OpenAI encerrou a ferramenta antes que este filme feito com IA ficasse pronto
O diretor de “Critterz”, Nik Kleverov, explica como o encerramento do Sora obrigou sua equipe a reconstruir o projeto

"Critterz" foi um dos primeiros longas-metragens feitos principalmente com inteligência artificial. Mas a OpenAI encerrou abruptamente o Sora, a ferramenta da qual seu diretor, Nik Kleverov, dependia.
Diretor de criação da produtora Native Foreign, Kleverov defende que a IA não está matando Hollywood, mas está prestes a reinventá-la.
Em entrevista ao podcast Rapid Response, apresentado por Robert Safian (ex-editor-chefe da Fast Company), ele explica por que 2026 é o marco zero da adoção em massa da IA pela indústria cinematográfica e por que o talento humano está mais requisitado do que nunca quando o objetivo é uma grande narrativa.
Rapid Response – O filme estava previsto para estrear no Festival de Cannes, mas acabou sendo prejudicado por questões técnicas. Ou será que o pessoal de Cannes simplesmente não gosta muito de IA?
Nik Kleverov – A tecnologia central com a qual estávamos fazendo o filme desapareceu no meio da produção. Mas lembro que, quando fizemos o anúncio no ano passado, dizendo que a OpenAI apoiava nosso filme e tudo mais, houve quase um pré-boicote.
Havia grupos e pessoas na França dizendo “não, não vamos ter isso em Cannes.” E foi tipo: bem, sim, ok. É claro que também pensávamos que não dá para garantir que você vai exibir um filme no Festival de Cannes. Então, era mais uma iniciativa da OpenAI na qual estávamos embarcando.
Rapid Response – A ideia inicial do filme veio de um curta feito a partir da OpenAI, certo?
Nik Kleverov – Isso mesmo. Na Idade da Pedra dos vídeos de IA, em 2022, pouco depois do lançamento do DALL-E [plataforma de texto para imagem da OpenAI], apresentamos a eles uma ideia de curta-metragem.
Depois que eu e meu sócio, Chad Nelson, criamos esse universo de "Critterz", apresentamos a seguinte ideia: “e se fizéssemos um passeio por essa bela floresta, com todas essas criaturinhas?” Assim, você resolve a parte de demonstração da tecnologia.

Começa meio como um “Planeta Terra”, com um narrador onisciente falando sobre esse mundo majestoso. Mas, quando conhecemos as criaturinhas e as vemos em seu ambiente natural, aquilo se transforma em um esquete do Monty Python. É só uma troca de provocações irreverente e boba entre os personagens na tela e essa narração em off.
E era isso. Um curta muito simples, de cinco minutos. Acabou sendo muito mais bem-sucedido do que imaginávamos. As pessoas gostaram muito e ficaram curiosas sobre o processo.
Vamos lembrar: naquela época, sim, ele era gerado com IA, mas todo o vídeo era tradicional. A parte generativa, na verdade, era a criação dos personagens e do universo. Todo o resto era feito da maneira como trabalhamos em criação.
Rapid Response – Quando vocês passaram a fazer um longa-metragem, começaram a usar mais ferramentas generativas. Foi quando começaram a usar o Sora?
Nik Kleverov – Lançamos o curta em 2023. O Sora foi anunciado em meados de 2024. Então, entre 2023 e 2024, o filme “Critterz” de fato criou uma boa relação entre a Native Foreign e a OpenAI. Fazíamos trabalhos criativos para eles, trabalhos de agência.
Aí eles disseram: “vamos nos tornar multimodais. Vocês têm interesse em testar isso?” Eu estava experimentando o Sora antes de ele ter nome e fui um dos primeiros a usá-lo.
Rapid Response – Quando o Sora foi descontinuado, você se surpreendeu? Recebeu algum aviso prévio?
Nik Kleverov – Eu adoraria dizer que sou tão importante assim, mas não. Infelizmente, soubemos mais ou menos ao mesmo tempo que todo mundo. Foi um desafio interessante para nós, cineastas. Acho que é um ótimo estudo de caso sobre onde estamos nesse universo.
Lá estávamos nós, levando adiante um dos primeiros longas, especialmente um projeto animado e voltado para todos os públicos, e, de repente, nossa principal tecnologia desaparece ou se torna obsoleta. É verdade que eles mantiveram a API aberta para nós e tudo mais.
Mas, ao mesmo tempo, tivemos de pensar muito no processo e dizer: “faz sentido usar algo que não terá suporte alguns meses adiante? Ou vamos atender alguns dos telefonemas?”. Porque, é claro, todo mundo ligou para a gente naquele dia.
Havia muitas empresas querendo trabalhar nisso conosco, e nós estávamos, naquele momento, nos dedicando exclusivamente àquele projeto. Então fizemos uma parceria com a AGC [Studios] e levamos o filme ao Festival de Cannes, não necessariamente para vendê-lo, mas para iniciar conversas.
Rapid Response – Então não era o filme completo, foram trechos do filme que vocês puderam levar. Esses trechos foram feitos no Sora ou com algumas das outras ferramentas novas?
Nik Kleverov – Os dois. Havia bastante coisa feita no Sora. E, entre março e maio, dissemos: “vamos começar a reconstruir e fazer alguns novos testes de câmera.” Nós os chamamos de testes de câmera, embora sejam testes de modelo. É tipo “como fica esta lente? Como fica aquela lente?”. Mas, quando digo lentes, quero dizer os programas generativos.

