O VAR está estragando o futebol? Ex-jogador acredita que sim
Ao substituir a emoção imediata pela análise de imagens, a tecnologia pode estar comprometendo a essência do esporte

Qual é o propósito de uma partida de futebol? É o momento em que um gol é marcado. Aquele instante de êxtase em que todos se levantam ao mesmo tempo, unidos pelos laços primitivos da paixão humana e da conexão entre as pessoas. É por esse momento que os atletas jogam e que os torcedores vão aos estádios.
Faria sentido instituir alguma regra ou dispositivo capaz de destruir completamente essa explosão visceral de adrenalina e alegria compartilhada? Claro que não.
Mas foi exatamente isso que o árbitro de vídeo, ou VAR (sigla em inglês para Video Assistant Referee), fez. Introduzido na Premier League inglesa em 2019 e ainda mais incorporado ao imaginário esportivo mundial durante a Copa do Mundo da FIFA de 2026, o VAR é, para alguns, uma inovação bem-intencionada, criada para tornar o jogo mais justo.
Mas na prática, e na maioria dos casos, o VAR substitui uma decisão subjetiva por outra. Em vez de depender apenas de um árbitro que acompanha o fluxo da partida, os responsáveis pela aplicação das regras delegaram decisões importantes a juízes em uma cabine remota, que consultam uma parede de telas gigantes, com o livro de regras sempre à mão.
Diante dessas telas, nas quais os lances em tempo real são desacelerados e retirados de seu contexto, a equipe do VAR aperfeiçoa seu julgamento. Mas por quê? E qual é o resultado disso?
Todos os gols da Premier League são automaticamente revisados pelo VAR, e as revisões mais perturbadoras provocam interrupções em campo. Um jogador marca, comemora e, em seguida, é obrigado a esperar em uma espécie de purgatório até a decisão oficial.

Havia alguém impedido? Em que momento ocorreu o impedimento? Quando começou a jogada de ataque? Houve uma falta – e quanto tempo antes? O braço estava em uma posição natural? Afinal, o que é uma posição natural? E a lista continua.
O objetivo das regras no esporte é permitir que o jogo aconteça. E o propósito de jogar é chegar àquele momento mágico e extasiante da comemoração.
PERDENDO O SENTIDO DO JOGO
O esporte atravessa divisões sociais, econômicas e políticas e, de maneira silenciosa, transmite a milhares de pessoas aquilo que temos em comum. O VAR interrompe essa conexão.
Com o replay instantâneo, ficamos com o significado, mas perdemos a experiência; com a dissecação do lance, mas sem aquela explosão de êxtase.
Wayne Rooney, lenda do Manchester United, clube da Premier League, resumiu a questão desta maneira: "estou simplesmente farto do VAR. Ele tira toda a emoção do jogo, a energia com que se joga futebol."

