvisar o caminho para o futuro deve parecer a coisa mais natural do mundo.
“No início do Facebook, eu não tinha ideia de como aquilo se tornaria um bom negócio”, disse-me Zuckerberg em 2015. “Eu apenas achava que era uma boa coisa a fazer.”
Hoje, Zuckerberg não é um visionário solitário. É apenas mais um CEO do Vale do Silício tentando transformar a IA em um bom negócio. Os recursos extraordinários de que dispõe não garantem nada. E, graças à própria ambição sem limites, a parte mais difícil ainda está por vir.
Reportagem adicional de Rebecca Heilweil e Mark Sullivan.