O app de namoro para quem odeia apps de namoro

O fundador do Hinge criou o aplicativo pensando em gerar conexões mais profundas. Agora, prepara-o para a nova era dos relacionamentos

aplicativo de namoro Hinge
Créditos: akinbostanci/ Logvinart/ Getty Images

Yasmin Gagne 6 minutos de leitura

Sentado diante de uma mesa de centro em seu escritório em Nova York, cercado por convites de casamento emoldurados nas paredes, Justin McLeod está preocupado com a inteligência artificial.

Mais especificamente, o fundador e CEO do aplicativo de namoro Hinge teme que seus usuários – muitos dos quais o convidaram para seus casamentos ao longo dos anos – acabem se apaixonando pela tecnologia, em vez de uns pelos outros.

McLeod passou a maior parte dos últimos 15 anos estudando a dinâmica dos relacionamentos humanos, incluindo o que faz uma pessoa se apaixonar por outra, e percebeu que os chatbots oferecem exatamente o que muita gente deseja.

“Por que eu investiria em relacionamentos humanos difíceis, com pessoas que nem sempre estão disponíveis ou que podem me rejeitar, quando posso conversar com algo que está aqui, sempre presente, e que sempre vai dizer a coisa certa?”, ele se pergunta.

Os chatbots ainda não estão virando os apps de namoro de cabeça para baixo, mas alguma coisa com certeza está. O Bumble perdeu 460 mil usuários pagantes desde o fim de 2024. O Tinder, por sua vez, já perdeu mais de 1,5 milhão de assinantes desde o pico alcançado em 2022.

Mas um aplicativo foge à regra. O Hinge, que tem 15 milhões de usuários ativos mensais, viu sua base de pagantes crescer 17% na comparação anual, chegando a 1,87 milhão no terceiro trimestre de 2025.

Os concorrentes do Hinge enfrentam problemas criados por eles mesmos. O primeiro foi a busca agressiva por usuários, priorizando quantidade em detrimento da qualidade, o que degradou a experiência geral de muitos aplicativos de namoro.

Ao mesmo tempo, a fiscalização frouxa de perfis falsos e bots, combinada com aumentos de preço em recursos cada vez mais importantes, forçou os usuários a pagar cada vez mais para encontrar combinações minimamente decentes. As pessoas estão cansadas de rolar a tela infinitamente, gastar dinheiro e não chegar a encontros de verdade.

A HORA E A VEZ DA GERAÇÃO Z

Agora surge uma nova geração de usuários com uma abordagem completamente diferente para o namoro, colocando em risco aplicativos que não evoluírem. As relações da geração Z são cada vez mais mediadas – e até definidas – por telas. Eles ainda usam apps de namoro, mas com desconfiança.

A geração Z “estabeleceu um padrão mais alto”, disse Steven Bailey, CFO do Match Group (dono do Hinge e doTinder), durante a conferência Tecnologia, Mídia e Telecomunicações, do Morgan Stanley, em março. “Eles querem que [os apps de namoro] sejam seguros, eficazes e que entreguem os resultados que procuram”, afirmou.

o Hinge exige que os usuários publiquem pelo menos 4 fotos e respondam a no mínimo 3 perguntas sobre si mesmos.

O Hinge, porém, continuou crescendo porque se manteve fiel à sua promessa: só tem sucesso se os usuários acabarem deletando o app. “Queremos que as pessoas se encontrem e encontrem o amor pessoalmente”, explica McLeod. Parece óbvio, mas, no universo dos apps de namoro, isso nem sempre foi prioridade.

Enquanto outros aplicativos priorizavam facilidade de uso – aquele scroll sem fim – em vez de resultados, McLeod continuou obstinadamente focado em criar formas de tirar seus usuários do digital e levá-los a encontros reais, mesmo que isso significasse introduzir atritos na experiência.

Agora, o Hinge se prepara para sua próxima fase. Em dezembro, McLeod anunciou que deixaria o cargo de CEO para lançar a Overtone, um serviço de namoro baseado em IA com apoio do Match Group. A nova CEO do Hunge, a ex-diretora de marketing Jackie Jantos, assume em março.

INCENTIVANDO O "RISCO EMOCIONAL"

O Hinge vem lançando um conjunto de recursos baseados em IA para atrair usuários com habilidades sociais mais enferrujadas (cof, cof, geração Z). Também está levando seu algoritmo de compatibilidade a outro nível, extraindo ainda mais informações dos usuários para personalizar e refinar as sugestões do aplicativo.