Cada um é diferente e a maneira de usá-los é diferente. O mais louco é que 10 pessoas podem se usar a mesma ferramenta e obter resultados diferentes.
Então, quando as pessoas dizem que os humanos já não são importantes porque as ferramentas são todas iguais, isso é absolutamente falso. Dependendo de qual profissional criativo está no comando, você obtém resultados muito diferentes.
Rapid Response – Assim como ter a mesma câmera não significa que você termina com o mesmo filme.
Nik Kleverov – Fala-se muito em democratização, mas também digo que todo mundo tem uma câmera no bolso. E quantos jovens de 13 anos estão fazendo a próxima obra-prima do cinema?
Há alguma verdade na ideia de que vão surgir talentos não descobertos de todas as partes do mundo, que finalmente terão uma chance e farão muitas coisas.
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Mas eu definitivamente não sigo a narrativa de que Hollywood está morta porque contar histórias é difícil. Fazer uma narrativa realmente excelente e transcendental continua sendo difícil.
Rapid Response – Com outras IAs que uso, percebo que, por parecer tão fácil obter mais variações, posso entrar em uma espiral e continuar tentando criar coisas novas. Como isso funciona para você?
Nik Kleverov – É preciso saber se conter. Acho que é aí que a direção criativa e a visão se tornam realmente cruciais, porque você pode divagar para sempre.
À medida que as ferramentas melhoraram, a proporção também melhorou. Em algumas tomadas, fiz mil gerações antes de chegar a uma que fosse boa o suficiente, e que ainda precisei finalizar com efeitos visuais.
Dependendo de qual profissional criativo está no comando [da IA], você obtém resultados muito diferentes.
Agora, talvez estejamos em uma proporção de cinco para um, 10 para um, dependendo de termos estabelecido uma base muito forte do que conseguimos fazer. As coisas se tornaram muito mais eficientes.
Mas, sim, há uma serendipidade, e você precisa ser maleável o bastante, mas também precisa manter o projeto nos trilhos. É um equilíbrio interessante.
Rapid Response – Faz apenas alguns anos que temos essas capacidades dessa forma. Em que ponto estamos? Com que rapidez isso está mudando?
Nik Kleverov – De muitas maneiras – e você falou antes sobre os estúdios de Hollywood. Temos conversado há muito tempo, mas 2026 realmente parece o marco zero, quando as pessoas dizem: “vamos experimentar algumas coisas. Vamos de fato avançar e fazer acontecer.” Então, acho que estamos apenas no começo.