Nem o Exército dos EUA escapa da máquina de vigilância da internet

Estudo aponta que redes militares estão inundadas de rastreadores corporativos, que podem acabar revelando informações sensíveis

sistema de vigilância e monitoramento pela internet
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Chris Stokel-Walker 2 minutos de leitura

Militares do Exército dos Estados Unidos podem estar se preparando para uma guerra cibernética, mas, silenciosamente, a própria navegação na internet está alimentando a economia da vigilância.

Um estudo recente do Instituto Cibernético do Exército, na Academia Militar dos EUA, revela que a vigilância corporativa se infiltrou profundamente na infraestrutura de TI não classificada do exército em território continental norte-americano.

Os pesquisadores – que recusaram pedido de entrevista, citando maior restrição do Departamento de Defesa sobre interações externas – analisaram os 1 mil recursos de internet mais acessados nas redes do exército ao longo de dois meses. A conclusão: 21,2% eram “domínios de rastreamento”.

Esses domínios existem exclusivamente para coletar dados e métricas de usuários. Um conjunto adicional de dados mostrou que, embora representassem cerca de 19% dos principais domínios acessados, os rastreadores responderam por quase 42% das requisições efetivas na web. Outros 10,4% da amostra original eram sites comuns que incorporavam códigos de rastreamento.

“Há vários anos existem preocupações sobre o uso da internet aberta a partir de instalações militares e por militares e funcionários do governo”, afirma Alan Woodward, professor de cibersegurança na Universidade de Surrey, no Reino Unido (que não participou da pesquisa).

“Este artigo faz um alerta preocupante: muitos dos domínios frequentemente visitados por usuários de redes militares ou governamentais são, na verdade, domínios de rastreamento”, alerta.

Entre as empresas que operam esses domínios estão Adobe, Microsoft e Akamai Technologies, mas também TikTok – que, teoricamente, foi banido de dispositivos do governo federal dos EUA devido à sua controladora chinesa –, além do Google China e de um site de apostas já desativado. Esses três últimos foram destacados pelos autores como casos que merecem investigação adicional.

Os dados coletados por esses rastreadores de publicidade digital – incluindo geolocalização, endereços de e-mail e preferências de navegação – são agregados e revendidos por corretores de dados como informações comercialmente disponíveis. A partir daí, adversários poderiam, em tese, comprar esse material para identificar e analisar como militares interagem online.

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Woodward afirma que as descobertas indicam que lições do passado ainda não foram plenamente assimiladas. Ele cita o caso de 2018, quando o aplicativo de condicionamento físico Strava publicou um “mapa de calor” que acabou revelando a localização e as rotas de patrulha de bases militares pelo mundo.

“Parece algo básico de segurança operacional”, diz Woodward. “Mas muitos administradores de sistemas ainda não aprenderam aquela velha lição da internet: se você não é o cliente pagante, você é o produto.”


SOBRE O AUTOR

Chris Stokel-Walker é um jornalista britânico com trabalhos publicados regularmente em veículos, como Wired, The Economist e Insider saiba mais