No YouTube, canais de ataque às mulheres têm aumento de seguidores
Atualização de estudo do NetLab UFRJ mostra que, de 2024 até agora, houve uma redução de apenas 10% no total de canais misóginos; porém, mais pessoas estão consumindo esses conteúdos

O YouTube segue como um dos meios de propagação de conteúdos com discurso de ódio, desprezo, aversão ou controle sobre as mulheres são disseminados. A atualização do relatório “Aprenda a evitar esse tipo’ de mulher: estratégias discursivas e monetização de misoginia no YouTube”, elaborada pelo NetLab UFRJ e divulgada na segunda-feira (9), aponta que a plataforma segue como território livre para esse tipo de ataque.
O resultado da atualização da pesquisa mostra a falta de interferência do YouTube e do Judiciário nos canais que atacam as mulheres. Dos 137 canais com esse tipo de conteúdo identificados em 2024, 123 seguem disponíveis na plataforma.
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Além de apenas 14 canais terem sido excluídos (representando 10% de diminuição), há outro agravante, segundo o NetLab UFRJ. Entre abril de 2024 e março de 2026, houve um aumento do número de inscritos desses 123 canais - de 19.505.210 para cerca de 23 milhões. O crescimento foi de 18,55% com a chegada de 3.618.086 novos seguidores, mostra a atualização.
O estudo identificou ainda que 20 desses canais mudaram de nome. Alguns deles retiraram referências à machosfera de seus títulos.
Como explica a ONU Mulheres, machosfera é a demonização para “uma rede solta de comunidades que afirmam tratar das dificuldades enfrentadas pelos homens – como namoro, boa forma física ou paternidade – mas que frequentemente promovem conselhos e atitudes nocivos”.
Segundo relatório da Organização das Nações Unidas sobre violência contra mulheres e meninas, são grupos que se opõem ao feminismo e defendem a falsa ideia de que homens são “vítimas” do atual cenário social e político.
ENTENDA COMO É FEITO O LEVANTAMENTO
De acordo com o NetLab UFRJ, a atualização dos dados foi feita de modo automatizado. Foram considerados apenas os 137 canais analisados em 2024.
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A pesquisa foi desenvolvida a partir da combinação de técnicas de análise computacional com análise qualitativa, com a aplicação de um protocolo de investigação elaborado com base em convenções internacionais e na literatura especializada sobre misoginia e violência de gênero no ambiente digital.
A relação de criadores dos conteúdos não é divulgada, segundo o laboratório, para evitar a exposição indevida ou aumentar a audiência dos vídeos.
POR DENTRO DO ESTUDO
O estudo “Aprenda a evitar esse tipo’ de mulher: estratégias discursivas e monetização de misoginia no YouTube” resultou de uma parceria entre o NetLab UFRJ e o Ministério das Mulheres. O objetivo é investigara presença de discursos misóginos no YouTube. O resultado possibilitou mapear quais são as estratégias de monetização desses conteúdos - graças à análise de como canais misóginos geram receita, por exemplo, por meio de anúncios e de assinantes de canais.
Segundo o NetLab UFRJ, a pesquisa empregou ferramentas avançadas de inteligência artificial, usadas para analisar um total de 76.289 vídeos. O objetivo era identificar as comunidades e padrões da “machosfera” brasileira. Os pesquisadores identificaram também as formas de monetização desses canais e sua relação com o conteúdo misógino e discriminatório.