A ideia é clara: para evitar que as pessoas se apaixonem por chatbots, o Hinge está combatendo a IA com IA e tentando projetar algo inegavelmente humano: uma história de amor bagunçada e autêntica.

Uma década atrás, quando Tinder, Bumble e outros apps de namoro se orientavam pelo engajamento – tornando a experiência viciante, mas os resultados duvidosos –, McLeod traçou uma estratégia diferente, focada em incentivar o risco emocional.

inteligência artificial em aplicativos de namoro
Crédito: Freepik

Ele passou a exigir mais esforço dos usuários no cadastro e a criar, de propósito, obstáculos ao longo do caminho. Tudo para fazer as pessoas se abrirem de verdade, não apenas deslizar pela tela buscando perfis.

Hoje, o Hinge exige que os usuários publiquem pelo menos quatro fotos e respondam a no mínimo três perguntas sobre si mesmos. O processo foi pensado para desacelerar, levar as pessoas a refletir sobre o que realmente querem e apresentar um perfil menos filtrado.

Segundo McLeod, o aplicativo propõe tarefas que “sinalizam um nível de intenção e criam um grau de vulnerabilidade capaz de gerar conexão real entre duas pessoas”.

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O cadastro mais longo fez diferença: o Hinge descobriu que os usuários têm 47% mais chances de ir a encontros quando interagem com as respostas escritas do perfil de alguém, em vez de apenas com as fotos.

No ano passado, o Hinge introduziu mais um obstáculo – um recurso chamado Your Turn Limits – para reduzir o ghosting. Agora, usuários com muitas mensagens sem resposta precisam responder ou encerrar a conversa antes de voltar a buscar perfis.

A empresa também dá empurrõezinhos gentis para fora do mundo digital: sua IA convida os usuários a marcar um encontro quando eles estão conversando há algumas semanas e parecem compatíveis, com base no conteúdo das trocas.

O Hinge ainda usa IA para analisar o conteúdo das mensagens e envia um alerta para confirmar com o usuário antes que ele envie algo que possa ser mal recebido.

IA DÁ UM EMPURRÃOZINHO

Tudo isso soa muito… millennial. Mas o novo desafio do aplicativo é ajudar os usuários da geração Z – que representam 56% da base total – a enxergar valor na plataforma.

Segundo Jantos, esses usuários tendem a se sentir desconfortáveis com conversas casuais e a prestar atenção demais à “linguagem corporal digital”. “Há muita interpretação da velocidade com que alguém responde, do tamanho das mensagens e do tipo de emojis e pontuação usados”, diz ela.

aplicativo de namoro

Apesar do receio de que a IA atrapalhe encontros reais, McLeod vem adotando a tecnologia para melhorar as chances dos usuários. Em janeiro, o Hinge lançou uma ferramenta de coaching baseada em IA para ajudar a refinar perfis.

Em vez de apenas pedir que o usuário digite uma resposta para uma pergunta do perfil, um chatbot pode agora “entrevistar” a pessoa. Se alguém diz que gosta de viajar, por exemplo, a IA pode pedir que conte sua melhor história de viagem para incluir no perfil. Essas entrevistas têm um segundo propósito: ajudar a aprimorar o algoritmo de compatibilidade.

Antes da IA generativa, o algoritmo do Hinge considerava principalmente os perfis curtidos pelos usuários e tentava mostrar opções semelhantes, mas não entendia de fato o motivo das preferências. Agora, diz McLeod, o sistema consegue analisar o conteúdo do perfil para entregar combinações melhores.

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“Ele leva em conta o que você disse, o que a outra pessoa disse, suas respostas, suas fotos, e usa tudo isso para prever se você pode gostar de alguém”, explica. “Não precisa mais esperar você dar uma infinidade de likes para aprender o seu gosto.”

“Sabemos que há muitas pessoas em busca de relacionamentos, especialmente agora, quando sentimentos de isolamento e solidão estão mais intensos do que nunca”, diz Jantos. “Vejo mais inovação nessa categoria, no fim das contas, como algo positivo.”


SOBRE A AUTORA

Yasmin Gagne é escritora e redatora da Fast Company. saiba mais