Microsoft entrega o Xbox a uma executiva de IA – e a internet reage

A saída de Phil Spencer e a promoção surpresa de Asha Sharma acontecem em um momento de queda nas vendas do Xbox

Asha Sharma, executiva da Microsoft
Créditos: Windows Central/ Sean Whelan/ Pawel Czerwinski/ Unsplash

Chris Morris 4 minutos de leitura

A notícia sobre uma grande reviravolta na divisão Xbox da Microsoft pegou o mundo dos games de surpresa. Phil Spencer, que comandava o Xbox havia quase 12 anos, anunciou sua aposentadoria com efeito imediato, apenas alguns meses depois de a empresa afirmar que ele “não estava se aposentando tão cedo”.

A presidente do Xbox, Sarah Bond, vista por muito tempo como sucessora natural de Spencer, foi preterida e também deixou a companhia. Para liderar a divisão, foi escolhida Asha Sharma, presidente de produto da CoreAI na Microsoft.

Antes uma potência em geração de receita, o Xbox viu sua lucratividade e influência encolherem nos últimos anos. Assim, Sharma provavelmente vai enfrentar uma batalha difícil.

A Microsoft não divulga números atualizados de vendas de consoles Xbox nem de assinaturas do Game Pass há anos. E os dados disponíveis não são animadores.

A receita com hardware do Xbox caiu 32% na comparação anual no último trimestre de festas. A receita total de games recuou 9%, enquanto o segmento de conteúdo e serviços (que inclui o Game Pass) encolheu 5%.

Sharma já foi alvo de críticas nas redes sociais por não ter histórico no setor. Parte dessa reação reflete o sexismo que ainda corre solto no universo gamer – ela será a primeira mulher a comandar um grande fabricante de consoles. Mas as críticas ao seu “pedigree gamer” também revelam uma espécie de elitismo.

Strauss Zelnick, CEO da Take-Two Interactive, já afirmou que não era gamer quando assumiu o cargo, e continua não sendo. Ainda assim, sob sua liderança, a empresa emplacou uma sequência de sucessos, sobretudo a franquia Grand Theft Auto, e viu o preço de suas ações multiplicar por 15 desde que ele assumiu.

“Não acho que alguém queira ou precise da minha expertise criativa específica, seja ela qual for”, disse Zelnick certa vez. “Meu trabalho é atrair, reter e oferecer recursos ao melhor talento criativo do setor.”

FOCO DIVIDIDO E QUEDA NAS VENDAS

O tempo dirá se Sharma vai seguir um caminho parecido ao de Zelnick. Mas, se o fizer, em vez de concentrar esforços em grandes lançamentos individuais, terá de convencer jogadores a comprar tanto o hardware quanto um serviço de assinatura que, cada vez mais, torna esse hardware opcional.

Os consoles Xbox Series X e Xbox Series S enfrentaram problemas de estoque nos últimos meses e continuam caros quando disponíveis. Com a escassez de memória afetando uma ampla gama de produtos de tecnologia, um corte de preço no curto prazo parece improvável.

game Call of Duty Black Ops
Call of Duty é a maior franquia de games da Microsoft (Crédito: Microsoft)

Ao mesmo tempo, a Microsoft vem se afastando dos consoles, expandindo o Game Pass para múltiplas plataformas – inclusive como aplicativo em TVs da Samsung. Até uma loja móvel do Xbox chegou a ser planejada, mas nunca foi lançada.

Apesar dessa guinada, a empresa também trabalha em um Xbox de próxima geração, que era esperado para estrear no próximo ano, embora o cronograma possa atrasar devido à escassez de componentes.

O DESAFIO DE ASHA SHARMA À FRENTE DO XBOX

A promoção de Sharma pode marcar um “reset”, com a empresa voltando a priorizar consoles e títulos exclusivos, em vez da estratégia “Xbox em qualquer lugar” dos últimos anos. Ainda assim, alguns obstáculos continuam.

A Microsoft tem as mãos atadas com sua maior franquia, Call of Duty, adquirida na compra da Activision Blizzard há três anos. Pelo acordo firmado com reguladores, a empresa precisa continuar oferecendo esses jogos e recursos à Sony até 2033. Mesmo assim, a companhia mantém vastos recursos de desenvolvimento, apesar dos cortes profundos de pessoal.

A franquia Halo enfrentou dificuldades, mas pode se recuperar com um lançamento forte. A Bethesda Softworks, adquirida em 2021, desenvolve um novo título de The Elder Scrolls e também controla franquias consolidadas como Fallout e Doom.

cena do game Halo, do Halo Studios
Cena do game Halo (Crédito: Halo Fandom)

A Microsoft ainda conta com Gears of War, Fable e Forza, além de manter relações sólidas com desenvolvedores independentes.

Retomar o foco em consoles pode exigir mudanças no Game Pass. O apelo do serviço está em oferecer novos títulos no dia do lançamento, sem necessidade de compra individual.

Mas, com jogos AAA custando US$ 200 milhões ou mais para serem desenvolvidos, o Game Pass precisará de um salto no número de assinantes, ou de mudanças estruturais, para se manter viável.

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Seja qual for a direção escolhida por Sharma, o desafio é grande. Spencer pode ter sido querido pelos gamers, mas as grandes apostas da Microsoft nos últimos seis anos ficaram, em grande parte, aquém do esperado.

Em meio a ventos contrários que atingem toda a indústria de games, a empresa já não é a força dominante que foi na era do Xbox 360. Reconquistar esse espaço exigirá liderança firme e consistente.


SOBRE O AUTOR

Chris Morris é jornalista, escritor, editor e apresentador especializado em tecnologia, games e eletrônicos. saiba mais