Nvidia pode comprar a “GitHub da IA”. O que acontece com os modelos abertos?

O Hugging Face é uma peça central do ecossistema de IA aberta. Uma aquisição pela Nvidia pode colocar sua neutralidade em xeque

Nvidia pode comprar Hugging Face
Créditos: Hugging Face/ Brecht Corbeel/ Giorgio Trovato/ Unsplash

Chris Stokel-Walker 5 minutos de leitura
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A Hugging Face se tornou uma das empresas mais importantes da inteligência artificial sem jamais figurar entre as mais famosas do setor.

Pergunte à maioria dos usuários de IA o que ela faz e talvez você receba um olhar vazio, ou, quem sabe, uma vaga lembrança de que a empresa esteve no centro da polêmica envolvendo o agente autônomo descontrolado da OpenAI, apenas algumas semanas atrás.

Mas pergunte a um desenvolvedor de IA e o reconhecimento será muito maior. Ele provavelmente já baixou um modelo da plataforma, fez upload de um modelo próprio, testou um sistema por lá ou usou uma de suas ferramentas.

Isso torna especialmente significativo o relato de que a Hugging Face pode ser adquirida pela Nvidia por US$ 12,9 bilhões. O negócio não foi confirmado publicamente pelas empresas e nenhuma delas respondeu imediatamente ao pedido de comentário da Fast Company.

Mas, se a transação for concretizada, ela colocará sob o controle da maior fornecedora de chips para IA do mundo o repositório de fato do setor para modelos, conjuntos de dados e ferramentas abertos.

A Hugging Face se tornou uma espécie de GitHub da IA. Milhões de desenvolvedores usam a plataforma para fazer upload e download de modelos, compartilhar conjuntos de dados, colaborar em projetos e implementar sistemas de IA.

Ela ocupa um papel central no ecossistema de IA para além dos serviços fechados operados por gigantes da tecnologia como OpenAI e Anthropic.

“É um pouco como um déjà vu de quando surgiram rumores de que o GitHub estava negociando uma aquisição”, diz Stefano Maffulli, defensor do código aberto. O GitHub acabou sendo comprado pela Microsoft por US$ 7,5 bilhões em 2018.

“Assim como o GitHub capturou uma parcela tão grande do ecossistema de código aberto, facilitando todas essas trocas, bifurcações, cópias e recursos de colaboração, vejo o mesmo tipo de abordagem com a Hugging Face.”

A QUESTÃO DA NEUTRALIDADE

A Nvidia não é uma estranha que esteja invadindo de repente o ecossistema de código aberto. A empresa investiu na rodada de financiamento de US$ 235 milhões da Hugging Face em 2023, quando a startup foi avaliada em US$ 4,5 bilhões.

As duas empresas trabalham em estreita colaboração há anos. Em 2023, elas anunciaram uma parceria que conectava diretamente os usuários da Hugging Face à infraestrutura de computação DGX Cloud da Nvidia.

Essa relação só se aprofundou. A Hugging Face agora oferece o Training Cluster as a Service, desenvolvido em parceria com a Nvidia, para facilitar o acesso de pesquisadores e empresas a grandes clusters de GPUs. Ainda assim, antes havia um limite para o quanto a Hugging Face estava disposta a se aproximar.

No início deste ano, segundo relatos, a empresa recusou um investimento de US$ 500 milhões da Nvidia que a avaliaria em US$ 7 bilhões, em parte porque não queria que um único investidor adquirisse influência excessiva. Uma aquisição completa obviamente iria muito além disso. “A peça crítica é esse lugar que é relativamente neutro”, diz Maffulli.

Segundo Duane O’Brien, diretor-executivo da Open Source Initiative (organização dedicada a promover o software de código aberto), a importância da Hugging Face não está apenas no enorme número de modelos e pesos que hospeda, mas também no fato de que os desenvolvedores podem encontrar esses modelos e pesos em um ambiente relativamente neutro. Uma aquisição se torna arriscada se essa neutralidade começar a desaparecer.

Leia mais: Nvidia, Microsoft e outras gigantes apostam em IA de código aberto

“A neutralidade da plataforma tem valor”, diz O’Brien, especialmente se ela garantir que modelos e pesos sejam apresentados com base em seus méritos, em vez de serem favorecidos em relação à tecnologia proprietária de seu dono. O perigo, acrescenta, é que um comprador possa “impedir que pesos e modelos abertos prosperem”.

"SALTO RUMO AO DESASTRE"

Manter essa neutralidade é importante porque a Hugging Face trabalha com GPUs da AMD, hardware da Intel, aceleradores da AWS e TPUs do Google – todos concorrentes do hardware da Nvidia – enquanto seus serviços hospedados têm integração com empresas como Amazon Web Services, Microsoft Azure e Google Cloud.

Nos últimos meses, a empresa também colaborou com a AMD, concorrente da Nvidia, para otimizar modelos de IA para seus chips. “O que pode se perder com a aquisição é esse caminho neutro”, diz Maffulli.

A Hugging Face se tornou uma espécie de GitHub da IA.

Transformar a Hugging Face, que ele descreve como uma espécie de Suíça do desenvolvimento de IA, em um caminho verticalmente integrado em direção à infraestrutura de uma única empresa seria, segundo ele, “uma decisão tola”.

Bradley M. Kühn, pesquisador de políticas da Software Freedom Conservancy (organização focada em garantir o direito de reparar, melhorar e reinstalar software), tem uma visão menos otimista. Ele volta a citar a compra do GitHub pela Microsoft por US$ 7,5 bilhões em 2018 e o que veio depois.

“A compra do GitHub pela Microsoft foi o salto rumo ao desastre que nos trouxe até aqui, certo?”, afirma, referindo-se ao GitHub Copilot e à comercialização do software hospedado na plataforma. “Eu esperaria que outra era de trevas fosse inaugurada por um comprador.”

A Nvidia tem bons motivos para querer a Hugging Face. Enquanto alguns de seus maiores clientes, incluindo Google, Amazon e Microsoft, desenvolvem seus próprios chips de IA, a Nvidia está expandindo sua atuação para outras partes da pilha de IA.

Ser dona da Hugging Face daria à empresa uma relação direta com milhões de desenvolvedores que decidem quais modelos usar e em qual hardware executá-los. A grande questão sem resposta é o que a Nvidia faria com esse poder.

Maffulli acredita que os desenvolvedores reagiriam caso a Hugging Face se tornasse excessivamente vinculada à sua proprietária. “Se isso acontecer, tenho bastante confiança de que os desenvolvedores vão dar um jeito”, afirma.


SOBRE O AUTOR

Chris Stokel-Walker é um jornalista britânico com trabalhos publicados regularmente em veículos, como Wired, The Economist e Insider saiba mais