O robô mais humano do mundo não quer trabalhar. Quer conversar com você

Primeiro robô humanoide hiper-realista produzido em massa aposta na economia da companhia emocional, apesar das limitações atuais

robô humanoide para companhia da UBTech
Créditos: UBTech/ Logan Vozz/ Mariola Grobelsk/ Unsplash/ Freepik

Jesus Diaz 5 minutos de leitura

A empresa chinesa de robótica UBTech acaba de lançar o U1, o primeiro robô humano hiper-realista produzido em massa. É a primeira vez que um humanoide com aparência realmente semelhante à de uma pessoa é fabricado e comercializado em escala.

A UBTech posiciona o U1 como um companheiro para seres humanos e aposta que o futuro da robótica estará na oferta de apoio emocional. Michael Tam, diretor de marca da empresa, define a economia da companhia entre humanos e robôs como "o primeiro cenário essencial da história com valor emocional ilimitado, companhia sem fronteiras e presença ao longo de todo o ciclo da vida".

Em comunicado, a empresa destacou que cerca de 90 milhões de pessoas vivem sozinhas na China e citou possíveis aplicações para o robô, como cuidados com idosos, recepção em hotéis e empresas e serviços domésticos de alto padrão.

No lançamento, em Shenzhen, representantes da UBTech enfatizaram a capacidade do U1 de conversar naturalmente e manter contato visual com as pessoas.

O robô ainda apresenta muitas limitações, mas pode ser visto como uma espécie de versão 0.1 dos replicantes do filme "Blade Runner - O Caçador de Androides" – um passo importante para o futuro da inteligência artificial incorporada em corpos físicos.

O problema é que o U1 está profundamente inserido no chamado vale da estranheza (uncanny valley). Quanto mais uma máquina se aproxima da aparência humana, mais seus defeitos se destacam, provocando uma sensação automática de desconforto.

Trata-se de um mecanismo moldado por centenas de milhares de anos de evolução, que faz nosso cérebro identificar rapidamente qualquer detalhe que pareça "errado".

O U1 tem pele de silicone, consegue interpretar o tom de voz do usuário e processa emoções sem enviar dados para servidores externos. Mas a ilusão desaparece durante a interação: os movimentos das articulações ainda denunciam os motores escondidos sob a pele sintética.

robô humanoide para companhia da UBTech
Crédito: UBTech

Suas capacidades físicas continuam limitadas, seus "músculos" não se movem como os de uma pessoa e sua dita "inteligência emocional" nada mais é do que reconhecimento de padrões combinado com previsões feitas por modelos de linguagem, e não sentimentos genuínos.

Talvez não sejam necessários centenas de milhares de anos para que esses robôs humanoides se tornem androides indistinguíveis dos seres humanos. Ainda assim, considerando os objetivos atuais da indústria, isso provavelmente não vai acontecer durante nossa geração, a menos que mais empresas invistam nessa direção.

OS OBSTÁCULOS TÉCNICOS DOS ROBÔS HUMANOIDES

Antes de conquistar o mercado de massa, esses robôs terão que superar o vale da estranheza.

Um estudo de 2016 mostrou que robôs com aparência parcialmente humana eram mais bem aceitos por pessoas acostumadas à tecnologia, enquanto usuários menos familiarizados reagiam de forma bastante negativa.

Já uma pesquisa de 2025 foi além ao monitorar sinais fisiológicos, como atividade cardíaca, condutância da pele e direção do olhar. O resultado mostrou que rostos excessivamente humanos provocam reações emocionais negativas mais intensas do que rostos claramente robóticos.

robô humanoide para companhia da UBTech
Crédito: UBTech

Curiosamente, vozes com sonoridade humana produzem o efeito oposto: transmitem mais conforto e geram impressões mais positivas. Ainda assim, basta observar esses robôs humanoides falando para perceber como seus movimentos continuam artificiais.

O rosto humano é controlado por 43 músculos capazes de produzir cerca de 10 mil microexpressões. Os movimentos sutis de contração e relaxamento que tornam uma expressão convincente não existem no U1 – e reproduzir esse nível de detalhe será indispensável para criar um androide realmente indistinguível de uma pessoa.

A UBTech enfatiza a capacidade do U1 de conversar naturalmente e manter contato visual com as pessoas.

Esse é apenas o desafio físico. Replicar os movimentos sincronizados de lábios, língua e laringe necessários para produzir fala natural – ou mesmo sincronizar perfeitamente uma voz sintética – ainda parece estar a décadas de distância.

O software talvez evolua mais rapidamente do que o hardware, já que a ciência compreende relativamente bem como os músculos faciais produzem expressões. O verdadeiro desafio será conectar esse conhecimento a sistemas de IA capazes de simular emoções de maneira convincente.

É importante lembrar que o U1 representa apenas a primeira versão comercial de um robô humanoide hiper-realista. Ainda está longe do resultado final, mas o fato de já estar disponível para compra representa um avanço importante.

UM ROBÔ QUE AS PESSOAS REALMENTE QUEIRAM COMPRAR

Segundo a UBTech, a página do U1 no marketplace JD.com ultrapassou um milhão de visualizações logo após a abertura da pré-venda.

Durante o evento de lançamento, Zhou Jian, fundador e CEO da empresa, afirmou que as reservas já haviam ultrapassado 13 mil unidades. Para garantir a compra, os interessados fazem um depósito reembolsável de 3 mil yuans (cerca de US$ 442).

A empresa também afirma que seu novo companheiro robótico não espiona os usuários. O U1 não precisa de conexão com a internet para interpretar emoções ou tomar decisões: um chip embarcado realiza todo o processamento diretamente no aparelho.

robô humanoide para companhia da UBTech
Crédito: UBTech

Segundo a UBTech, todos os dados pessoais ficam armazenados no próprio robô, sem serem enviados para servidores externos. Em teoria, isso garante maior privacidade.

Essa característica pode ser decisiva para o mercado de robôs domésticos, já que esses dispositivos estarão constantemente vendo e ouvindo seus proprietários. Afinal, ninguém gostaria que hackers tivessem acesso às memórias registradas por um robô armazenadas na nuvem.

Leia mais: Esse robô é humano? E esse humano é robô?

Resta saber como os primeiros compradores vão reagir quando começarem a receber seus companheiros robóticos, com entregas previstas para 15 de setembro.

O U1 não tenta se passar por um replicante nem pretende substituir completamente os seres humanos. Por enquanto, é apenas a semente de uma tecnologia que um dia poderá crescer nessa direção – oferecendo um corpo cada vez mais humano para a inteligência artificial incorporada.


SOBRE O AUTOR

Jesus Diaz fundou o novo Sploid para a Gawker Media depois de sete anos trabalhando no Gizmodo. É diretor criativo, roteirista e produ... saiba mais