O que acontece com a menstruação no espaço? Duas engenheiras vão descobrir
Pesquisa pretende medir o fluxo menstrual e a absorção de produtos de higiene para preparar missões mais longas à Lua e, futuramente, a Marte

Aparentemente, chegar à órbita da Terra é muito menos misterioso do que o corpo feminino.
Em 1983, quando Sally Ride se preparava para se tornar a primeira mulher norte-americana a viajar ao espaço, um grupo formado só por engenheiros homens que a ajudava na preparação ficou famoso por perguntar se 100 absorventes internos seriam suficientes para uma missão de seis dias no ônibus espacial.
Cerca de 40 anos depois, a NASA está muito mais familiarizada com as questões das mulheres, mas pouco avançou nos estudos sobre menstruação no espaço.
A física e engenheira aeroespacial Manju Bangalore, de 28 anos, espera mudar isso no ano que vem, quando ela e a também engenheira aeroespacial Priya Abiram, de 22 anos, vão embarcar em um voo da Virgin Galactic para realizar o primeiro estudo formal sobre a dinâmica do fluido menstrual em microgravidade.
Até agora, a maior parte das informações disponíveis vem de observações anedóticas de astronautas. As duas engenheiras querem obter medições concretas.
“Atualmente, os dados indicam que menstruar no espaço é, em geral, seguro. Mas são dados limitados e todos qualitativos”, diz Bangalore. “Por isso, estamos conduzindo o primeiro estudo quantitativo sobre menstruação no espaço.”
Usando um fluido que reproduz as propriedades do sangue menstrual, elas planejam acompanhar tanto o comportamento do fluxo quanto a capacidade de absorção de produtos de higiene menstrual. A expectativa é que os resultados abram caminho para mais pesquisas em voos orbitais de maior duração.
Esses conjuntos de dados são necessários para a saúde das astronautas e para determinar a quantidade de produtos a ser levada em missões mais longas à planejada Base Lunar e, possivelmente, a Marte, além de ajudar a aprimorar produtos disponíveis comercialmente na Terra.
PESQUISAS SOBRE SAÚDE MENSTRUAL
O estudo amplia a atuação da organização sem fins lucrativos Operation Period, fundada por Bangalore há 11 anos, que distribui produtos de higiene menstrual a comunidades marginalizadas, promove educação sobre saúde menstrual e realiza pesquisas sobre o tema.
Bangalore, engenheira da NASA que se tornou divulgadora científica, dirige a organização como fundadora e produtora-executiva, ao lado de um grupo de voluntários da geração Z, com apoio de doadores individuais e financiadores institucionais.
A equipe está tentando levantar US$ 1,2 milhão para o voo espacial, que espera documentar em um mini documentário sobre a missão. “A cultura está mudando muito e as pessoas estão dispostas a investir em organizações sem fins lucrativos voltadas para a saúde menstrual”, diz Bangalore.

Historicamente, astronautas têm usado anticoncepcionais orais e dispositivos intrauterinos hormonais, que podem provocar efeitos colaterais que talvez se agravem no espaço.
Bangalore observa, por exemplo, que anticoncepcionais orais podem aumentar o risco de complicações cardiovasculares; dados ainda limitados sugerem que esse risco pode ser maior no espaço.
As pesquisas para quem está na Terra também não eram muito melhores. Por décadas, a falta de definições padronizadas em saúde menstrual dificultou o trabalho em ambientes clínicos e publicações científicas, enquanto fabricantes de produtos de higiene menstrual usavam solução salina para testar a capacidade de absorção dos produtos.
Em 2023, um estudo da Universidade de Saúde e Ciência do Oregon mostrou uma precisão muito maior ao utilizar sangue para diagnosticar sangramento menstrual intenso.
UMA DEMONSTRAÇÃO DE EMPATIA
A missão da Operation Period com a Virgin Galactic tem raízes nos sonhos de infância de Bangalore de viajar ao espaço e em sua consciência das desigualdades sociais. Ela cresceu na zona rural do Oregon, filha de pais que imigraram da Índia e trabalhavam com ciência agrícola.
Em comparação, sua avó materna cresceu em uma aldeia indiana onde apenas 25% da população era alfabetizada. Ela se casou aos 12 anos e se tornou mãe aos 14.
A organização sem fins lucrativos começou distribuindo produtos de higiene menstrual a comunidades marginalizadas e, aos poucos, ampliou sua atuação internacional para países como Bangladesh e Índia.
Segundo o Banco Mundial, 500 milhões de pessoas em todo o mundo não têm acesso a produtos menstruais, educação, saneamento e apoio cultural – condições que podem ter consequências de vida ou morte.
Nos últimos três anos, a Operation Period lançou o programa Youth Institute for Menstrual Freedom (Instituto Jovem para Liberdade Menstrual), uma bolsa que treina, orienta e financia jovens que querem liderar projetos semelhantes em suas comunidades.
A Operation Period agora também colabora com organizações que trabalham com questões que afetam a saúde menstrual, como mudanças climáticas, saúde mental, economia e justiça social.
“O conceito de justiça menstrual e liberdade menstrual é criar oportunidades onde elas não existiam no passado”, diz Bangalore. Ela recorre à experiência da avó para reforçar seu argumento.
“Em duas gerações, eu vou para o espaço e tenho um mestrado. Uso esse exemplo para dizer ‘olhe o que é possível quando temos os recursos, o apoio e o cuidado certos’. Não acho que seja mais inteligente do que minha avó. Então, como teria sido se tivéssemos dado a ela essas oportunidades, recursos, apoio e cuidado? Essa é a nossa missão.”