Novo processo contra Meta questiona privacidade de óculos de IA após funcionários acessarem vídeos íntimos de usuários

O processo também inclui a Luxottica of America, parceira da Meta na fabricação dos óculos inteligentes

Símbolo da Meta
Créditos: Freepik

Joyce Canelle 3 minutos de leitura

A Meta passou a enfrentar um novo processo coletivo nos Estados Unidos após denúncias de que imagens gravadas por seus óculos inteligentes com Inteligência Artificial (IA) foram analisadas por trabalhadores terceirizados, incluindo registros de nudez, relações sexuais e pessoas usando o banheiro.

A ação foi apresentada depois que reportagens de jornais suecos revelaram que funcionários de uma empresa contratada no Quênia tiveram acesso ao material captado pelos dispositivos, levantando preocupações sobre privacidade e transparência no uso da tecnologia.

O processo foi apresentado por Gina Bartone, de Nova Jersey, e Mateo Canu, da Califórnia. Eles afirmam que confiaram nas promessas de privacidade divulgadas pela Meta ao comprar os óculos inteligentes.

A ação sustenta que a empresa teria violado leis de proteção ao consumidor ao promover o produto com mensagens que destacavam segurança e controle dos dados, segundo o portal Tech Crunch.

Segundo os autores, anúncios do dispositivo afirmavam que o produto foi “projetado para privacidade” e que os usuários estariam no controle das informações captadas. Na prática, porém, as imagens registradas pelos óculos teriam sido inseridas em sistemas de análise e avaliadas por trabalhadores externos para treinamento e aprimoramento da tecnologia.

O processo também inclui a Luxottica of America, parceira da Meta na fabricação dos óculos inteligentes.

INVESTIGAÇÃO SOBRE REVISÃO DE IMAGENS

As suspeitas ganharam força após reportagens apontarem que funcionários de uma subcontratada no Quênia revisavam imagens gravadas pelos dispositivos. Entre os conteúdos analisados estariam situações íntimas, incluindo nudez e momentos privados captados no dia a dia dos usuários.

A Meta informou anteriormente que aplica técnicas de desfoque em rostos e outros elementos de identificação nas imagens. No entanto, fontes ouvidas nas reportagens indicaram que esse mecanismo nem sempre funcionaria de forma consistente.

Homem negro usando óculos da Meta
Crédito: imagem criada com auxílio de IA via ChatGPT.

A divulgação dessas informações levou o órgão regulador britânico de proteção de dados, o Information Commissioner’s Office, a iniciar uma investigação sobre o tema.

QUESTIONAMENTOS SOBRE O MARKETING DO PRODUTO

Um dos pontos centrais da ação judicial envolve a forma como os óculos foram divulgados ao público. Os autores afirmam que a publicidade destacava recursos de proteção de dados e sugeria que o usuário poderia controlar totalmente o compartilhamento das imagens captadas.

Segundo a denúncia, não haveria aviso claro informando que o conteúdo poderia ser revisado por pessoas fora da empresa, inclusive em outros países.

O escritório Clarkson Law Firm, responsável pelo processo, argumenta que a diferença entre a comunicação publicitária e o funcionamento real do sistema pode ter levado consumidores ao erro.

POSIÇÃO DA META

A Meta informou que o conteúdo captado pelos óculos permanece no próprio dispositivo do usuário, a menos que a pessoa escolha compartilhar o material com os serviços de IA da empresa ou com terceiros.

De acordo com a companhia, quando esse compartilhamento ocorre, alguns dados podem ser analisados por revisores humanos contratados para melhorar o desempenho da tecnologia.

A empresa afirma que esse procedimento é comum na indústria de tecnologia e que existem mecanismos para reduzir a exposição de informações sensíveis. A empresa também declarou que aplica filtros para proteger a privacidade e impedir que dados capazes de identificar pessoas sejam avaliados durante essas análises.

MERCADO E POLÊMICA EM TORNO DOS DISPOSITIVOS

O caso surge em um momento de expansão do mercado de dispositivos equipados com IA e sensores capazes de registrar o ambiente ao redor do usuário. Os óculos inteligentes da Meta estão entre os produtos mais populares dessa categoria.

Estimativas citadas no processo indicam que mais de sete milhões de unidades já foram vendidas até 2025.

Ao mesmo tempo, o crescimento dessas tecnologias tem provocado debates sobre vigilância e proteção de dados. Aparelhos capazes de gravar continuamente o ambiente podem gerar riscos de exposição involuntária de informações pessoais, tanto dos usuários quanto das pessoas ao redor.

O desdobramento da nova ação judicial deve aprofundar esse debate sobre privacidade e responsabilidade das empresas, como a Meta, no desenvolvimento de dispositivos baseados em IA.


SOBRE O(A) AUTOR(A)

Bacharel em Jornalismo, com trajetória em redação, assessoria de imprensa e rádio, comprometida com a comunicação eficiente e a produç... saiba mais