Nem a Apple escapou: como as demissões estão redefinindo a cultura da big tech

Especialistas dizem que demissões deixaram de ser último recurso e viraram ferramenta de planejamento para as empresas

demissões na Apple
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Pavithra Mohan 4 minutos de leitura

Em novembro, a Apple demitiu dezenas de funcionários da área de vendas, em um movimento bastante inesperado para a gigante da tecnologia. A Apple é uma rara exceção no setor por ter evitado demissões em massa, especialmente quando comparada a outras empresas do chamado clube do trilhão de dólares.

As demissões “pegaram de surpresa” os trabalhadores que perderam seus empregos, segundo uma reportagem da Bloomberg – e atingiram inclusive funcionários que estavam na empresa havia décadas.

O mercado de trabalho nos EUA pós-pandemia passou a ser definido por demissões, dentro e fora do setor de tecnologia. Uma análise do site Glassdoor aponta que houve um pico em 2023, mas que os cortes continuaram desde então, em uma frequência maior do que nos anos anteriores.

A indústria de tecnologia tem recorrido de forma particularmente intensa às demissões, após períodos de contratações excessivas e mudanças frequentes de prioridades, agora agravadas pela rápida ascensão da inteligência artificial, que está virando o setor de cabeça para baixo.

Desde 2022, empresas de tecnologia demitiram mais de 700 mil trabalhadores, segundo o monitor Layoffs.fyi. Com exceção da Apple, que fez alguns cortes pontuais nos últimos anos, as grandes empresas de tecnologia – especialmente Amazon, Meta, Google e Microsoft – dispensaram dezenas de milhares de funcionários nos últimos três anos.

Com as demissões sacudindo o setor, os empregos em tecnologia que antes eram celebrados como estáveis e desejáveis parecem já não ser uma aposta segura para os trabalhadores.

“Infelizmente, as demissões deixaram de ser o último recurso. Elas se tornaram mais uma ferramenta de planejamento”, afirma Brett Coakley, principal executivo de coaching da consultoria de carreiras Close Cohen. “Esses trabalhadores que achavam que estavam protegidos estão percebendo que o prestígio não oferece mais a segurança à qual estavam acostumados.”

O EMPREGO DOS SONHOS MUDOU

Por muitos anos, essas grandes empresas de tecnologia prometeram salários generosos e estabilidade no emprego, além de benefícios luxuosos. Entre demissões recorrentes e políticas rígidas de retorno ao escritório, no entanto, algo parece ter mudado – e não é apenas o fim das regalias.

Muitos grandes empregadores do setor contrataram agressivamente durante a pandemia, apenas para demitir pouco tempo depois. Empresas como a Amazon obrigaram trabalhadores a voltar ao esquema presencial cinco dias por semana – em alguns casos, exigindo inclusive a mudança de cidade.

A ascensão da IA generativa também está remodelando radicalmente as empresas de tecnologia, com muitas delas fazendo investimentos de bilhões de dólares e disputando talentos de ponta.

Ao mesmo tempo, formandos em ciência da computação estão encontrando mais dificuldade para conseguir empregos de nível inicial – em parte porque essas funções estão sendo gradualmente automatizadas.

Algumas empresas, como a Salesforce, já substituíram certos trabalhadores por IA, enquanto outras alertaram que perdas de empregos estão a caminho e que os funcionários precisam se adaptar e adotar a tecnologia.

Mark Zuckerberg afirmou no início do ano que a IA pode substituir engenheiros de nível intermediário na Meta, enquanto o CEO da Amazon, Andy Jassy, disse que funcionários que “se tornarem fluentes em IA” terão “alto impacto” e “ajudarão a reinventar a empresa”.

O resultado, segundo Coakley, é que os trabalhadores ficaram mais relutantes em apostar a carreira em um emprego em uma big tech. Alguns profissionais em início de carreira estão olhando para empresas menores ou tentando reforçar suas habilidades em IA, à espera de que o pêndulo volte a oscilar e que as gigantes da tecnologia retomem as contratações.

Desde 2022, empresas de tecnologia demitiram mais de 700 mil trabalhadores.

De toda forma, o emprego bem remunerado em tecnologia ainda exerce fascínio, embora pareça cada vez mais fora de alcance para alguns novos entrantes no setor, argumenta Daniel Zhao, economista-chefe e diretor de pesquisa econômica do Glassdoor. “Os empregos em big techs ainda são muito atraentes”, diz Zhao.

Especialistas costumam afirmar que demissões têm um impacto claro sobre a cultura das empresas. A análise do Glassdoor reforça essa ideia: o volume de avaliações na plataforma aumenta mais de 40% na semana seguinte a um corte de pessoal, e o tema continua sendo mencionado meses depois.

Zhao observa que algumas empresas tentam evitar a atenção negativa e a cobertura da imprensa associadas a demissões em massa ao realizar cortes menores e mais frequentes. Mas os trabalhadores conseguem ver o que está acontecendo e alguns deles estão tomando medidas preventivas para traçar novos caminhos.

“As pessoas estão percebendo que vinham confiando nas grandes empresas como fonte de estabilidade e isso já não é mais viável”, afirma Coakley.

A cultura da big tech pode ter mudado, mas os trabalhadores também mudaram, tornando-se mais ousados após as turbulências dos últimos cinco anos – e após descobrirem que seus empregadores não são diferentes de outras grandes empresas do mundo corporativo.


SOBRE A AUTORA

Pavithra Mohan é redatora da Fast Company. saiba mais