Novo data center da Microsoft mostra o preço climático da IA

Projeto de IA da Microsoft levanta alerta: emissões podem disparar com uso de gás natural em data centers

poluição e impacto ambiental dos data centers
Créditos: Rick Rothenberg/ Unsplash/ Aerial Perspective Works/ Getty Images

Kristin Toussaint 4 minutos de leitura

O uso recente anunciado pela Microsoft de um data center no estado da Virgínia Ocidental, nos EUA – que vai funcionar inteiramente com gás natural –, pode fazer as emissões da empresa dispararem em até 44%.

É o que aponta um novo relatório da Stand.earth, cujos pesquisadores afirmam que a demanda energética da instalação fará com que ela queime, a cada ano, o equivalente em metano ao consumo de mais de 1,2 milhão de residências.

O data center, chamado Monarch Compute Campus, é um exemplo de instalação “fora da rede", ou seja, ela gera sua própria eletricidade sem depender do sistema público.

Com o crescimento dos data centers de IA ameaçando sobrecarregar as redes elétricas e elevar as contas de energia, projetos desse tipo vêm sendo elogiados por evitar esses impactos diretos. Ainda assim, mesmo sem pressionar a rede local, instalações movidas a gás natural têm um custo ambiental elevado.

Tecnicamente, a Microsoft não é dona do data center que pretende usar. O complexo de mais de nove mil metros quadrados pertence à startup de computação em nuvem Nscale, apoiada pela Nvidia.

A Nscale compra processadores de IA, instala-os em servidores de data centers e depois aluga essa capacidade para desenvolvedores de IA, segundo o "The Wall Street Journal".

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Em meados de março, a Microsoft assinou uma carta de intenções para alugar 1,35 gigawatts de capacidade computacional de IA (baseada em chips da Nvidia) no Monarch Compute Campus.

A Microsoft será apenas uma parte do complexo. A capacidade total planejada do campus é de 8 gigawatts até 2031. Quando esse nível for atingido, estima-se que a empresa e os demais clientes do data center emitirão juntos 25,55 milhões de toneladas de CO₂ por ano – o equivalente a colocar quase seis milhões de carros nas ruas.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E GÁS NATURAL

O Monarch Compute Campus é apenas uma das estruturas que alimentam o boom da IA e que, por sua vez, impulsiona a expansão do gás natural.

Propostas de novas usinas a gás nos EUA triplicaram em 2025 em relação ao ano anterior, segundo a organização Global Energy Monitor. Hoje, o país lidera o desenvolvimento de capacidade energética movida a gás, com mais de um terço desse total destinado diretamente a data centers.

instalações de data center
Crédito: vecstock/ Freepik

Segundo a Stand.earth, data centers “fora da rede” podem ser ainda mais prejudiciais ao meio ambiente, pois frequentemente utilizam turbinas menores e menos eficientes. Vale lembrar que o gás natural é composto principalmente por metano.

Isso traz consequências reais para as comunidades no entorno. Um estudo da Universidade Comunitária da Virgínia aponta que a geração de energia local com gás metano e geradores a diesel para um único data center no estado pode gerar entre US$ 53 milhões e US$ 99 milhões em custos relacionados à saúde.

MICROSOFT PROMETEU ZERAR EMISSÕES ATÉ 2030

A análise da Stand.earth reforça estimativas publicadas recentemente pelo jornalista e analista Michael Thomas sobre o impacto ambiental do projeto.

Segundo o relatório, na corrida para expandir rapidamente a infraestrutura de IA, empresas como a Microsoft estariam “basicamente abandonando seus compromissos climáticos”, afirmou Rachel Kitchin, da Stand.earth.

A Microsoft se comprometeu a reduzir suas emissões de carbono, com a meta de se tornar “carbono negativa” e abastecer seus data centers com energia livre de carbono até 2030.

mesmo sem pressionar a rede local de eletricidade, instalações movidas a gás natural têm um custo ambiental elevado.

“Você não pode se posicionar como líder na questão climática e, ao mesmo tempo, construir instalações movidas a combustíveis fósseis que emitem milhões de toneladas de poluição e afetam a saúde de quem vive ao redor”, acrescentou Kitchin.

Em resposta a um pedido de comentário sobre as estimativas de emissões e como o projeto se alinha às metas climáticas, um porta-voz da empresa disse à Fast Company que a carta de intenções com a Nscale “representa nosso investimento na expansão da capacidade computacional para inteligência artificial".

"À medida que ampliamos nossa infraestrutura de nuvem e IA para atender à demanda de curto e longo prazo, adotamos uma abordagem diversificada de energia, utilizando diferentes fontes conforme as condições locais, a prontidão da rede e nossos objetivos de longo prazo”, diz o comunicado.

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O porta-voz acrescentou: “essa abordagem flexível nos permite colocar capacidade em operação mais rapidamente, garantir confiabilidade e reduzir a pressão sobre as redes locais, enquanto seguimos investindo em eficiência e em energia livre de carbono para o futuro.”


SOBRE A AUTORA

Kristin Toussaint é editora assistente da editoria de Impacto da Fast Company. saiba mais