Conselho da Meta aponta falhas na moderação da eleição brasileira

Imagem ilustrativa em 3D do logo da Meta para ilustrar uma matéria sobre a ação da empresa durante as eleições brasileiras de 2026
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Camila de Lira 7 minutos de leitura
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A cinco dias do segundo turno das eleições presidenciais, o Conselho de Supervisão da Meta apontou falhas na moderação da eleição brasileira. Em comunicado divulgado nesta terça-feira (20), o órgão afirmou que a empresa aplicou de forma excessiva suas políticas de combate a fraudes às contas de anúncios do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e deveria ter encaminhado o caso a uma equipe interna de especialistas.

O conselho, porém, não concluiu que houve favorecimento político deliberado a Flávio Bolsonaro (PL) ou tentativa intencional de prejudicar Lula. A manifestação trata de erros na aplicação das regras das plataformas, problemas nos mecanismos de revisão e falta de transparência sobre a eficácia das medidas adotadas pela empresa durante eleições.

O posicionamento ocorre em meio a uma série de questionamentos sobre a atuação da dona do Instagram, Facebook e WhatsApp nas eleições brasileiras. Na segunda-feira (19), centenas de pessoas protestaram em frente à sede da empresa, em São Paulo. A Meta também foi intimada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a comprovar que oferece tratamento igualitário às campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro.

Criado e financiado pela Meta, mas com atuação independente, o Conselho de Supervisão avalia decisões de moderação e recomenda mudanças nas políticas da companhia. Em comunicado publicado nesta terça-feira, seus copresidentes manifestaram preocupação com erros recorrentes na aplicação das regras durante processos eleitorais.

O QUE O CONSELHO DA META IDENTIFICOU

Segundo o conselho, a moderação de conteúdo político apresenta dois problemas recorrentes: a aplicação excessiva de regras, que pode restringir manifestações legítimas, e a fiscalização insuficiente, que pode comprometer a integridade das eleições.

No caso brasileiro, o órgão citou especificamente as restrições aplicadas às contas de anúncios de Lula, classificadas como uma falha na aplicação das políticas antifraude.

A própria Meta já havia reconhecido que a conta de anúncios da campanha foi desativada indevidamente em 23 de setembro, por pouco mais de uma hora. Segundo a companhia, o bloqueio ocorreu depois que um anúncio foi identificado erroneamente como uma possível tentativa de se passar por um programa social do governo.

Para o Conselho de Supervisão, o episódio deveria ter sido encaminhado a uma equipe interna de especialistas, capaz de revisar decisões com possíveis consequências para a participação política.

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O comunicado também menciona a remoção de contas ligadas ao movimento No Kings, que organiza protestos contra o presidente Donald Trump nos Estados Unidos. Nesse caso, o conselho questionou por que os mecanismos internos de prevenção de erros da Meta não identificaram o problema mais rapidamente.

As críticas não se limitam aos episódios recentes. Desde as eleições brasileiras de 2022, o conselho cobra que a Meta desenvolva indicadores públicos para avaliar a eficácia de suas medidas de proteção eleitoral.

Embora a empresa divulgue números sobre anúncios armazenados e contas removidas, o órgão afirma que ainda faltam métricas capazes de demonstrar se suas ferramentas estão funcionando adequadamente e quais problemas permanecem sem solução.

O conselho também advertiu que remoções indevidas de conteúdo político às vésperas de uma eleição podem ter consequências irreversíveis para a participação no debate público.

META ENFRENTA COBRANÇAS DO TSE

A declaração ocorre enquanto a empresa tenta demonstrar à Justiça Eleitoral brasileira que suas ferramentas oferecem tratamento igualitário às duas candidaturas presidenciais.

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Na segunda-feira (19), o ministro Marco Aurélio Bellizze, do TSE, deu 24 horas para que a Meta comprovasse a adoção de medidas para impedir favorecimento político nos sistemas de recomendação, distribuição de conteúdo e inteligência artificial.

O magistrado considerou que a empresa ainda não havia cumprido satisfatoriamente uma determinação anterior do tribunal. Entre os problemas apontados estavam relatórios em inglês, documentos apresentados sem contexto e prazos estabelecidos pela própria companhia.

A decisão integra um processo iniciado após denúncias da campanha de Lula sobre restrições ao impulsionamento de anúncios, limitações de alcance e possíveis diferenças na distribuição de publicações relacionadas aos dois candidatos.