Rooney foi levado a essa declaração de desabafo por um erro evidente do VAR no mais recente clássico de Manchester (entre seu antigo clube e o Manchester City), que obrigou a Pro Ref, organização responsável pelo VAR, a pedir desculpas.
Mas, quando erros envolvendo novas tecnologias acontecem, em qualquer área da vida, costumamos cair em uma linha equivocada de "pensamento tecnológico". E o VAR é um exemplo típico disso.
Nossa suposição inicial costuma ser a de que a tecnologia é boa, só não está sendo usada do jeito certo. Se ao menos fizéssemos as revisões mais rapidamente, tivéssemos sensores melhores ou acrescentássemos mais ângulos de câmera e assim por diante.
Em outras palavras, dizemos a nós mesmos: "Temos aqui um problema tecnológico; vamos encontrar uma solução tecnológica".
na prática, e na maioria dos casos, o VAR substitui uma decisão subjetiva por outra.
Mas não é assim que a tecnologia funciona. Depois que abrimos a caixa de Pandora, passamos a lidar com uma série de problemas crescentes e praticamente insolúveis. Em pouco tempo, perdemos completamente de vista a única coisa que importa: o jogo. O momento de êxtase.
Não há dúvida de que as apostas esportivas seriam um grande obstáculo a superar em qualquer tentativa de acabar com o VAR. As pessoas apostam nos resultados das partidas e em acontecimentos específicos durante os jogos, e querem ter certeza de que as decisões estão corretas.
Com seus múltiplos ângulos de câmera e replays, a nova tecnologia certamente facilita a tarefa de atravessar a névoa da incerteza. Mas vale a pena pagar esse preço?
"ISSO JÁ NÃO É MAIS FUTEBOL"
Uma das razões pelas quais o futebol sempre foi diferente é sua fluidez: 90 minutos de jogo, com um intervalo de 15 minutos. Só isso – pelo menos até as controversas "pausas para hidratação" da última Copa do Mundo.
Agora, com o VAR, o futebol entrou para o grupo de atividades que mais parecem processos jurídicos, nos quais o jogo é cortado e dissecado, interrompido e fragmentado.
Na Premier League, um grito de protesto que surgiu depois da introdução do VAR se tornou recorrente e reflete a insatisfação praticamente universal dos torcedores sempre que a tecnologia invade uma partida: "Isso já não é mais futebol". E existem variações ainda mais ácidas dessa reclamação.

As justificativas práticas mais evidentes para o uso do VAR são relativamente simples: a tecnologia existe; as apostas esportivas são uma força gigantesca; e sentimos uma necessidade profundamente enraizada de acertar as decisões.
Mas o VAR também representa algo mais. É um sintoma de correntes mais profundas que atravessam as sociedades modernas, muitas delas relacionadas aos efeitos da mídia.
Se nos afastarmos um pouco do uso do VAR em uma partida específica, o quadro mais amplo revela fraturas sísmicas em uma cultura dominada por câmeras e telas, sejam as de nossos smartphones ou os telões dos estádios.
Será que realmente queremos comprometer o tecido que conecta as pessoas em eventos coletivos, mergulhando cada vez mais fundo no labirinto da aplicação de regras e da análise dos lances? Não precisamos de menos assistência de vídeo, em vez de mais?
Com o replay instantâneo, ficamos com o significado, mas perdemos a experiência.
Talvez tenha sido o filósofo Søren Kierkegaard quem melhor resumiu nossa situação. Em 1846, ele escreveu um ensaio chama- do "A Época Presente", no qual contrapõe o declínio da ação revolucionária à ascensão da reflexão, no contexto da mídia de massa.
Dizer que ele estava à frente de seu tempo é um eufemismo enorme. Kierkegaard antecipou como nosso ambiente de análise, comentários e debates intermináveis se conecta à estrutura mais ampla da época em que vivemos.
Em sua analogia com um patinador no gelo, podemos enxergar claramente o espectro futuro do VAR e sua capacidade de esvaziar o instante de êxtase:
"Se uma joia preciosa, desejada por todos, estivesse sobre um lago congelado, onde o gelo fosse perigosamente fino e a morte ameaçasse quem se aventurasse longe demais, enquanto o gelo próximo à margem fosse seguro, em uma época apaixonada as multidões aplaudiriam a coragem do homem que avançasse sobre o gelo. Temeriam por ele e com ele, em sua ação resoluta; lamentariam sua morte se ele afundasse; e o considerariam divino se retornasse com a joia. Nesta época sem paixão, marcada pela reflexão, as coisas seriam diferentes. As pessoas se julgariam muito inteligentes ao perceber a insensatez e a inutilidade de se aventurar sobre o gelo. Na verdade, considerariam aquilo incompreensível e ridículo. Assim, uma empreitada inspiradora seria transformada em uma exibição de acrobacias."
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Talvez realmente vivamos em uma época de reflexão. Ou talvez estejamos perto do fim de uma era e prestes a entrar em outra. Pode ser que eu seja excessivamente otimista, mas acredito que Kierkegaard possa nos apontar um caminho para uma alternativa mais extasiante: o fim do VAR.