Não dá para deletar as big techs. Mas que tal um ctrl+z?
Brasileiros lançam a organização com objetivo de oferecer caminhos para denúncias, processos e investigação contra grandes empresas de tecnologia

A pressão em cima das grandes empresas de tecnologia aumentou no Brasil e ao redor do mundo. Para responsabilizar as big techs no país, ex-funcionários se juntaram com especialistas, advogados de direito digital e ativistas numa organização. A organização tem nome simbólico: CTRL+Z.
No lugar de bater na tecla do boicote ao Instagram, WhatsApp ou Gemini, a organização bate no comando poderoso dos computadores: o que reverte ações recentes e pausa tarefas travadas do sistema.
Para “desfazer” o estrago causado por plataformas como Meta, X e companhia limitada, a CTRL+Z vai conectar vítimas de violação de direitos por plataformas digitais com suporte jurídico. Além de criar ferramentas de proteção para funcionários de empresas de tecnologia que quiserem denunciar práticas abusivas.
“Queremos ser um cavalo de Tróia, uma pedra no sapato das big techs”, afirma a diretora executiva da CTRL+Z, Daniela da Silva.
Casos individuais deixam de ser “pequenos” quando se repetem. A partir de um certo momento, eles se transformam em evidências. Daniela é ex-head de políticas públicas do WhatsApp no Brasil. “Uma coisa que trago da minha experiência no setor é que a pressão mais eficiente vem de fora para dentro”, afirma.
Daniela lidera a organização ao lado da jornalista Tatiana Dias e do advogado Luã Cruz. Com apoio filantrópico da Luminate e apoio institucional do Instituto Procumum, a CTRL+Z tem um conselho fundador de nove pesquisadores e especialistas, entre eles a diretora do NetLab e colunista da Fast Company Brasil, Marie Santini; o advogado do Sleeping Giants Brasil, Humberto Ribeiro; a jornalista Bia Barbosa; e o diretor do Democracy Hub, Pedro Telles.
A RESISTÊNCIA CONTRA-ATACA
Outros ex-funcionários de grandes empresas de tecnologia fazem parte do conselho fundador da organização. Marianne Batista, cientista política com ênfase em inteligência artificial, atuou na área de segurança de IA do TikTok.
Fundadora da startup de governança de IA generativa Yiara, Marianne explica que ter o olhar de dentro das grandes empresas ajuda a comunicar ao público as reais alternativas. “Do lado de fora, o usuário acha que se trata de uma tecnologia mágica, incrível. Mas quem está dentro sabe que tem vezes que é só uma tabela do Excel”, brinca.
A cientista política lembra que a desmistificação também ajuda o público a entender o que ele pode ou não exigir das grandes empresas de tecnologia.