Os questionamentos também envolvem a Meta AI, assistente de inteligência artificial integrado ao WhatsApp.

Na semana passada, testes realizados pela Fast Company Brasil mostraram que a ferramenta produzia cartazes com o nome e o número de Flávio Bolsonaro, enquanto recusava solicitações semelhantes envolvendo Lula.

Em uma das tentativas, o comando "Flávio 22" resultou em uma imagem com elementos de campanha. Já o pedido "Lula 13" foi recusado. A ferramenta também gerou um cartaz com "Luiz 13", mostrando que as restrições não eram aplicadas de maneira uniforme a todas as combinações de nomes e números.

A Meta atribuiu a diferença a uma lacuna nos mecanismos de segurança da IA e afirmou ter corrigido o problema.

Nesta terça-feira (20), a companhia informou ao TSE que implementou medidas adicionais para cumprir as determinações judiciais. Entre elas está a revisão humana, em até duas horas, de eventuais restrições automáticas aplicadas às contas de anúncios das campanhas presidenciais.

No início da noite, representantes da empresa e das duas candidaturas participaram de uma reunião com o ministro Bellizze para discutir o cumprimento das medidas. Segundo o TSE, o encontro buscou garantir transparência e igualdade de tratamento entre os candidatos.

PROTESTOS E PRESSÃO DE ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVIL

A pressão sobre a Meta também aumentou fora da Justiça Eleitoral.

Na segunda-feira (19), centenas de manifestantes participaram de um protesto na região da avenida Faria Lima, em São Paulo, onde fica a sede brasileira da empresa.

Com o lema "Meta, não se meta", o ato reuniu organizações da sociedade civil e ativistas que denunciam bloqueios de contas, restrições de alcance e falta de transparência na moderação de conteúdos políticos.

Os participantes tentaram entregar um manifesto à companhia, mas, segundo os organizadores, não conseguiram protocolar o documento presencialmente.

As denúncias ultrapassaram as fronteiras brasileiras. Nesta terça-feira, cinco organizações da sociedade civil solicitaram ao Congresso dos Estados Unidos uma investigação sobre a atuação da Meta nas eleições brasileiras.

A carta foi assinada pelo Washington Brazil Office, Washington Office on Latin America, Center for Economic and Policy Research, Amazon Watch e Latin America Working Group.

O documento pede esclarecimentos técnicos à direção da Meta, preservação de registros internos e a realização de audiências públicas para examinar os mecanismos de moderação e distribuição de conteúdo.

As organizações também mencionaram um levantamento do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que identificou ao menos 1.613 anúncios políticos irregulares veiculados nas plataformas da Meta entre julho e setembro, pagos em moeda estrangeira.

Segundo o estudo, os anúncios acumularam 171,1 milhões de impressões e movimentaram cerca de R$ 2 milhões.

As entidades ressaltaram que as inconsistências identificadas não comprovam, por si só, favorecimento político deliberado. O objetivo declarado da iniciativa é cobrar transparência, respeito à legislação brasileira e responsabilização da empresa.

O QUE DIZ A META

A Meta nega ter interferido deliberadamente nas eleições brasileiras ou favorecido qualquer candidatura.

Em comunicado publicado em outubro, a empresa afirmou que os episódios relatados decorreram de erros operacionais e problemas técnicos, alguns deles registrados também em outros países.

Sobre as restrições às contas de Lula, a companhia reconheceu o bloqueio indevido de anúncios, mas afirmou que as páginas oficiais da campanha no Instagram e no Facebook não foram suspensas.

A empresa também sustentou que uma falha na contabilização de visualizações de vídeos afetou usuários de mais de 100 países, incluindo contas de diferentes posições políticas.

Em relação à Meta AI, a companhia afirmou que seus sistemas não identificaram adequadamente determinadas combinações de nomes comuns e números eleitorais. Segundo a empresa, o problema foi corrigido em 14 de outubro.

A Meta sustenta que aplica as mesmas regras a todos os candidatos e rejeita as acusações de manipulação deliberada da distribuição de conteúdos.

As cobranças do TSE e do Conselho de Supervisão colocam sob escrutínio a capacidade da Meta de identificar e corrigir problemas em sistemas automatizados que afetam a circulação de informações durante uma eleição.


SOBRE A AUTORA

Camila de Lira é editora-chefe da Fast Company Brasil e jornalista formada pela ECA-USP. Cobre tecnologia, inteligência artificial, in... saiba mais