POR NICOLE LAPORTE

Há vários meses, Dawn Olmstead, chefe executiva da Anonymous Content, produtora de Hollywood, recebeu uma ligação de um dos executivos de seu time. “Você sabe o que é NFT?”, foi a pergunta que ela ouviu.

Estudante de artes e cinema na universidade, Olmstead estava ciente de como os NFTs, ou token não-fungíveis, estavam começando a chacoalhar o universo das artes plásticas, graças à exclusividade inerente ao formato. Como arquivos digitais que são armazenados em uma rede de blockchain – a mesma estrutura utilizada por criptomoedas como bitcoins – os NFTs oferecem um certificado digital de autenticidade único que os torna impossíveis de serem falsificados. E, assim como as obras de arte, acumulam valor conforme são comprados e negociados. No final de 2020, o fenômeno estava bem encaminhado com artistas vendendo NFTs por milhões de dólares.

Mas, até então, os NFTs não haviam chegado à Hollywood.

Isso é, até que Zack Hayden, diretor de negócios da Anonymous, ligou para Olmstead e perguntou a ela sobre eles, contando sobre uma conversa que ele teve com o cantor Shawn Mends e a produtora de filmes dele, a Permanent Content, sobre Micah Johnson, artista de NFT. Aku, personagem criado por Johnson, um menino negro que veste um capacete de astronauta e uma mochila, levantou US$ 2 milhões em fevereiro quando o primeiro dos dez capítulos da história estreou. A Universal Content Productions, da NBCU, logo fechou uma parceria para levar Aku para o cinema e a TV.

“Aku não será somente um NFT. Vai crescer. Se você pensar grande, pode ver o Walt Disney criando um personagem como o Mickey Mouse e construindo um mundo em torno dele”, afirma Olmstead.

Em uma Hollywood ávida por propriedade intelectual, os NFTs tornaram-se a próxima fronteira, e a popularidade deles iniciou uma corrida pelo ouro entre os estúdios, produtores e agências de talento em busca de novas fontes de receita em meio à crise provocada pela Covid-19. O entusiasmo não diminuiu nem mesmo com a amornada do mercado de NFTs: em 3 de maio, foram vendidos US$ 100 milhões de NFTs em um único dia. Na primeira semana de junho, somente US$ 19,4 milhões foram vendidos. Ou seja, o número de carteiras de NFTs ativas, ou contas utilizadas para comprar esses tokens, caiu de 12 mil para 9,9 mil nesse período.

Mas a oportunidade é muito boa para Hollywood mesmo assim: além de os NFTs serem um meio para a geração de novos personagens e histórias que podem eclodir em franquias multimídia, também são um caminho para reconfigurar propriedades existentes para legiões de fãs, como o mercado de NFT fez com o NBA Top Shot. Esta segunda abordagem significa, em alguns casos, tirar a poeira de conteúdo que já tem algumas décadas, o que representaria um pote de ouro que não chegava à Hollywood desde que o mercado de DVDs impulsionou as receitas dos estúdios nos anos 1990.

“É um upside. É dinheiro achado”, diz Chris McGurk, chairman e CEO da Cinedigm Digital Cinema, que possui um selo de filmes dedicado a NFTs e está prestes a lançar filmes como The Capture, de John Sturges, como coleções digitais – que incluem GIFs, entrevistas e versões restauradas dos filmes – no blockchain. “A indústria não tem tido boas notícias com o encolhimento dos mercados tradicionais. Acho que os NFTs são um mercado novo em folha que pode ser uma alavanca para o negócio, contanto que as pessoas achem a abordagem certa.”

Mas o “jeito certo” é tema de debate à medida que os players se desdobram em experimentações. NFT como filme? Programa de TV? Assuntos espinhosos, como os direitos dos artistas e demais detentores ainda estão sendo resolvidos, assim como questões sobre como a propriedade do NFT coexiste com outras plataformas. Por enquanto, essas questões estão sendo deixadas de lado enquanto Hollywood se prepara para aquela que acredita ser a próxima grande onda, uma onda que, para alguns, vai além da compreensão que se tem hoje.

“O NBA Top Shot foi um dos cases mais bem-sucedidos nesse espaço. Porém, foi feito para uma experiência específica de fã. Ter o ápice de um jogo de basquete é ótimo, mas como isso se traduziria para uma franquia do Star Wars?”, questiona Jules Urbach, fundador e CEO da Otoy, empresa de cloud graphics cujo software tem ajudado os estúdios a navegar no universo de NFTs.

O diretor J.J. Abrams, o ex-CEO do Google, Eric Scmidt, Richard Kerris, ex-CTO da Lucasfilm, e Ari Emanuel, CEO da Endeavor, estão entre os membros do board da Otoy. Com a Endeavor, a empresa está discutindo como trazer um pipeline de blockchain 3D para o UFC (Ultimate Fighting Championship).

Disney, HBO e Discovery são alguns dos investidores da Otoy, que trabalhou com esses estúdios em um projeto com Alex Ross, artista da Marvel e da DC Comics, cuja coleção digital de arte de super-heróis foi lançada na RNDR.

FAZENDO O VELHO VIRAR NOVO

Na Cinedigm, os NFTs estão sendo utilizados para impulsionar uma estratégia de negócios maior: assinaturas da coleção das redes de streaming da companhia, como a Fandor (filmes clássicos e independentes), Lone Star (western e programas de TV) e o canal do Bob Ross (arquivo da série dele sobre pintura). Os assinantes poderão ganhar NFTs relacionados ao conteúdo dos canais, como milhas aéreas.

Já a trajetória de Aku seguirá o ciclo de desenvolvimento de Hollywood, com roteiristas, produtores e diretores. Olmstead garante que na Anonymous, os artistas estarão intimamente envolvidos com os projetos inspirados em seus NFTs.

Sobre a possibilidade de fazer projetos além de filmes e TV, ela diz que existe a possibilidade de Aku virar um quadrinho, por exemplo. Mas o desafio é gerenciar esses mundos simultaneamente. “Como protegemos a jornada do filme e do programa de TV sem inibir a expansão de Aku pelo mundo? Quando se tem algo imediato como um NFT, dá para se trabalhar em algo semanalmente. Precisamos trabalhar de mãos dadas para que as duas coisas funcionem. O desafio é não saturar ou ir além das expectativas, ou voltar atrás por não estarmos alinhados com o IP inicial. Temos de ser cuidadosos com isso.”

SOBRE A AUTORA

Nicole LaPorte é redatora sênior da Fast Company e escreve sobre onde a tecnologia e o entretenimento se cruzam. Anteriormente, ela foi colunista do The New York Times e escritora da Newsweek/The Daily Beast e Variety.