O otimista sempre vence no final?
O Brasil está na vanguarda da regulação das big techs, mas precisa se fortalecer para implementar as mudanças que julga necessárias

A Meta anunciou nesta quarta-feira (26 de agosto) um acordo de US$ 16,7 bilhões por um processo movido por 29 estados norte-americanos (junto a outros processos individuais que ampliaram o escopo para 48 estados e jurisdições).
Ou seja, quase o país inteiro (os EUA tem 50 estados) processou a gigante das redes sociais, sob a acusação de estar viciando crianças e ocultar provas.
Três fatos interessam aqui:
Primeiro, o fato de que a discussão geral gira em torno de certos mecanismos de design nas plataformas e sua interferência no livre arbítrio, em vez de se limitar à discussão da liberdade de expressão.
Segundo, o fato de que a Meta parecia saber que ia perder e entrou em acordo com a acusação. Algo de certa forma previsível, não só porque ela perdeu um processo anterior sob as mesmas acusações, ou pela quantidade de whistleblowers e pelo teor de documentos vazados, como também alegações de ex-funcionários.
O próprio Sean Parker, primeiro presidente do Facebook já falou publicamente (em 2017, nove anos atrás!) sobre isso em um tom misto de deboche, orgulho e surpresa por estar livre.
“Só Deus sabe o que isso está fazendo com as mentes de nossas crianças", disse Parker. "O processo de pensamento na criação destes aplicativos, Facebook sendo o primeiro deles, era: como podemos consumir o máximo do seu tempo e atenção consciente possível?"
E continuou: "isso significa que precisamos dar uma dosezinha de dopamina de vez em quando (...) É o tipo de coisa que um hacker como eu pensaria, porque estamos explorando uma vulnerabilidade na psicologia humana (...) Os inventores, eu, o Mark [Zuckerberg], o Kevin Systrom no Instragam, todos nós entendíamos isso conscientemente, e fizemos mesmo assim.”
Difícil se defender depois dessa, não?
Em terceiro lugar, temos o fato de que as ações da Meta subiram após o acordo. Ou seja, o mercado estava esperando que a empresa perdesse e que a perda fosse muito maior.
Os dois primeiros fatos apontam para um futuro um pouco mais promissor. Um no qual a discussão é um pouco mais amadurecida e temos argumentos incontestáveis. Há um precedente instaurado e nada impede que mais cidadãos comecem litígios. Já o terceiro fato não me alegra tanto.
DESIGN VICIANTE
Primeiro, vamos ao valor: o potencial da ação estava em US$ 1,4 trilhões (com T), praticamente o valor de mercado da empresa. Estimativas um pouco mais realistas avaliavam que a multa terminaria em US$ 200 bilhões, perto do valor que a indústria do tabaco teve que pagar em 1998.
O acordo foi de US$ 16,7 bilhões, aproximadamente 8% do faturamento da Meta em 2025, mas que pode ser pago parceladamente em 10 anos. Não à toa os acionistas comemoraram.
Em termos de mudanças de design que a empresa cedeu, temos:
- Duas horas para uso de crianças e adolescentes no Instagram e Facebook
- Bloqueio de apps entre meia-noite e 6h da manhã
- Restrição de notificações durante madrugada e período escolar
- Possibilidade de escolher um feed não personalizado por algoritmos
- Reprodução automática de vídeos desativada por padrão
- Desativação dos filtros de beleza
Todas estas medidas só se aplicam a menores de 18 anos, podem ser desativados pelos pais – e a Meta tem 10 anos para aplicar isso. Ou seja, se seu filho tem oito anos de idade hoje, pode nunca viver o fruto desta mudança.
As mudanças, como o valor da penalidade, ficaram muito aquém do esperado. Existem muitas outras técnicas de design consideradas viciantes que permanecem nas plataformas (até os conteúdos de tempo limitado, como “stories”, que faziam parte da ação).
O Um Minuto de sua Atenção aponta 11 principais técnicas como viciantes, as inclusas na ação, e algumas adicionais:




Se retiradas, com muita probabilidade a saúde mental e experiência dos bilhões de usuários seria bem melhor.
