Novos atritos: a entrada da IA nas relações de trabalho

Como o uso individual das ferramentas mexe na cultura organizacional

inteligência artificial nas relações de trabalho
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Clara Cecchini 6 minutos de leitura

Setenta e quatro por cento dos brasileiros trabalham em parceria com assistentes de IA, segundo a pesquisa “Work: In Progress: Descobertas de como a IA está transformando o Trabalho”, divulgada pelo Google Cloud.

Portanto, mesmo que o uso seja individual, seu impacto é amplo, tornando-se necessário ter atenção à emergente criação de uma cultura de tecno-performance: um cenário em que a produtividade pessoal dispara em detrimento da coesão coletiva.

Uma tecnologia transversal traz desafios de diferentes naturezas, que os especialistas tentam simplificar para nós, os leigos: “uma coisa é usar a IA como assistente pessoal; outra, é incorporá-la aos processos de negócio.”

Está bem. Mas acredito que já dá para vislumbrar uma terceira “coisa”: a entrada da IA nos processos coletivos de trabalho e seus impactos na cultura corporativa.

Vivenciando dinâmicas de times nos quais as pessoas estão usando a IA como assistente pessoal, seja ela homologada pela empresa ou não, é possível observar que novos atritos emergem.

A ferramenta amplifica problemas de comunicação, divergências sobre método de trabalho e atritos de relacionamento que já estavam latentes, mas são revelados pela eficiência que cada pessoa ganha para colocar a sua perspectiva para o jogo.

Um estudo longitudinal da Carnegie Mellon (2025) traz uma análise interessante sobre a entrada da IA em processos colaborativos. Os pesquisadores acompanharam por dois anos um grupo de 15 especialistas seniores (média de16 anos de carreira) de uma organização de software totalmente remota que atua por projetos modulares.

Esse grupo tem alta fluência em tecnologia e adotou cedo as ferramentas de IA, o que elimina a dificuldade com a ferramenta em si como bloqueio ao funcionamento da dinâmica dos times.

substituição de trabalhadores por IA
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Segundo os pesquisadores, a expectativa inicial do grupo, baseada no imaginário sociotécnico dos participantes, era que a IA atuasse como um "coordenador inteligente" e mediador social.

Esperava-se que ela resolvesse problemas crônicos de colaboração, como o alinhamento de projetos, o rastreamento de progresso e a redução de atritos interpessoais. Mas não foi isso que aconteceu.

Em vez de ajudar o grupo, ela foi "domesticada" como uma ferramenta de produtividade individual (para codificar e escrever mais rápido). As falhas de comunicação e a dificuldade de coordenação persistiram. A IA não "consertou" o trabalho em equipe, mas alterou a cultura colaborativa.

Leia mais: A guerra dos assistentes de IA: quem vai controlar sua atenção?

Ela criou um ambiente de "tecno-performance", no qual a eficiência acelerada e o uso transparente da tecnologia tornaram-se as novas normas profissionais, aumentando a pressão individual sem melhorar a coesão do grupo. Essa cultura de “tecno-performance” trouxe consigo alguns novos atritos, mapeados pelos pesquisadores:

  • Aceleração do trabalho (e da pressão): como o tempo para execução das tarefas diminuiu com o uso individual da IA, as expectativas dos gestores inflaram. A eficiência deixou de ser um diferencial para ser regra, gerando uma pressão constante para manter alta velocidade.
  • Fronteiras atenuadas das funções e “ciúmes”: a IA possibilitou que profissionais não técnicos desenvolvessem código, fazendo com que os designers se tornassem mais independentes dos engenheiros para realizar testes e avançar no projeto. Isso desequilibrou a dinâmica anterior do time.
  • Autocompetência isolada: ao tornar os indivíduos mais autossuficientes, a necessidade de cooperação diminuiu, o que acabou por fragilizar relações e impactar na qualidade do trabalho da equipe.

Esses aprendizados podem funcionar como alertas para qualquer tipo de time no qual a IA entra como acompanhante de cada participante humano. Além desses, deixo mais três novos atritos que mapeei a partir da minha própria experiência e observação:

1. O chefe que acha que sabe

Líderes que já tendem a subestimar a complexidade do trabalho ganharam uma arma poderosa. A sensação ilusória de competência é amplificada quando a resposta da máquina parece perfeita, escondendo as nuances que só o especialista humano percebe.

Já aconteceu comigo: em um projeto de alta complexidade, recebi um passo a passo feito pelo ChatGPT dizendo como dar conta de tudo de forma fácil, com a mensagem oculta “não exagera!”.

Para um não especialista, o passo a passo da IA parece coerente. Para quem domina a atividade, ficam evidentes a generalização e a simplificação rasa da proposta da ferramenta. É como se o efeito Dunning-Krugger fosse anabolizado por prompts.

Aprendizado: usar a IA para simplificar a complexidade do trabalho dos outros não é gestão eficiente; é arrogância assistida.

2. O apressado que adora atalhos

Processos cocriativos em times diversos, nos quais a inteligência coletiva é acionada, são essenciais para inovar. Eles são eficazes, mas nem sempre eficientes no sentido linear. As realizações acontecem em saltos, depois de curvas de discussão e dúvida.

A tentação de chamar “o chat” para pular esses momentos de tensão transforma a possibilidade de criar algo novo em uma saída pasteurizada, que desperdiça a riqueza da cocriação.

Aprendizado: Em processos de inovação, usar a IA para pular o desconforto da dúvida é a receita perfeita para a mediocridade pasteurizada.

3. Relações de poder disfarçadas de tecnicidade

Isso acontece quando alguém que tem poder sobre você usa um argumento "técnico" para fazer prevalecer uma imposição.

Em uma negociação comercial com uma grande organização, na qual eu era o elo mais fraco, precisei sustentar uma sucessiva troca de e-mails com uma área de compras que questionava tecnicamente a minha proposta para tentar baixar meu preço. Textos claramente feitos por IA, facílimos de responder, mas que escondem uma relação autoritária.

Aprendizado: a polidez sintética de um texto gerado por IA tornou-se o novo disfarce perfeito para a imposição autoritária.

Claro que esses atritos são essencialmente humanos. Mas a tecnologia amplifica e cria novos pontos de contato, intensificando conflitos e desequilíbrios – e aqui entra a urgência de olhar para a cultura organizacional.

Mesmo que o uso esteja sendo feito de forma extraoficial, as ferramentas de IA já estão entre nós. É urgente passar a considerar seus impactos nas relações e nos coletivos, para além do uso individual.

Em vez de ajudar o grupo, a IA foi "domesticada" como uma ferramenta de produtividade individual.

A IA pode reforçar características culturais que precisam ser superadas, como a habilidade de falar bonito e não chegar ao ponto, não encarar o conflito necessário. Pode reforçar práticas que estão adoecendo as pessoas, como a exigência da hiper performance. Pode empobrecer processos cocriativos.

A IA pode fazer o contrário disso tudo? Pode. Mas isso exige que encaremos a grande contradição do nosso tempo: as mudanças comportamentais hoje são muito mais aceleradas do que as instituições são capazes de acompanhar.

Se não houver intencionalidade clara para gerir esse descompasso, a "tecno-performance" continuará sendo apenas um nome moderno para velhos problemas de gestão.

Texto escrito por humana com ajuda da IA. Perplexity AI para localizar fontes, NotebookLM para analisá-las e Gemini para receber feedbacks sobre o texto.


SOBRE A AUTORA

Clara Cecchini é especialista em aprendizagem organizacional, consultora, escritora e palestrante, além de coautora do livro "Aprendiz... saiba mais