No ano passado, por exemplo, a Meta foi pega permitindo que chatbots de IA tivessem “conversas românticas” com usuários menores de idade. A resposta oficial da empresa foi que iria aumentar os filtros e indicou o desafio que é a tecnologia para evitar tais “erros” das IAs.
Marianne explica que tal filtro é possível de ser criado e que poderia estar nas configurações desde a sua criação. “Eles vendem a ideia de que a tecnologia está muito além da capacidade de qualquer pessoa de entender e, por isso, não podemos interferir. Mas a gente pode, sim, falar de limites”, comenta.
O CTRL+Z É UMA AÇÃO POR VEZ
O Brasil já tem regras para o mundo digital. A mais recente foi o estatuto da criança e do adolescente no meio digital, que começou a ser colocada em prática este ano.
Daniela lembra que o ECA Digital mostra que, quando a sociedade civil pressiona, a regulamentação tende a surgir. O ponto aqui é o tempo de pressão.
“Precisamos de algumas vitórias: pequenas e grandes”, diz a diretora do CTRL+Z. Ela dá importância para as vitórias individuais, aquelas que parecem não ser revolucionárias, mas incomodam as big techs e ajudam a formar a opinião pública.
a desmistificação ajuda o público a entender o que ele pode ou não exigir das big techs.
Ela lembra que, nos Estados Unidos, o caso da usuária que conseguiu provar que Meta e Google criaram sistemas viciantes, que ganhou espaço no mês passado, é um tipo de vitória “individual” que inspira e cria precedentes.
No Brasil, a CTRL+Z quer capitanear os processos menores, incluindo aqui os caminhos alternativos para processar as plataformas por danos causados. Daniela lembra que o Código do Consumidor já é uma estrutura para proteger os usuários, mas poucos que sofreram nas mãos das redes sociais sabem que é viável usar esse recurso.
No começo do ano, o Instituto de Defesa dos Consumidores foi uma das principais vozes na suspensão do Grok por conta das ferramentas de IA pornográficas promovidas na plataforma de Elon Musk. O Código de Defesa do Consumidor foi citado como base para a reclamação.
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“Queremos trazer para o mundo das plataformas digitais a mentalidade que já acontece no setor aéreo, no setor bancário”, diz Daniela. Na visão de Marianne, são pequenos casos que, juntos, “têm a força de mudar o curso do rio”.
O primeiro passo da organização foi lançar o Arquivo de Danos Digitais, o ADD+. Que coleta histórias de usuários vítimas de violações de direitos por plataformas digitais.
AINDA DÁ TEMPO
A organização ainda fará conexão com redes de jornalistas de tecnologia para poder ampliar a investigação em casos de abuso das plataformas. Além de informar, as publicações deverão ajudar a ir um pouco mais fundo e questionar o grande elefante da sala das big techs: o modelo de negócios.
“Eu não só acho que ainda dá tempo, como também que é necessário e inescapável a gente reverter o modelo de negócio digital. É o grande dilema da nossa geração e o nosso maior desafio”, diz Daniela.
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Para criar alternativas às redes e às novas tecnologias que estão surgindo, a saída do CTRL+Z não é apoiar as ações individuais de sair de um serviço ou aplicativo. É ir além da indignação.
“A gente não tem escapatória da internet. Então, o que, como sociedade podemos fazer não só para criar limites, como também para criar usos desejáveis para a tecnologia a partir daí?”, questiona Marianne.
A TECLA QUE SE REPETE
Uma das bases da CTRL+Z é que precisamos enfrentar o sentimento de impotência ante as grandes empresas de tecnologia a partir da informação e da movimentação. Por menor que seja, cada atividade ajuda a formatar o futuro da tecnologia. O jogo parece dominado, mas não está ganho.
A história mostra. Em 1968, na Califórnia, o então jovem programador Larry Tesler se juntou a outros pensadores da contracultura tecnológica para ministrar um curso na universidade livre de Midpeninsula, “Como acabar com o monopólio da IBM”. As aulas discutiam as ações predatórias da empresa no mercado de software no início da computação.

O programa não durou nem um semestre, por interferência da própria IBM. Mesmo assim, a empresa foi processada pelo governo dos EUA por monopolizar o mercado de mainframes no ano seguinte. O caso durou 13 anos e foi considerado o primeiro passo do software livre que conhecemos hoje.
Na década seguinte, Tesler foi parar no pioneiro laboratório de pesquisa da Xerox em Palo Alto (PARC), onde os primeiros computadores pessoais eram produzidos.
Lá, criou programas “leves”, que não só podiam rodar em computadores “mais simples”, como podiam ser entendidos pelo público leigo (dizem as lendas do Vale do Silício que o cientista foi o primeiro a usar o termo “user friendly”).
Nos anos 1980, não só as aplicações como a engenhosidade de Tesler foram absorvidas pela Apple. A empresa, que o contratou em 1983, colocou em seus editores de texto os três comandos inventados por eler: copiar (ctrl+c), colar (ctrl+v) e desfazer (ctrl+z).