O metaverso não será brasileiro. Mas a web3 poderá ser

Para Ronaldo Lemos, do ITS, temos mais chance de ser competitivos com tecnologias livres e que não demandem infraestrutura pesada

Crédito: Divulgação/ Joel Filipe/ Unsplash

Camila de Lira 8 minutos de leitura

Qual o papel do Brasil na inovação mundial? Talvez apenas de audiência para os grandes players. A visão de Ronaldo Lemos, advogado, professor e chief scientist officer do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), pode não agradar a muitos. Mas dá o sinal de alerta sobre os principais desafios que o país precisa enfrentar para ser protagonista da economia do conhecimento. 

O primeiro lugar de cuidado é o metaverso, que depende de infraestrutura e capacidade de processamento. “Dificilmente vamos participar dessas infraestruturas. Os servidores que rodam o metaverso não estarão majoritariamente no Brasil”, explica o especialista, um dos principais articuladores do Marco Civil da Internet. 

Do outro lado, a web3, “nova geração” da internet, pode trazer oportunidades reais de crescimento. A preocupação também recai sobre os sistemas de inteligência artificial, que dependem de infraestruturas e redes de dados que não estão localizadas no país. 

“Precisamos urgentemente de um plano nacional de inteligência artificial”, diz Lemos, que foi um dos primeiros 20 membros do Conselho de Supervisão do Facebook e é presidente da Comissão de Tecnologia e Inovação da regional São Paulo da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP).

Nesta entrevista, o especialista fala ainda sobre o ritmo da implantação do 5G no Brasil e sobre as reais oportunidades que pode trazer para o país a mudança da economia do conteúdo para a economia do conhecimento.

Qual é a sua visão de inovação? O que pode ser classificado como verdadeiramente inovador?

Gosto de pensar inovação como o processo de transição para a economia do conhecimento. Em outras palavras, incluir conhecimento e inovação cada vez mais como fonte primária para geração de riqueza. Acho que pensar assim é mais interessante e prático do que discutir conceitos teóricos de como a inovação se define.

Quais são as questões mais urgentes com as quais a sociedade precisa lidar e como a tecnologia pode ajudar?

No contexto do Brasil, nosso desafio é participar cada vez

Precisamos começar a viver das ideias, daquilo que vem de dentro das nossas cabeças. A tecnologia é fator essencial para isso.

mais da economia do conhecimento. Vivemos muito da natureza e somos, inclusive, competitivos nessa área, seja no agro ou na mineração. Mas não é suficiente. Precisamos começar a viver das ideias, daquilo que vem de dentro das nossas cabeças. A tecnologia é fator essencial para isso, especialmente porque ampliou o acesso à informação e a possibilidade de se trabalhar em rede, cooperando e competindo a partir de dinâmicas novas. Temos aproveitado muito pouco as oportunidades que isso traz para o país.

Por outro lado, a tecnologia criou questões urgentes para a sociedade tratar. Como lidar com elas?

A tecnologia traz sempre oportunidades e desafios. Os desafios são gratuitos, inevitáveis. Você não precisa fazer nada, eles vão se apresentar de qualquer forma. As oportunidades, não. Para serem aproveitadas, é preciso investir, planejar, saber onde se quer chegar. Infelizmente, estamos ficando mais com os desafios do que com as oportunidades.

Claro que a tecnologia tem trazido movimentos importantíssimos para o país, como a revolução das fintechs, dos meios de pagamento, com o Pix e na própria agricultura, com a incorporação de tecnologias de inteligência e precisão. Mas tudo ainda é tímido e aquém do que o país poderia fazer.

Afinal de contas, o que é o metaverso e o que ele poderá trazer de bom para a sociedade? 

O metaverso é um tempo, não um lugar. É um tempo em que o que acontece no mundo digital é mais importante do que a própria realidade. Ele acontece nas plataformas, que conseguem ganhar tanta importância nas nossas vidas que passam a competir – e até a superar – a importância que damos à própria realidade. 

Esses metaversos estão em construção. Para adultos, ainda são raros. Mas, para crianças, são muito comuns. As que usam plataformas como o Roblox sabem o que é. Há milhões de crianças no mundo todo, inclusive no Brasil, que já estão no metaverso.

Que aspectos duvidosos e/ou negativos você enxerga nas possibilidades do metaverso? 

A questão que mais me preocupa é ele limitar ainda mais a

O metaverso é um tempo em que o que acontece no mundo digital é mais importante do que a própria realidade.

possibilidade de o Brasil participar da economia do conhecimento. As pessoas pensam no metaverso só do ponto de vista do conteúdo. Mas é uma infraestrutura complexa, cheia de camadas. Depende, por exemplo, de uma boa conexão de internet. De servidores e capacidade de processamento enormes. De vários bancos de código de programação caros e de difícil acesso.