ALCANCE REDUZIDO
Resta uma contradição no resultado desse acordo: a existência da ação e do pedido de acordo acabam logicamente deduzindo que, sim, essas técnicas de design são feitas para viciar e não precisam estar na plataforma (apesar de a Meta ainda não assumir isso explicitamente).
Se este é o caso, por que isso só está valendo para os menores de idade? Sabemos dos prejuízos a usuários de todas as idades (duvido que você nunca passou mais tempo do que gostaria nas redes!), inclusive com um impacto bem intenso entre os mais idosos. Se está lá justamente para viciar, por que não tirar de todos de uma vez?
Parece desnecessário ter essa cautela somente com os mais novos, ainda mais por acarretar uma camada adicional de dificuldade técnica para ser implementada se vale só para certos usuários.
As mudanças ficaram muito aquém do esperado. Há muitas outras técnicas de design viciante que continuam nas plataformas.
A vontade que fica é que os promotores tivessem sido mais duros, dado o tamanho do problema e a velocidade em que ele se agrava e se transfigura.
O cenário todo está mudando rapidamente. Desde 2023 o uso das redes sociais vem caindo, mas as empresas estão se adaptando e algo diferente está surgindo. Teremos que dar muita atenção aos chatbots de IA, que têm suas próprias questões de design manipulativo e que tentam aflorar uma “intimidade sintética”, uma dependência emocional e cognitiva com o usuário.
O próprio Mark Zuckerberg falou sobre como ele acredita no futuro disso. A China já se antecipou, proibindo este tipo de laço emocional com IAs.
Essas plataformas têm um potencial de dano muito maior do que as redes sociais: se antes elas lucravam bastante intermediando a relação entre melhores amigos, o que ocorre quando a empresa for o seu melhor amigo? É um futuro que anima estes empresários.
O LADO POSITIVO
Caso eu esteja te entristecendo com este artigo, agora vem a luz no final do texto.
Um ponto interessante do acordo é que 30% do valor está condicionado ao TikTok e YouTube também serem submetidos a regras similares. Isso porque, se só a Meta aplicar essas mudanças, os outros ganham mercado.
É um argumento muito similar ao que ocorre na corrida da IA, ou corrida na armamentista da Guerra Fria: “eu preciso me armar rápido, pois senão o meu competidor tem a vantagem.”
Com essa pressão do processo, o discurso se inverte: eu paro, e te ajudo a parar o meu concorrente também. No fim, todos agradecem.
Isso mostra como as empresas entram em um ciclo vicioso quando competem por nossa atenção, mas, ao serem regulamentadas, o ciclo vira virtuoso pois a Meta exige que suas concorrentes também melhorem. Espero que esta esteja só começando, e não somente nos EUA, mas no mundo todo.
No Brasil, já temos o ECA Digital – o Estatuto da Criança e do Adolescente no ambiente digital –, que já vislumbra algumas das limitações de design manipulativo que o processo nos EUA alegava. Mas, aqui, o argumento das big techs fera que essas mudanças eram “inviáveis”, algo que foi rapidamente descreditado com o acordo no hemisfério norte.
Isso mostra como o Brasil está, de certa forma, na vanguarda em termos de pensamento. O país precisa se fortalecer para implementar as mudanças que acredita e não deixar essas empresas nos desrespeitarem por se tratar de um país de “terceiro mundo”.
Quando se trata de vício, especialmente em crianças, tanto a esquerda quanto a direita têm catalisado esforços. Isso tanto nos EUA, com o apoio bipartidário entre democratas e republicanos, quanto no Brasil, com o exemplo da lei que determina a retirada de celulares em escolas.
Com o discurso alinhado em torno de técnicas de design que causam vício (um problema que chamamos de extrativismo de atenção), com as empresas acuadas sem muitos argumentos, com a possibilidade/ probabilidade de novos processos e uma união entre diferentes espectros da política – apesar de um acordo mixuruca –, acredito que tudo pode conspirar para uma grande virada de maré.
Pensando bem, talvez eu esteja otimista, mesmo.