Dificilmente o Brasil vai participar dessas infraestruturas. Os servidores que rodam o metaverso não estarão majoritariamente aqui. As bibliotecas de código que criam o metaverso não serão brasileiras. Que parte nos cabe então? Só a camada superior, de aplicações? Não é suficiente. 

Onde estão os maiores gaps regulatórios da internet?

São muitas questões. De qual internet estamos falando? Um dos principais problemas é que a internet está se fragmentando. Vários lugares na Ásia e no Oriente Médio têm dinâmicas próprias, inclusive fechadas e de controle. A mesma coisa está acontecendo na Rússia. Que tipo de esforço regulatório é capaz de se contrapor a isso? Praticamente nenhum, pois isso deriva de um contexto geopolítico maior. 

Várias iniciativas surgiram para tentar criar um modelo de governança para a rede. O Internet Governance Forum (IGF) da ONU, o Netmundial, entre outras. Todas falharam. Com isso, o alcance regulatório hoje é regional e também dependente de contextos locais. 

A legislação de privacidade da Europa é um exemplo. É um dos modelos regulatórios mais bem-sucedidos em termos de adoção por vários países. Mas é sempre difícil reproduzir esse mesmo alcance com modelos regionais.

O que podemos esperar do futuro da inteligência artificial, na medida em que ela é uma criação humana e frequentemente repete nossos vieses?

Precisamos de um plano que organize a política nacional de dados e que seja um caminho para fomentar a inovação e o desenvolvimento.

Me preocupo mais com as falhas e problemas da IA do que com seus sucessos. O problema é ela fornecer soluções que são apenas parcialmente boas. Nesse sentido, substitui o trabalho humano por uma alternativa pior. Além disso, o mesmo problema do metaverso se coloca para o Brasil. A inteligência artificial é sempre dependente de uma infraestrutura complexa de hardware, dados e software. Qual papel nos caberá?

Precisamos urgentemente de um plano nacional de inteligência artificial. Em hardware e software vai ser difícil ser competitivo no curto prazo, mas em dados é possível. O país precisa de um plano que organize sua política nacional de dados e que seja um caminho para fomentar a inovação e o desenvolvimento.

Existe uma discussão na Europa sobre regular e supervisionar a inteligência artificial. Qual a sua opinião? 

Importante. É preciso criar métricas para avaliar as decisões tomadas por inteligência artificial. O Instituto Alan Turing, na Inglaterra, por exemplo, tem feito um bom trabalho nesse sentido. Mas não dá para ficar só na camada dos resultados da IA. É preciso entender sua infraestrutura, seu stack [conjunto de tecnologias usadas para criar aplicações]. O problema regulatório é muito mais complexo.

Quais as possibilidades que se abrem com a chegada do 5G ao Brasil?

O 5G está chegando tarde. Pelo cronograma da Anatel [Agência Nacional de Telecomunicações], quando estiver prestes a chegar no interior do país, onde tem maior papel transformador, já estará em curso a implementação do 6G. Mesmo assim, o 5G é muito bem-vindo, especialmente o “puro-sangue”, o standalone [versão da rede 5G que funciona sem o suporte da rede 4G], que é o modelo que prevaleceu no Brasil 

Se conseguirmos criar uma infraestrutura nacional de 5G standalone, isso pode criar oportunidades de saltos muito grandes, inclusive na administração das cidades, parques industriais e assim por diante. Mas tem de ficar de olho para ver se o 5G standalone será implantado mesmo, conforme foi prometido.

Que oportunidades traz a web3 e como pensar em regulamentação para ela?

É preciso criar métricas para avaliar as decisões tomadas por inteligência artificial.

Acho que o Brasil pode ser mais competitivo na web3 do que no metaverso. Ela utiliza tecnologias que não precisam de permissão, como blockchains públicas e abertas. Não depende de infraestruturas altamente caras e complexas, nem de bibliotecas de código inacessíveis. Hoje, um pequeno empreendedor tem muito mais chances de ser competitivo em criar um modelo de impacto na web3 do que em cima de outras tecnologias proprietárias. É uma área que merece atenção.

A que você atribui a onda de demissões nas startups no mundo todo? O modelo dos unicórnios “caiu”?

Tem a frase clássica: “é a economia, estúpido”. Nos últimos meses, o mundo mudou, do ponto de vista econômico. O dinheiro fácil secou, os juros subiram e isso limita um determinado tipo de modelo de empreendedorismo. 

Mas é também nas crises que coisas interessantes acontecem. O estouro da primeira bolha das empresas de tecnologia, no início dos anos 2000, levou ao surgimento da Wikipedia, de modelos de software livre e aberto – inclusive do Android, que, por sua vez, criou toda uma indústria de hardware em cima dele. Essa crise atual pode gerar ideias e modelos interessantes.


SOBRE A AUTORA

Jornalista formada pela ECA-USP, early adopter de tecnologias (e curiosa nata) e especializada em storytelling para negócios. saiba mais